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Benjamim – Isto é para tocar

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Fotografia: Filipa Moutas
Edição: Mariana Lamas

Há álbuns e álbuns. Há álbuns bons e álbuns maus. Há álbuns com um enorme potencial, mas que se tornam pequenos assim que pisam o palco. Não é este o caso de “Auto Rádio”. De letras simples e instrumentais electrizantes, o disco de estreia de Luís Nunes, enquanto Benjamim, foi oficialmente apresentado ao público no passado Sábado, dia 26 de Setembro, na Galeria Zé Dos Bois, em Lisboa. A ESCS MAGAZINE esteve lá e conta-te tudo agora, em forma de artigo.

Pouco depois das 22h, a noite começou ao som de AP Braga. O palco, já enfeitado com instrumentos e balões, recebeu o músico de intervenção, que se fez acompanhar por uma simples guitarra. Escrevo “simples”, mas não com um sentido pejorativo. Muito pelo contrário. É a simplicidade de AP Braga que nos cativa e que nos cativou naquela noite, mesmo estando ansiosos por ouvir as músicas de “Auto Rádio”. Entre “cantigas”, como disse o próprio, falava com a plateia, numa proximidade aconchegante e amável, nunca poupando elogios ao músico que o tinha convidado para estar ali – Benjamim.

Desde poemas de Reinaldo Ferreira até Zeca Afonso, a primeira parte da noite passou rápido e ainda antes de sair do palco AP Braga disse-nos, num tom descontraído: “Comecei a abrir concertos do Zeca. Cinquenta anos depois, estou a abrir concertos do Benjamim”. A plateia riu, claro. É impossível ficar indiferente na presença de AP Braga.

Quem nos brindou com a sua presença logo de seguida foi Benjamim, acompanhado por cinco músicos, seus convidados. Foram eles as peças essenciais à tarefa de dar corpo e vida a “Auto Rádio”, agora ao vivo. António Vasconcelos Dias, David Santos, João Correia, Pedro Girão e Selma Uamusse deram o litro a reproduzir ao vivo um álbum de outro artista, com toda a entrega e dedicação e nós, que estávamos do outro lado, víamo-lo.

Se já AP Braga demonstrava uma postura algo descontraída perante a plateia, então as palavras “Boa noite, eu sou o Benjamim. Estou um bocado nervoso” deixaram toda a gente à vontade: músicos e público. Deixou de haver pressão para que algo decorresse de determinada forma. Nada foi coreografado e, dali para a frente, tudo correu bem. Ou melhor, muito bem.

Os sintetizadores de “Eu Quero Ser o Que Tu Quiseres” começaram a soar e, rapidamente, a plateia respondeu, dançando ao som do primeiro tema de “Auto Rádio”. Seguiram-se “Tarrafal” e “O Quinito Foi Para a Guiné”, onde foi impossível não cantar o refrão com Benjamim. Uma coisa é certa: quem nunca ouviu este último tema, escrito para um amigo de Benjamim, está a perder algo. Nunca soube tão bem que me partissem o coração, de tão triste história e de tão boa música.

É, aliás, a simplicidade inerente a “Auto Rádio” que faz deste álbum um trabalho tão genuinamente português. Nele reinam as histórias e estórias contadas por Benjamim, através de versos que nos contagiam e invadem a nossa memória, acompanhados de melodias excepcionalmente bem construídas e honestas. Benjamim vai directo ao assunto no que toca a fazer música.

Não percamos, no entanto, o fio à meada. Depois de “O Quinito Foi Para a Guiné”, seguiram-se “O Sangue” (sobre famílias, disse-nos Benjamim) e a canção que virou disco: “Auto Rádio”. No palco, um crescendo de qualidade na prestação de cada um dos músicos que dançavam e que, claramente, se estavam a divertir tanto quando nós, em frente ao palco. A canção-disco acabou em auge, com um impressionante solo de bateria de João Correia.

Benjamim, sempre disposto a falar com quem estava à sua frente, apresentou os músicos que o acompanhavam. Ao palco, foi novamente chamado AP Braga, para cantar “Rosie”, o tema que escreveu com Fausto Bordalo Dias e que Benjamim recria em “Auto Rádio”. A cumplicidade era visível. Estavamos todos entre amigos, quem estava no palco, principalmente.

Foi também feito um agradecimento ao Pedro Ramos, que gravou a voz de rádio, no tema “Wolkswagen”, uma ode à carrinha de Benjamim, onde o próprio viajou país fora durante 33 dias, sem parar, todos preenchidos com concertos. É, de facto, uma canção de amor bonita.

Ouviu-se “Do Céu e da Terra” e “Sintoniza”, o único tema fora de ordem, por ser o terceiro no álbum. Soaram guitarras e todos vibraram ao som de Benjamim. E se a plateia já estava ao rubro, o single “Os Teus Passos” foi o auge do concerto, onde se cantou e dançou. Foram lançados confettis de um canhão de supermercado, que divertiu a plateia, e foi feita a festa, capaz de pôr qualquer passagem de ano a um canto.

“Auto Rádio” estava a chegar ao fim: “Esta é mesmo a última, porque tocámos o disco todo”. “O Exílio” é o último tema do disco. Triste e sincero, toca-nos por falar de algo demasiado presente na sociedade portuguesa: a emigração. Faz-nos valorizar Lisboa. São estas coisas pequenas, mas grandes, na sua simplicidade, que fazem de “Auto Rádio” um álbum tão português. Todos nos identificamos com ele.

Não ouve encore. Em vez disso, Benjamim agradeceu e tratou a sua plateia como amigos de longa data. Quem quis teve direito a champanhe. Quem saiu ficou decerto com uma frase na cabeça, acertada nas suas palavras: “isto é para tocar”. Eu espero que toque durante muito tempo, porque é tão bom saber que é esta a música que se faz em Portugal.

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Mariana Monteiro não faz telenovelas, mas escreve de vez em quando. Gosta de música, como todos os comuns mortais, e canta sempre que pode. Nos tempos livres, gosta de comer chocolate.

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