Literatura

Afinal, a morte não tinha hora marcada – é o que aprendemos com Chloe Benjamin

Para fecharmos este bookclub (é o último, infelizmente), é interessante que a temática do nosso livro do mês, “Os Imortalistas”, tenha sido o fim das coisas. 

A premissa suscitava curiosidade, incomodava e seduzia-nos. Afinal, se a morte tivesse hora marcada, como viveríamos?

Benjamin contou-nos uma história absolutamente deliciosa e com um contexto do trajeto pessoal humano riquíssimo. 

Tal como discutimos no último post, o livro encontrava-se dividido em quatro partes – cada uma sobre a vida de um dos irmãos Gold –, sendo que esta divisão começa do mais novo para o mais velho dos irmãos. Todos sem exceção visitam uma vidente que lhes dá um dia para o término das suas vidas.

Embora a ideia da narrativa seja simplesmente genial, honestamente, brincar com a morte de uma maneira tão óbvia é a coisa mais aliciante do mundo. Senti que a autora, por ser um tópico tão pesado, decidiu abordar a narrativa da forma mais leve possível, deixando sempre no ar a perspetiva da data da morte de cada um deles, mas nunca sem que parassem de viver por isso. Aliás, digno de um Scrooge, só quando pressentem a morte se lembram da vidente com mais pujança e, neste caso, aconselho a que, ao contrário de mim, não vasculhem o livro à procura de quando vai começar e terminar um novo capítulo (estraga o efeito surpresa). 

A meio disso tudo, é na transição da infância para a idade adulta que o livro ganha força. É quando o pai dos irmãos, Saul, morre atropelado que se começam a desencadear as vidas de cada um. E dar o pontapé de partida com a morte de alguém é um movimento calculado, já que o fio condutor das vidas dos quatro se vão unir sempre dessa forma, quase que num efeito dominó.

Cada um deles, com personalidades tão diferentes (é notória a diferença dos mais velhos para os mais novos), vive uma vida extraordinária à sua maneira. É no quebrar daquela “maldição” que todos eles se perdem. E embora o final seja uma valente lição de moral – “a vida é o que fazemos dela”–, não deixa de ser uma abordagem interessante a forma como quatro indivíduos, educados e criados pelas mesmas pessoas, sejam tão diferentes, tão únicos.

Para ser sincera, os meus personagens favoritos foram exatamente os mais novos – Simon e Klara –, porque me pareciam muito mais honestos nos seus desejos do que os restantes, especialmente Klara, que é, sem dúvida, a personagem mais forte do livro. Uma jovem destemida, muito ao estilo badass, que quer ser ilusionista, não obstante do que as pessoas possam pensar disso. Para além de ser a personagem que melhor foi construída, é também a que tem o fim mais trágico. Mesmo passando pelos capítulos dos irmãos, e tendo eles também fins trágicos, a memória dela assombra-nos o livro todo.

Olhando para o livro como um total, aquilo que mais me impressionou foi a forma de escrever de Benjamin. Não é simples, mas também não é complicada. No entanto, é como se nada fosse escrito por acaso. É tão intrínseco que se pode ficar cansado só de imaginar o esforço ou o talento que uma pessoa pode ter para escrever daquela maneira. 

No entanto, não obstante da forma maravilhosa como escreve, o livro vai perdendo muito da sua magia à medida que avança em direção ao final, sendo que talvez até isso seja propositado. O brilho e a ferocidade com que os primeiros capítulos são escritos estão na medida dos seus personagens; e o facto de a irmã mais velha ser deixada para último só pode ser relacionado com isso. A certeza com que sempre viveu, sem se arriscar, faz com que esse seja, ao mesmo tempo, o derradeiro, mas mais penoso capitulo de se ler. Tal como as pessoas vão perdendo a energia ao viverem, por ser a última sobrevivente, a mais velha caminha ao nosso lado, tal e qual uma lenda de guerra.

Os Imortalistas” é um romance caótico, de uma energia poderosa que nos esgota e deixa sem fôlego nos últimos capítulos, tudo de uma forma tão orgânica que nos parece que fomos nós a viver aqueles 20 anos.

E termina aqui a nossa jornada do bookclub. Foi uma experiência incrível e, para quem a acompanhou e leu, deixo aqui o meu profundo agradecimento; assim como às pessoas incríveis da minha editoria. 

Fotografia de Capa: Sara Cardoso

Artigo revisto por Andreia Custódio

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