A nova sociedade definida pelo novo cansaço

O livro é de 2010, mas poderia perfeitamente ser de 2020. A Sociedade do Cansaço de Byung-Chul Han é uma obra de leitura obrigatória para quem quer compreender a contemporaneidade e o quão diferente ela é do século passado. Não espere o leitor uma história ficcionada, com personagens, enredo e um final feliz. Falamos de filosofia contemporânea e da realidade como ela fatalmente é – ainda que haja espaço para referências literárias como Herman Melville, autor de Moby Dick.

                Han começa por expor a sua teoria sobre a sociedade do século XXI: do ponto de vista imunológico, já não padecemos maioritariamente de doenças virais, como o sarampo ou a varíola, oriundas de ameaças exteriores. As vacinas e os antibióticos tornaram-se a normalidade. O ser humano atual sofre, ao invés, de doenças que nascem dos seus próprios corpos: ansiedade, burnout, bipolaridade, depressão, défice de atenção, hiperatividade – numa palavra, cansaço. Estamos cansados, porque, enquanto seres limítrofes, não conseguimos apreender todo o excesso de que o mundo se tornou palco: excesso de informação, excesso de comunicação, excesso de produção, excesso de consumo. Estamos obesos de possibilidades e, talvez por isso, obcecados com o fracasso. Enquanto humanidade, não estamos a saber lidar com o excesso de coisas existentes na correlação com o tempo que temos disponível para viver. Se antes vigorava a dialética da negatividade, em que os vírus enfraqueciam as nossas defesas imunitárias, hoje morremos de excesso de positividade, excesso que leva tanto à necessidade de escolher como ao risco de escolher mal. E essa frustração por não atingir a suposta completude é, sem dúvida, a grande doença da contemporaneidade. A autoculpabilização é a consequência direta de uma estrutura social neoliberal do mundo ocidental do novo século, que prometeu um excesso de felicidade impossível de efetivar. A humanidade achou que a comodidade e a felicidade eram sinónimos correlativos, mas o excesso de facilidades tem levado, na verdade, a uma onda de frustração e autocomiseração que não estava prevista. Muito por aqui se explica o descrédito ainda existente relativamente às doenças mentais e neurológicas: além de elas não serem ‘visíveis’, também não era previsível a sua propagação numa era em que a busca pela felicidade se normalizou e se tornou ‘possível’. Finalmente a voz de psicólogos e psiquiatras começa a ser ouvida. Contudo, ainda com uma grande resistência nas gerações mais velhas, que continuam sem compreender como pode a depressão ser uma doença se não faz ferida e se não se cura com um medicamento.

                Deste modo, a sociedade contemporânea preconizada por Han pauta-se por uma falsa ilusão de que lhe é concedida a possibilidade de fazer tudo o que quiser. Da era do proibicionismo do século passado – a que o filósofo chama de sociedade disciplinar – temos vindo a transitar para a era da falsa liberdade – a que Han chama de sociedade de produção. Não é de admirar que a primeira sociedade “produzia loucos e criminosos”, ao passo que a segunda “gera, em contrapartida, deprimidos e frustrados”. A “sociedade tardomoderna do trabalho” ainda não compreendeu que a luta contra a produtividade é desigual e impossível de vencer, porque a produtividade é um ser (incorpóreo, é certo) permanentemente insatisfeito. A ânsia pela permanente melhoria da produtividade não se coaduna com a finitude dos recursos naturais e das faculdades físicas e mentais do homo sapiens sapiens. Lamentável e vergonhosamente, este envelhece e sucumbe, para azar do neoliberalismo e do próprio homo sapiens sapiens, que se explora a si mesmo tendo como mantra a maximização da liberdade enquanto conceito tangível, fixo e alcançável.

                Numa escalada de asserções inquietantes, Han debruça-se sobre o conceito tão afamado do multitasking. Segundo o professor da Universidade de Artes de Berlim, o multitasking não constitui uma prova de progresso das faculdades humanas, mas um retrocesso na direção da animalidade: uma vez que a sua sobrevivência está constantemente ameaçada, os animais selvagens desenvolveram a capacidade de realizar duas ou mais tarefas em simultâneo. No fundo, Han considera que esta característica, hoje tão procurada nos CV’s em todo o mundo, é, na verdade, uma regressão intelectual ignorada sob o pretexto do grande conceito do novo século: a produtividade. A atenção múltipla a tarefas diferentes está, portanto, diretamente associada ao défice de atenção: quanto mais recente é uma geração, menos ela é capaz de se focar e de compenetrar numa única tarefa ou pessoa, o que é sintoma claro de uma desumanização em curso, já só invisível a quem está parado no tempo. Paradoxalmente, estas são as mesmas pessoas que, por estarem constantemente ativas, veem o tempo escoar-se-lhes mais rapidamente. Walter Benjamin dizia em 1977 que falta tédio à sociedade. E quando falta o tédio, a cultura e a recreação, naturalmente, ressentem-se. Para surpresa de muitos, não é por o mundo andar mais rápido que se produz algo de novo mais rapidamente. Já escrevia Nietzsche em 1878 na obra Menschliches, Allzumenschliches: “A falta de serenidade conduz a nossa civilização a uma nova barbárie. Nenhuma era valorizou mais os seres ativos, isto é, os inquietos.” E quem são estes inquietos de que Nietzsche já falava há mais de um século? Ora, segundo Han, são aqueles que abdicam da sua condição de Ser. Provavelmente, porque consideram que não há tempo para ficar parado a contemplar introspetivamente a sua própria existência. Em mais um paradoxo brilhantemente exposto, estes escravos do trabalho que se dizem ativos (e que aboliram a palavra “idiossincrático” do seu dicionário) não produzem, na verdade, outra coisa que não o seu próprio esgotamento nervoso, ao passo que a vita contemplativa – conceito cunhado por Santo Agostinho algures entre os século IV e V – continua a ser, diz Han, a atividade mais humana de todas. Assim, “a hiperatividade é uma forma extremamente passiva da ação, já que não permite qualquer atividade livre”.

                Vivemos numa época de crescentes e perigosos antagonismos, mas, enquanto material imunológico e mental, não somos já os mesmos seres humanos que éramos há algumas décadas. Assim, é curioso cruzar a análise filosófica deste livro com o contexto recente da política internacional e perceber que estamos entregues ao caos e à imprevisibilidade. Numa era globalizada – em que a comunicação encurtou as distâncias culturais – pós-político-partidária e moderadamente pós-nacionalista, é impossível prever como a humanidade reagirá, por exemplo, em caso de conflito global. A promessa da realização pessoal às custas da promessa da produtividade sempre crescente tem gerado seres humanos de ego hiperativo e alma paralisada. Ou, como afirma Han, “o aumento excessivo de produção leva ao enfarte da alma”. E por que razão a sociedade de hoje é, afinal, a sociedade do cansaço? Enquanto humanos, cedemos, mais tarde ou mais cedo. Precisamos de repousar, inevitavelmente. Porém, numa tendência que anda de mãos dadas com a mecanização económica, os tempos de repouso já não são momentos de tédio contemplativo/produtivo, mas de absoluta animalização da mente, paralisada e esgotada. Não surpreende por isso que, em Portugal, se considere cara uma ida ao teatro por dez euros, enquanto uma subscrição de Netflix é quase unanimemente vista como um bom investimento. Em Portugal e no mundo dito civilizado, o entretenimento está a vencer esta batalha, e por KO, meus caros. Mais tarde ou mais cedo, como cantava um sábio, “o corpo é que paga”. E, neste caso, a alma e o mundo também. Boas leituras.

Corrigido por Adriana Alves

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