Créditos especiais

Algumas coisas simplesmente não podem parar de funcionar. Computadores, lâmpadas, ventoinhas, aquecedores, frigoríficos, fogões e tudo aquilo que está entre nós e o período Medieval. Tenho o hábito horrível de não saber consertar nada, não pesquisar acerca dos produtos para ver se são resistentes e – wait for it – partir tudo apenas por respirar perto das coisas.

Durante meses, juntei dinheiro para poder ter um telemóvel e agora rezo todas as noites para que este aparelhinho não me falhe. Já vou no oitavo par de fones de ouvido deste ano. Um dos lados começa a ter ruído, e logo só consigo ouvir a música se deixar o fio numa determinada posição. Andar de autocarro fica um bocado mais difícil, mas tudo em nome da modernidade.

Quando o serviço da NOS falhou, suspeitei imediatamente de que fosse culpa de algo muito cruel dentro do meu telemóvel. Um fio, chip ou circuito qualquer sobre o qual não entendo nada e que, por diversão, tivesse decidido parar de funcionar. A mensagem que a companhia enviou a explicar o que é que se passava aliviou-me imenso: não percebo nada sobre antenas e satélites, mas ao menos não é suposto que eu saiba.

Diariamente há pessoas a fazer imensas coisas que vão muito para além do limite da minha compreensão. Não há palavras suficientes para lhes mostrar a minha gratidão, mas vou tentar. Obrigada a quem é colaborador e aceita o meu pagamento na caixa. Eu tenho fobia de que o meu cartão multibanco ficar preso na máquina de pedidos. Já agora, obrigada ao senhor do banco que retirou o meu cartão quando ele ficou preso.

Obrigada a todos os motoristas de autocarros e comboios, bem como aos de táxi, que são especialmente úteis nos momentos menos sóbrios, ao pé de Santos. Obrigada ao atendimento ao cliente da Netflix pela paciência com que me explicaram o porquê de não haver Godfather no catálogo (ainda). E obrigada à senhora da pizzaria, que se apercebeu de que eu havia feito o meu pedido errado por não ter escolhido o habitual na app. É essa a programação nos fins de semana que são passados longe do Bairro Alto.

Obrigada aos mecânicos, encanadores e a todas as outras pessoas que, ao contrário de mim, não partem mais as coisas ao tentar consertá-las. Agradeço imenso ao senhor que ajeitou armários, pias, chuveiros e pisos que misteriosamente partiam enquanto meu pai viajava – em especial porque ficou tão bom que ele nunca reparou. Obrigada, também, aos alunos de psicologia que fazem sessões de terapia gratuita. Outro tipo de reparações que não têm preço.

Obrigada aos meus pais, que corrigiram as minhas mal criações. Ao Google, que corrige os typos nas minhas pesquisas. À médica de família, que cura qualquer sintoma de hipocondria que eu tenha só pelo tempo de espera por uma consulta. Aos ABBA, que curam a qualquer stress. E, quando não conseguem, obrigada ao génio que quis combinar cevada com álcool. Obrigada aos corretores, que não apenas corrigem os meus textos, mas também os traduzem.

Fonte: Steve Wood, Getty Images

Artigo revisto por Gonçalo Taborda

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