Desassossego

Estou a sufocar

Era hora de ponta no Marquês de Pombal. As ruas acolhiam os transeuntes apressados, as estradas recolhiam os automóveis inquietos. A cidade despertava assim do seu torpor, sob o olhar vigilante do marquês.

Ao fim de um dia de intenso estudo, Inês Rodrigues deixou para trás a Universidade Autónoma de Lisboa, percorrendo a calçada em direção ao metro. No interior, a agitação era tremenda. Cercava-a uma multidão impaciente.

Um sentimento de mal-estar começou, então, a instalar-se. Sentia-se sufocada naquele mar de corpos. Estava sozinha. Não estava bem. Precisava de sair dali.

Este não foi o primeiro ataque de pânico que Inês experienciou. Durante os seis meses em que esteve a viver sozinha em Londres, a digital influencer teve dois ataques. Na altura não percebeu o que eram, nem o que os causou, mas não lhes atribuiu grande importância. Afinal, tinham sido apenas dois episódios isolados. No entanto, com a entrada para a faculdade, a ansiedade começou a ser recorrente.

No dia após o episódio do metro, Inês decidiu ficar em casa. Mas no dia seguinte lá acabou por regressar à universidade. Na aula, com cerca de 100 alunos, não conseguiu concentrar-se. Estava inquieta, desconfortável. Era impossível estar ali.

Depois disso, Inês não conseguia sair de casa. “Tinha medo dos barulhos à minha volta. A minha cabeça ficava uma confusão”, conta. Teve de fazer em casa o primeiro semestre do curso de ciências da comunicação. Foi nessa altura que passou a ter o acompanhamento de um psiquiatra. Afinal, o problema era ansiedade.

Começou a tomar medicação para a controlar e no início de 2020 já se sentia mais calma. Voltou à faculdade e frequentou as aulas até à sua interrupção em março, devido à pandemia. Os meses foram passando e tudo parecia estar melhor – em casa sentia-se confortável.

Mas, em agosto, as coisas voltaram a piorar. Agora a ansiedade era diferente. Chorava frequentemente, sem razão, por tudo e por nada. Tinha falta de apetite e enjoos, só nesse mês emagreceu quatro quilos e meio. Foi várias vezes ao hospital, pensando que haveria uma causa física que explicasse aquilo pelo que estava a passar. Porém, os vários testes que realizou revelaram todos o mesmo: estava tudo normal.

O que é que eu tenho?

Também Mariana Aniceto passou por uma experiência semelhante. Para a estudante de relações públicas e comunicação empresarial, a ansiedade começou por se manifestar a nível físico. Não percebia o que se passava. À semelhança de Inês, foi ao médico várias vezes fazer exames e o resultado revelava-se sempre o mesmo: fisicamente estava tudo bem. Aí colocou a hipótese de ser algo diferente. Com o conselho de uma psicóloga amiga da família, a ansiedade foi-se descortinando como uma possível razão por detrás daquilo que estava a sentir.

Os sintomas surgiram no verão. O calor era intenso, os dias abafados. Num dia de praia, Mariana começou, subitamente, a sentir-se fraca, como se fosse desmaiar. “O calor forte, os barulhos na praia, os gritos das crianças, tudo isto ia-me sufocando”, relembra.

Os sentimentos foram-se intensificando numa altura que era de pausa e de descanso. Na verdade, para Mariana, era nos momentos mais livres que entrava numa espiral de pensamentos intrusivos, sem sentido. “É uma agonia”, conta. “Tu queres fugir deles, mas não consegues. Se não pensas de uma maneira, pensas de outra. Não consegues pôr em pausa”.

Nem sempre é fácil, mas Mariana tem vindo a aprender a lidar com a situação. Para isso, faz um “trabalho prévio”. Antecipa as situações que podem deixá-la desconfortável – se sabe que a sua agenda vai ser preenchida, tenta organizar-se, com calma, em função disso. Sobretudo, tenta não ficar presa àquilo que tem para fazer, mas procura abstrair-se através de exercício, da meditação ou simplesmente distrai-se a ver uma série no sofá. Esse tempo faz a diferença – é importante para sair da espiral de pensamentos que por vezes se forma.

