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Estigma

Este artigo é escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

É possível, com quanto baste de polémica, argumentar-se que as doenças mentais são mais incapacitantes do que os traumas físicos. Um tetraplégico é justo dono da compaixão e simpatia alheia automática. Um cego é visto por todos e ajudado por muitos. Um amputado de guerra é um herói medalhado. Mas um doente mental?! Um doente mental é um maricas.

Quem se recorda de clássicos como: “Levanta o rabo do sofá! Toda a gente fica deprimida de vez em quando! Para de fazer fitas e faz-te homem!”? E do vintage: “Não eras assim se te tivessem dado uma educação como deve ser!”? Ou até do tradicional: “Eu também fico ansioso antes de fazer testes!”.

O diretor do instituto nacional de saúde mental americano, Thomas Insel, tenta combater este estigma através de uma proposta de mudança linguística – “deveríamos passar a chamá-las de doenças do cérebro ou doenças neurológicas”, refere. Eu assino por baixo das suas palavras: a forma como comunicamos o pensamento depende das palavras que temos à nossa disposição para o fazer – isto condiciona o modo como as pessoas exercitam a cognição.

A verdade na declaração de Insel é incontestável – há uma sólida correlação entre desequilíbrios químicos em neurotransmissores, como a serotonina e a dopamina, por exemplo, e o aparecimento ou agravamento de algumas doenças ditas mentais. Se colocarmos uma depressão ou um distúrbio de ansiedade no mesmo grupo médico que uma encefalopatia, contribuímos para o esbatimento deste estigma.

O problema com as patologias psicológicas é a sua absoluta subjetividade. Não vemos uma cadeira de rodas, uma bengala, ou um andarilho num destes doentes. São experiências 100% pessoais e nem todos os nossos concidadãos são uns Atticus Finch’s desta vida. Vestir a pele dos outros é difícil para alguns, vá-se lá saber porquê.

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