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Egocentrismo amoroso

Não quero ter filhos. O próprio conceito de paternidade assusta-me tremendamente: o fardo de ter de moldar o futuro de um recém-nascido, o dispêndio temporal e a subsequente destruição dos meus (ou nossos, dependendo do grau de divórcio) tempos livres e a pressão social intrinsecamente relacionada com os comentariozinhos do tipo “se ele fosse o meu filho, eu…”. Que dor de cabeça! Já tenho doenças mentais que cheguem! A minha ansiedade patológica ia gritar por piedade.

Para dizer a verdade, é mais egoísmo do que outra coisa. Adoro estar sozinho. Não no sentido de me sentir só, mas no de ter o meu espaço, o meu silêncio. Todas as relações amorosas que tive foram à base do “toca e foge”. Geralmente utilizava-se o formato date, em que era praticada uma qualquer atividade lúdica ao ar-livre, ou uma qualquer outra atividade, também lúdica, diga-se, na privacidade das quatro paredes, durante um pré-programado período de tempo. Após o final do encontro cada parte seguia para o seu doce lar e ficava a remoer os eventos decorridos. É um método que me deixa confortável, que equilibra facilmente a minha tão multifacetada personalidade; ou, dizendo melhor, remedeia as minhas múltiplas neuroses.

Porém, a paternidade, regra geral, exige a partilha comum de um mesmo espaço, a vivência dos progenitores na mesma habitação. Não imagino tortura de primeiro mundo maior para mim do que essa. Seria a castração do meu quotidiano, o giro de 180º no meu dia-a-dia, algo que iria interferir violentamente com a minha rotina, com o meu método de vida, com a minha essência.

Preciso de absorção mental, de conseguir ouvir o eco dos meus pensamentos numa qualquer divisão de casa. De ler em paz e de dormir ininterruptamente. Se essas operações já serão extremamente difíceis quando a habitação for partilhada com uma parceira amorosa, imagino como será depois de termos um “Carrilhinho”.

A psicologia e a mente humana são extremamente mutáveis, felizmente, e é bem provável que tudo isto que disse seja um reflexo das amarguras da minha vida, de frustrações passadas ou mesmo de traumas de infância. É possível que mude de opinião, que encontre alguém que me arraste para fora da minha zona de conforto. Dúvido muito – sou um bocado teimoso. Não vá o diabo tecê-las, deixo o apelo: someone prove me wrong, please.

Este artigo está escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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