Mariana ainda não sabe bem o que chamar à sua situação. Decidiu procurar o acompanhamento de um psicólogo. Contactou a médica de família que a encaminhou para um centro de saúde. A pandemia veio atrasar as consultas e, por isso, ainda está à procura, no entanto é isso que recomenda a alguém que esteja a passar pelo mesmo.

Preciso de ajuda

A doutora Ana Sancho trabalha enquanto técnica de saúde no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa. É para lá que os médicos de família encaminham os pedidos de ajuda que chegam até eles.

A psicóloga clínica trabalha especificamente com pessoas com dificuldades a nível da gestão da ansiedade. Mas afinal o que é a ansiedade? Trata-se de uma emoção que as pessoas experienciam no dia-a-dia e que dá informações relativas ao impacto interno que aquilo que acontece à nossa volta tem sobre nós. A preocupação com um exame ou apresentação, por exemplo, pode ser uma ansiedade adaptativa. É a antecipação de algo que sentimos ser ameaçador e para o qual nos vamos preparar. Contudo, nos casos em que a ansiedade começa a interferir com os vários aspetos da nossa vida, pode tratar-se de uma patologia.

Não há uma linha que separe: daqui para ali é patológico; dali para aí é o dito “ normal”. O normal é uma questão estatística. O que é para mim pode não o ser para si”, clarifica a técnica de saúde. Não é uma linha mas antes uma área. É necessária a confirmação da presença de determinados critérios, internacionalmente definidos, para se fazer essa avaliação.

Para Ana Sancho, a utilização do termo ansiedade tornou-se banal. “A palavra foi muito divulgada. E é muito bom, porque ficamos mais familiarizados com o tema; por outro lado, hoje tudo é ansiedade e nem sempre é esse o caso.”, explica. Por vezes, certas emoções são confundidas com a ansiedade. “Quando uma pessoa nos procura é porque tem alguma queixa. Mas, por vezes, a queixa é vaga”. Daí que uma das primeiras questões a ser abordada nas consultas é a das emoções: estar atento a elas, identificá-las, valorizar as informações que transmitem.

Se a ansiedade começa a interferir com os vários aspetos da minha vida, se deixo de ir ao trabalho, à faculdade, se me impossibilita, pode haver alguma coisa que não está bem. E pedir ajuda é muito importante”. Nesse nível mais elevado, pode ser um problema e aí o acompanhamento de um psicólogo pode ser benéfico.

Todas as emoções têm uma manifestação física e a ansiedade não é exceção. A falta de ar, respiração acelerada, falta de apetite e transpiração são sinais das nossas emoções. Se começarem a ser mais intensos e duradouros podem torna-se sintomas. O trabalho do psicólogo é facilitar a identificação do que está a acontecer – poderá ser ansiedade, até mesmo um distúrbio de ansiedade, ou então uma outra emoção. Juntamente com o paciente, tentam identificar o que se está a passar. Para a Dr. Ana Sancho, trata-se de uma colaboração, um trabalho de equipa.

Seguir em frente

Depois da recaída em agosto, Inês Rodrigues sentia-se sozinha, incompreendida, mesmo por aqueles que lhe eram mais próximos. “Como é que eu digo a alguém que estou a ter um ataque, que estou a sufocar, que sinto que estou a morrer? Parece que as pessoas não percebem”. Porém, sabia que não era a única. Queria desabafar. A solução passou por criar no Instagram uma secção dedicada à ansiedade. Recebeu mensagens como nunca tinha recebido e o sentimento de solidão foi diminuindo. Hoje, está a ser seguida por uma psicóloga. Começou por ter consultas semanalmente que, entretanto, passaram a ser quinzenais. Com o acompanhamento da psicóloga, sente que tem alguém com quem desabafar. Já lá vai um mês e meio.

A mensagem que quer passar é clara: “pedir ajuda é fundamental!”

Artigo por Adriana Alves

Ilustrações por Rita Carvalho

Corrigido por Ana Rita Sebastião

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