Música

De Leiria, para sempre

Em 1998, quatro jovens de Leiria conseguiram um feito histórico na música nacional: o seu álbum de estreia vendeu 240.000 cópias, chegando aos seis discos de platina. Estes jovens tinham começado uma banda três anos antes, numa sala pequena, com pouca luz, tal como recordaram a cinco de abril de 2014, no MEO Arena. No nome até podiam ter Silence, mas a música ajudou a quebrá-lo. Senhoras e senhores, desfrutem desta viagem musical.

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Foi no final de 1995 que David Fonseca e Tó Zé Pedrosa, habituados a tocar juntos, decidiram formar uma banda. Na altura, David convidou Sofia Lisboa, que ouvira cantar numa esplanada, para integrar a banda. Mas só depois de um ano, quando David teve a certeza de que a banda seria algo a sério, é que a jovem integrou o grupo.

No início, as condições técnicas com que trabalhavam, com uso excessivo de amplificadores, eram más. Foi quando Rui Costa entrou na banda que deixaram, a sugestão deste, os amplificadores e passaram a tocar num formato acústico. Nasciam os Silence 4.

O primeiro tema que a banda de Leiria tocou foi uma versão do clássico dos Erasure “A Little Respect”, tema que abriu o concerto do passado dia 5 de abril. Treze anos depois de terem terminado como banda, os quatro leirienses voltaram a juntar-se em palco para celebrar a vitória de Sofia Lisboa contra uma leucemia, que quase lhe tirou a vida. Este facto foi relembrado várias vezes ao longo da noite e parte do dinheiro angariado com os bilhetes foi entregue à Liga Portuguesa Contra o Cancro.

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Mas vamos voltar um bocadinho atrás. 1997: depois de vencerem o Festival Termómetro Unplugged, criado por Fernando Alvim, os Silence 4 aproveitam o dinheiro ganho para gravar maquetes com qualidade, que serão enviadas para várias editoras. As respostas são negativas: cantar em inglês? Esqueçam lá isso!

Mas eles não desistem. É em inglês que se expressam melhor e é em inglês que está a essência das suas músicas. Quando a versão de “A Little Respect” começa a ter notoriedade nas rádios, a Polygram — actual Universal — acaba por aceitar gravar com a banda de Leiria.

Em setembro de 1998, é editado o primeiro álbum da banda, Silence Becomes It, com 15 temas — um deles a faixa escondida “Sex Freak” —, dos quais saem os sucessos “Borrow” e “Angel Song”, assim como a versão de “A Little Respect” e ainda “Sextos Sentidos”, com participação de Sérgio Godinho, que também marcou presença no concerto do MEO Arena. Rapidamente, e mesmo cantando em inglês, se tornaram uma banda de referência no panorama musical português e foi assim que, em dezembro desse ano, esgotaram pela primeira vez o Pavilhão Multiusos de Lisboa, nas celebrações finais da Expo 98.

Os tempos de Silence Becomes It deram início ao grande boom de popularidade dos Silence 4. Em pouco tempo já eram demasiado grandes para a pequena sala de ensaios onde tinham surgido. No concerto da Songbook 2014, o público cantou “Angel Song” com Sofia Lisboa, que confessou, emocionada, que houve uma altura, durante o tratamento, em que pensou que “nunca mais iria cantar esta canção” e que, caso não estivesse presente, tinha pedido à banda que o público cantasse a sua parte. Mas ali estavam todos. E foram todos que a cantaram, a uma só voz.

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Em 2000 surge Only Pain is Real, o segundo e último álbum de originais da banda, gravado em Londres, que inclui o êxito “To Give”. Nesse ano, dão mais de cem concertos, que culminam em duas atuações, a 19 e 20 de dezembro desse ano, no Coliseu dos Recreios. A Universal acabou por editar um CD com DVD destas noites em 2004, mas a banda já estava inativa desde 2001.

Todos os membros enveredaram por caminhos separados, sendo David Fonseca o único que se manteve nas luzes da ribalta, com uma carreira a solo de sucesso desde 2003.

O regresso da banda aos palcos parecia impossível até que, em dezembro de 2013, se confirma que os Silence 4 regressariam para quatro concertos: no Coliseu Micaelense, em Ponta Delgada; na Praça do Mar, no Funchal; no Pavilhão Multiusos de Guimarães; e no MEO Arena. Acabou por se juntar a estes um derradeiro concerto no estádio de Leiria, a 22 de maio. Era a despedida a que finalmente teríamos direito.

Além dos concertos, a Universal editou em março deste ano uma coletânea chamada Silence 4 Songbook 2014, com os dois primeiros álbuns da banda, uma maquete de inéditos e raridades e um DVD.

O concerto de abril durou quase três horas e esteve cheio de memórias e emoções. Cerca de dezoito mil pessoas levaram os Silence 4 a esgotar novamente o MEO Arena. Ali, o público relembrou as músicas, que cantou do início ao fim. Mas não foram os únicos a matar saudades: também a banda matou saudades dela própria. Agora é de vez: os Silence 4, que no início da década mudaram a música nacional, que se tornaram maiores do que alguma vez imaginaram, que marcaram mais do que uma geração, despediram-se dos palcos e dos fãs da melhor forma, a fazer aquilo que melhor sabem fazer: tocar.

Esta noite emocionante de recordações pode agora ser revivida com o CD+DVD acabados de editar, Songbook 2014 Live, que imortalizam o concerto do MEO Arena e a banda. Afinal, a música ainda une pessoas. E uniu-nos aos Silence 4.

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