Artes Visuais e Performativas

A perna esquerda de Tchaikovsky

Quando cheguei ao Teatro Camões, estava à espera de ver mais do mesmo. No entanto, rapidamente troquei de ideias: este é um bailado absolutamente fora do normal: não há um conjunto de variações do início ao fim do espectáculo, nem tão pouco entradas e saídas de bailarinas pálidas e vestidas com tutus e sapatilhas de ponta. Há uma história, a de Barbora Hruskova, contada na primeira pessoa e na companhia do pianista Mário Laginha.

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Quando era pequena, Hruskova queria dançar. Embora os pais lhe dissessem que não tinha jeito nem corpo para tal, após anos de treino, lá conseguiu fazer com que os seus ombros não tocassem as orelhas, que os seus braços fechassem como asas (“e como um verdadeiro cisne”) e que as suas costas pudessem falar por ela quando não mostra a boca ou o olhar. Acabou por se tornar a bailarina que queria e ser solista numa das edições de “O Lago dos Cisnes”, da Companhia Nacional de Bailado. Infelizmente, Hruskova tem uma perna esquerda de Tchaikovsky, a perna que, por não esticar completamente devido a algumas complicações ao longo da carreira e de anos a dançar, não lhe permite executar na perfeição certos movimentos. Mas que será de uma bailarina sem a perfeição que a caracteriza? É a mesma, mas sem ser perfeita. É real. É perfeita na imperfeição do que dança e, sobretudo, do que é.
Para Hruskova o lema sempre foi só um: repetir, repetir, repetir. Repetir cada dança em frente a um espelho durante horas; repetir cada dança até que passasse a viver apenas a vida que via no espelho; repetir tudo tantas vezes até que aquilo que mais lhe doía fossem os dias em que não dançava e não as lesões que ia sofrendo. Ao longo de mais de trinta anos de carreira, a bailarina lembra, com algum humor, as danças que lhe provocaram lesões quase irremediáveis, mas que, com o tempo, nunca a impediram de dançar.
Quem acha que as bailarinas que contemplamos nos palcos mais famosos do mundo, e não só, levam uma vida fácil, desengane-se; há corpos que não nasceram para dançar e é disso que nos fala Barbora Hruskova, numa analepse às marcas que a dança durante anos deixou no seu corpo e à luta que levou uma vida inteira para que nunca deixasse de seguir o que mais ama.

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