7ª Arte

Closer: São estórias de amor

Um filme interessante de Mike Nichols, mas sem a complexidade narrativa que as personagens lhe pediam. Há um trabalho esforçado dos atores, mas perde-se um pouco na ausência de coesão da estória.

Perto Demais (Closer no nome original), baseado na peça do dramaturgo inglês Patrick Marber, que assina o argumento, é um daqueles filmes cheios de potencial. Tem um elenco de luxo: há Julia Roberts, Jude Law, Clive Owen e Natalie Portman. Um realizador, Mike Nichols, que sabe bem tomar conta dos compassos da herança tanto do cinema dito clássico americano como da nova Hollywood dos anos de 1970. Não faltam razões para tornar Perto Demais num grande filme, mas o resultado não cumpre com a expetativa.

Anna (Julia Roberts) é uma fotógrafa que se envolve com Dan (Jude Law), um jornalista caído no esquecimento das páginas de obituários. Contudo, Anna casa-se com o médico Larry (Clive Owen) mas mantém o seu caso com Dan, que por sua vez namora Alice (Natalie Portman) que tem um histórico de amores mal sucedidos. Um quarteto que se dedica a encontros, traições, amores e desamores ao longo das quase duas horas de filme.

Mike Nichols, o realizador. Fonte: The New York Times

Mike Nichols – o homem que nos deu a comédia romântica A Primeira Noite, filme de 1967 que lançou Dustin Hoffman e peça definidora do cinema ligeiro da década de 1960 – usa, e bem, o poder de um melodrama misturado com toques, apesar de muito leves, de comédia. Há, tal como em A Primeira Noite, o poder da música: no filme com Hoffman eram os Simon and Garfunkel e o seu magnífico “Sound of Silence”, em Perto Demais é “The Blower´s Daughter” de Damien Rice, que aparece, curiosamente ou não, no início e no fim do filme. Em A Primeira Noite, o tema principal era a descoberta amorosa de um jovem – a personagem de Dustin Hoffman – seduzido pela Sra. Robinson, interpretada por Anne Bancroft, (assim toca por lá a belíssima música dos Simon and Garfunkel com o nome da personagem de Bancroft) mulher experiente que arma uma teia de paixão ao jovem. Pelo meio, temos um trio amoroso, com a filha da Sra Robinson. Já em Perto Demais, o trio é substituído por um quarteto talvez mais fácil de gerir, mas nem por isso mais sedutor ou encantador.

Mas o que falta ao filme para o tornar numa obra que permite mais do que parcos elogios? Falta a coesão: não está em causa o trabalho de atores, esse é feito com mérito, mas sim a consistência das personagens. O que elas dizem, apesar dos esforços dos atores, não nos parece totalmente fidedigno, estando presas aos maniqueísmos de uma linguagem muito formal, pouco convincente para nós. Veja-se as discussões entre Dan e Alice, que são um corrupio e abuso de palavras e insinuações, quando, por vezes, o que as personagens pediam era o silêncio, aquele silêncio confrangedor que dilacera uma relação. E, quando se pede o uso das palavras para “magoar o outro”, o abuso das asneiras não disfarça a ausência da coesão da realidade, soando a forçado; e é isso que nos faz afastar das personagens, que nos retira “simpatia” por elas, que nos afasta daquilo que elas nos querem dizer.

Há toda uma envolvência depressiva, como quando a certa altura Larry, num impecável Clive Owen, diz que: “os depressivos querem ser infelizes para confirmar que são depressivos”, mas que não é explorada o suficiente. Fica-se pelas ‘intenções’ prometedoras da personagem de Larry ou alguns laivos de Alice. Envolvência que não chega para ‘ganhar’ o filme.

É com o peso das falhas já descritas que o filme de Nichols fica aquém de ser algo mais do que meramente interessante. Fica-se pelos serviços medianos, mas sem a eloquência que se fazia esperar.

Artigo redigido por Luís Carvalho

Artigo revisto por Constança Lopes

Fonte da imagem de destaque: Wikipedia

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