Guardiões do velho Cinema

Scorsese de volta ao grande cinema depois de um “insonso” Silêncio. Não é a Magnum Opus do velho mestre, mas não deixa de ser um grande filme.

Fonte: CNBC, imagem de Netflix

A certa altura no Irlandês, Jimmy Hoffa (Al Pacino), um dos homens mais conhecidos da América, ouve-se por momentos que é tão famoso como Elvis, diz a Frank Sheeran (Robert De Niro) que levará a “luta pelo seu sindicato até à morte”, anunciando ali o desenlace final que terá sobre a pistola de Sheeran. A história do envolvimento do sindicato de Hoffa, os Teamsters ligados ao transporte em camiões, com a Máfia, é parte importante do filme, é um regresso de Martin Scorsese ao filme de Gangster, que eternizou um género com o fabuloso Tudo bons rapazes ou Goodfellas. Tal como o filme dos anos 90, O Irlandês, The Irishman na versão original, começa com um traveler. Ao contrário do “long take” no bar Copacabana que Ray liotta nos mostra em Goodfellas, aqui temos uma pequena imersão num lar de idosos com várias alusões religiosas, não fosse Scorsese fervoroso católico na sua juventude quase ter entrado num seminário. No fim dessa magnífica “viagem” espera-nos um De Niro envelhecido, à espera da morte da sua personagem.

É Robert De Niro quem nos apresenta à sua velha rapaziada: Al Pacino, Joe Pesci, e Harvey Keitel.  O reencontro com a nova Hollywood dos anos 70, apesar de Pacino nunca ter sido dirigido por Scorsese – O Irlandês é o culminar de um sonho antigo de ver os dois juntos – mas dele ficam filmes monstruosos como A Padrinho de Coppola, ou Serpico de Sidney Lumet, que ajudaram a cimentar uma nova forma de fazer cinema em Hollywood. Do lado de Keitel ou Pesci, a proximidade com Scorsese é grande, Keitel em Táxi Driver e Pesci em O Touro Enraivecido, a Magnum Opus do americano. Essa proximidade é bem patente no filme, como um desfile de corpos velhos, todos eles com algo a dizer. Já bem perto do fim, num momento sublime, Pesci justifica-se a De Niro que “os outros foram, mas eles foram salvos; que se lixem os outros”. Teimosia de um velho agarrado ao passado; teimosia de um realizador que quer continuar a contar histórias à maneira clássica da sua Hollywood em vez de “fazer filmes que mais parecem parques temáticos”. E De Niro? Magnífico na “pele” de Frank Sheeran. Como esquecer a magnífica cena em que Sheeran ajusta contas com um comerciante local? Um regresso do De Niro “de combate” que fez dele um dos melhores atores de sempre; a expressão de simplicidade dada à crueldade ao jeito de Goodfellas.

A Netflix ousou pegar na ideia de Martin Scorsese e Robert De Niro, baseada no livro “I heard you paint Houses” de Charles Brandt, e concedeu-lhe, numa ousadia de assinalar, a possibilidade de montar um filme com mais de três horas. Talvez o espectador fique com a sensação de que é curto e isso é inteiramente justificado. O Irlandês pedia mais um pouco de maturação em determinados momentos chave.  A plataforma de Streaming reservou 150 milhões do seu gigantesco investimento – a ideia é a de derrubar a concorrência com originais de grandes nomes da cinematografia mundial no qual Scorsese é a figura de proa – para a produção do filme de crime épico. Boa parte dessa maquia serviu para os efeitos especiais. Não para revestir o filme de explosões ou de construção de cenários futuristas, mas sim para retirar o peso da idade, em alguns momentos do filme, às suas personagens principais.

Os últimos 30 minutos de O Irlandês são os mais bonitos de todo o filme; uma dança de corpos velhos à espera do delito final: a morte. Aqui explorada não por momentos de sangue, não nos vem à memória o final grande eloquente de Táxi Driver, mas por momentos de reflexão que parecem saídos da Obra de Clint Eastwood – outro velho inconformado.  O Irlandês merecia a sala escura onde sonhos se confirmam, mas seja num tablet, telemóvel ou televisão, consegue o mais importante: contar uma história e levar à reflexão o espetador e com isso não nos podemos desiludir.

Artigo Corrigido por: Mariana Coelho

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