Opinião

A saúde alimentar e o perigo das redes sociais

Aviso de gatilho: o conteúdo pode ser sensível para quem lide/esteja a lidar com distúrbios alimentares.

Quando ainda cabíamos no colo da nossa mãe, aprendemos a apreciar o carinho que os outros nos dão. Soletrámos as nossas primeiras palavras e habituámo-nos a valorizar a hora da refeição. Por muito que sentíssemos um desdém ao nos apresentarem o prato à mesa de jantar, éramos forçados, em algumas alturas de forma gentil, noutras nem tanto, a comer qualquer refeição que estivesse à nossa frente. O ato de comer tornara-se numa prática extremamente necessária na rotina. Se não interiorizássemos o quão imprescindível era a nutrição, diziam-nos que se não comêssemos não iríamos ser fortes ou tão inteligentes. Ao crescer, achei que os filósofos eram as pessoas mais fortes de todo o planeta e que por esse motivo talvez fossem todos muito barrigudos, ao ponto de carregarem consigo todas as questões existenciais do mundo no seu umbigo. Pela lógica, “A República” só teria sido concretizada pelo simples facto de Platão comer muita sopa. E se eu queria ser tão inteligente deveria obedecer às ordens dos meus pais e também comer a tal sopa ao jantar.

Com a idade, as motivações de cariz imaginário desenlaçam-se e a importância da saúde e o seu trabalho como base do que vivenciamos acaba por se tornar numa verdade enraizada. Fizeram-me acreditar que se não mantivéssemos o hábito de nos alimentarmos, não restaria muito de nós por cá. Sendo assim, tal como os iguais ao meu redor, naturalmente, continuei a alimentar-me de forma a marcar presença. E, realmente, das vezes que me privava desse bem, dava razão à sociedade – aparentemente tratava-se de um elemento obrigatório na equação de um ser. Estas afirmações talvez nos levem a achar que se o ato de colocar comida no prato e ingeri-la é tão básico, então não seriam necessários profissionais intermediários à função. Esclareço de imediato que não me filio nessa linha de raciocínio.

Numa fase inicial de incapacidade motora temos, por norma, progenitores ou presenças semelhantes que nos asseguram de que a ingestão de alimentos é bem-sucedida. Mais tarde passamos a ser acompanhados pelas cantinas escolares. Na etapa seguinte as escolhas são livres. Será de esperar que na fase de conservação da nossa já emancipada saúde, os hábitos e comportamentos alimentares que tenhamos adquirido se venham a projetar. No entanto, este fenómeno não chega a ser linear na prática.

Fonte da imagem: Ilustração de Sylvie Reuter para BBC.com

É necessário deixar claro que, ao referir o campo da saúde neste artigo, inevitavelmente faço referência tanto à saúde física como à integridade mental. Seria impossível abordar um dos temas sem que um espelhe o outro. São conceitos que andam de mão dada, sendo que a alimentação se enquadra em ambas as dimensões.

Não podemos esquecer que a presença profissional influencia o nosso desenvolvimento de forma indireta ao longo da vida: através de nutricionistas pré-parto, pós-parto e respetivos profissionais por detrás das já mencionadas cantinas escolares. No entanto, esse supervisionamento é dificultado na idade adulta do indivíduo.

Não pretendo seguir o raciocínio de que a sociedade de informação é, no global, a provocadora da instabilidade da maior parte dos défices não-genéticos que possuímos. Mesmo assim, é preciso ter em consideração esse fator. Num universo de jovens e adultos, destacam-se dois grupos exacerbadamente estereotipados e necessários para um maior esclarecimento na matéria. O que distingue estes dois grupos é a forma como lidam com os problemas que afetam a sua saúde.

Desde o início do milénio até 2014 que os distúrbios alimentares levaram à hospitalização de cerca de 4500 doentes (dados de 2018 do Diário de Notícias). Dentro das doenças deste tipo encontram-se alguns distúrbios como a bulimia, a alimentação compulsiva e a anorexia nervosa, sendo esta última a com maior presença nos hospitais públicos do país. É errado dizer que, neste primeiro grupo, somente indivíduos que se encontram abaixo do peso ideal sofrem desta doença ou que obrigatoriamente sofrem dessa privação nutritiva. Não há uma forma de resumir os fatores que provocam este perigo à saúde dos envolvidos, pois poderá basear-se numa sabotagem interior ou uma necessidade de se integrar na sociedade. A autossabotagem resulta de um sentimento de culpa, que provém da dismorfia corporal (distorção da imagem que temos do nosso corpo).

Num espetro não tão longe quanto parece estar, no segundo grupo, alguns adolescentes recorrem a práticas desportivas, frequentam ginásios e consomem suplementos de forma a atenuar as suas inseguranças. Não é preciso prolongar este conceito estereotipado, pois cada vez mais o próprio se expõe nas redes sociais.

Caracterizados os intervenientes, chego ao ponto-chave: o perigo vem em dosagens parecidas. É claro que frequentar um ginásio concretamente não tem qualquer risco equiparado a privarmo-nos de bens alimentares. Em destaque, qualquer caminho é preferível ao que nos leva a um distúrbio alimentar. No entanto, estarão os sócios da Herbalife assim tão longe desse perigo? É uma questão com potencial polémico que prefiro deixar por responder de momento. A verdade é que, na maior parte dos casos, os jovens que se propõem em ter uma vida mais saudável, incluindo certos tipos de dietas e hábitos de treino, não são acompanhados por profissionais.

Por norma, quem não se interessa por conteúdo que pessoas motivadas a uma saúde impecável partilham não será alvo desse conteúdo na Internet. Infelizmente, isto não é um padrão. Qualquer dono da sua conta numa rede social tem controlo das pessoas que segue, mas nem sempre do conteúdo que lhe chega à tela do dispositivo. Com isto quero dizer que mesmo que não nos interesse ver assuntos relativos a dietas, dicas de treino ou a consumo de suplementos, há uma probabilidade de, mesmo assim, aparecerem ideias dessas partilhadas por pessoas ou entidades que seguimos.

Em alguns casos, esse conteúdo de busca da vida saudável perfeita é feito não só, como já mencionei, por indivíduos que não são acompanhados por profissionais, como também, destacando, eles próprios não são entendidos na matéria o suficiente para partilharem factos credíveis e que não venham a causar danos. Os meios utilizados para esta passagem de conhecimento vão desde artigos com dicas saudáveis até demonstrações de padrões de treinos. Em ambos os casos, quando não é criado por um profissional, o aconselhamento nutritivo pode conter défices e no caso dos treinos podem não ser adaptáveis aos visualizadores ou não conter esse aviso sequer. Mais que importante do que nos instruirmos quando criamos conteúdo ligado à saúde é termos consciência do possível alvo que os algoritmos das redes sociais possam atrair.

Fonte da imagem: Ilustração de Gracia Lam para nytimes.com

É neste ponto que ambos os grupos de jovens simplificados entram em conflito e as interpretações colidem. Sendo que o primeiro grupo retratado se encontra num estado mental fragilizado, não deve ser alvo de qualquer incentivo que provoque a continuidade dos seus atos autodestrutivos. Primeiramente deve ser acompanhado por um profissional que tente atenuar e perceber como contornar as tendências perturbadoras. No entanto, este trabalho poderá ser dificultado pela falta de controlo que o paciente tem diante dos media. A única forma de se evitar o contacto prejudicial a este grupo seria isolando-se, o que, creio, levaria a tantos outros transtornos.

Uma publicação regida por um título “Como ter uma alimentação mais saudável” ou de linha condutora com projeção ao emagrecimento servirá de gatilho para indivíduos que estejam a lidar com um distúrbio alimentar ou a recuperar do mesmo. Este artigo ou Instagram story, chamemos-lhe o que quisermos, normalizará o pensamento de que nos temos de preocupar com o nosso peso, a nossa figura, ao ponto de partilharmos dicas e conselhos com outros. De certa forma, não está errado. Mas será assim tão relevante? Não fará mais sentido cada indivíduo frequentar um profissional que o ajude? Se formos a ver, a maior parte desses conteúdos poderá não ajudar pessoas que queiram emagrecer de forma saudável (dado o cariz habitual não ser profissional), como também levará a uma normalização de futuros e permanentes distúrbios alimentares. Ao fim de contas, não se ganha muito em criar esse tipo de conteúdo que, apesar de ter boas intenções, levará não só a possíveis percursos negativos, normalizações dos mesmos e um desfoque perante o conteúdo realmente profissional que poderá ser consultado nos media. Obviamente que este raciocínio não deve incentivar censuras ou a colocação de avisos de gatilho por tudo o que seja da secção da saúde. Os “produtores de conteúdo” devem ser alertados e aconselhados a incentivarem as consultas e pesquisas profissionais na área. O objetivo não é culpar filiados de uma vida saudável, até porque é provável que o conteúdo jornalístico também faça este tipo de falhas ou não tenha em consideração o público que alcança.

Autor da imagem: Eros Dervishi

Quando disse anteriormente que os dois grupos que retratei não se encontravam tão longe como aparentava referia-me ao facto de nos esquecermos que dentro dos distúrbios alimentares há uma componente que poderá incluir todo o grupo defensor da “saúde perfeita”. Com auxílio da CUF, tendo em conta a informação que consta no seu website, é possível anunciar de forma adequada o distúrbio que poderá abranger o segundo grupo: “(…) na ortorexia existe uma obsessão com a qualidade e com a saúde e não com a quantidade e com o peso, diferenciando-se nisto da bulimia e da anorexia”. O grupo sujeito a este comportamento compulsivo tem por hábito retratar ou limitar os seus interesses à componente saudável. Certamente já vimos um indivíduo com essas características passar na nossa tela das redes sociais. Se formos a pensar melhor, se calhar foram poucas as vezes em que o seu conteúdo digital saiu dessa bolha. O mesmo acontece no Twitter com a comunidade de pessoas que sofrem com distúrbios alimentares: é raro vermos conteúdo distinto dessa obsessão.

A ortorexia ainda não consta do Manual de Diagnósticos de Doenças Mentais, contrariamente à anorexia ou bulimia. No entanto, é habitualmente um comportamento visível no caso da anorexia nervosa, em que não só o doente se acaba por preocupar com a quantidade que ingere como também o seu teor saudável. Isto retrata a gravidade que a ortorexia poderá projetar no indivíduo. Não creio que no caso destes dois grupos algum deles seja saudável. Calha um deles ter mais probabilidade de ser aceite e menos prejudicado. Ao compararmos os grupos, iríamos concluir que o grupo que sofre de distúrbios alimentares estará danificado mental e fisicamente e que o grupo que luta por uma vitalidade digna de forma constante não tanto. A ortorexia vem modificar um pouco o panorama ao aparecer em pessoas ditas saudáveis, mas que mentalmente se encontram num estado obsessivo como é o de distúrbios alimentares. O que não chega a ser um paraíso ou sequer perto.

Mais que diagnosticar estes casos de distúrbios alimentares, uns mais notórios e preocupantes que outros, é preciso aprender a ver a outra face da moeda. A cultura dos jejuns intermitentes pode ser um exemplo: Se queres pô-lo em prática, pesquisar na Internet ou procurar opinião do teu influencer favorito, não será a melhor hipótese a seguir. Se tiveres condições financeiras, procura por um profissional; senão, pesquisa por conteúdo credível ligado à imprensa que possa esclarecer essa prática. No caso dos influencers, de indivíduos não profissionais na área e de quem continue a fazer sentido produzir conteúdo desse género, o suposto seria exatamente o mesmo: procurar informar com fontes credíveis ou dar a conhecer essas fontes ao nosso alcance.

Continuo num pequeno mundo a achar que jejuns intermitentes, dietas de choque ou contagem de calorias continuarão a ser um incentivo a distúrbios alimentares. Caso precisemos de o fazer, é preferível fazê-lo em privado, com ajuda de um profissional, sem que entremos na influência de outras pessoas. Supostamente, somos todos indivíduos independentes, mas a influência e pressão social continuarão a ser um elemento que nos levará a modificar alguns comportamentos e a prejudicar-nos. Para além da influência, o contacto com uns não deveria chegar a ser um choque ou distúrbio para outros. A prática de distúrbios alimentares não pode ser normalizada, no entanto, o seu perigo deve ser alertado o suficiente para os diagnosticarmos. Até lá, teremos conteúdo infelizmente normativo de uma obsessão compulsiva pela contagem de calorias, bodychecks ou corridas, por vezes desnecessárias, de dez quilómetros pela manhã. E será preciso até esse dia lembrarmo-nos do quão necessário (e não meritório) é o ato de comer, ignorar o que nos prejudica e rodearmo-nos o mais possível de conteúdo que nos beneficie, a nós e às nossas vulnerabilidades.

Fonte da imagem de destaque: Ilustração de Eros Dervishi para Statnews.com

Artigo revisto por Constança Lopes

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *