Opinião

Fim do Rápido abranda o Serviço Público

Começaram no início da semana os cortes a 20% dos comboios que circulam entre o Cais do Sodré e Cascais. A CP passou assim de 251 para 200 comboios por dia nessa linha. Estes cortes incidem sobre os comboios ditos “rápidos” por saltarem 6 estações, entre as 10h e as 17h. O consequente reajuste nos horários implica que, durante este período, apenas haja comboios que param em todas as estações e com intervalos de 20 minutos.

A CP justifica-se com os argumentos de que o volume total de passageiros naquele período de tempo não justificava a frequência de comboios rápidos, que apenas 19 dos 80 mil passageiros diários utilizam o comboio fora das horas de ponta e que 80% dos clientes com passe viajam, sobretudo, entre as 7h e as 10h e entre as 17h e as 20h, onde a oferta não foi alterada. O meu argumento favorito é dizerem que estas alterações vão permitir uma gestão mais eficaz do material, incrementando a fiabilidade e a pontualidade dos serviços da CP na linha de Cascais sem qualquer aumento de custos (!).

Meu Deus, como temos sorte! Vivemos num país pobre mas onde as empresas públicas (!) de transportes cumprem o seu dever sem aumento de custos (!). Sinto-me um privilegiado! Queria ver se cobrassem mais para ser pontuais. Devia ser bonito. O ridículo de quem manda em nós faz-me rir mas, de facto, não tem piada nenhuma…

Depois a questão dos passes. Os preços dos passes e dos bilhetes (recordo que os bilhetes duram entre 1h a 2h30, dependendo das zonas. Ou seja, pode servir para mais do que uma viagem) não vão baixar. Vamos continuar a pagar o mesmo para menos 51 comboios. Podem dizer que 80% dos clientes viajam, sobretudo, fora das horas dos cortes, mas não pagam passe só para as horas de ponta. Pagam para o dia todo.

Esquecem-se ainda de que as empresas públicas, ou seja, de serviço público, ou seja, de serviço ao público, têm um dever e uma responsabilidade para com esse mesmo público. Numa empresa privada, como a Fertagus, por exemplo, o lucro é que faz os comboios andar. Mas numa empresa pública, como a CP, o dever ao público é que devia mexer os comboios. Na Fertagus, os comboios economicamente inviáveis são cortados, mas na CP tal não pode acontecer. Os comboios cheios pagam os comboios vazios, de modo a garantir uma oferta estável e em quantidade equilibrada. Por ser de serviço público esse público até pode ser só um, mas esse um tem direito ao seu comboio.

Se continuamos assim qualquer dia está uma senhora idosa a falar com um polícia na estação:

“ – Olhe, desculpe, o comboio que passava agora já não passa? – Não, minha senhora, esse foi suprimido – Então porquê? – Porque só você é que ia lá dentro – Ah… E então agora eu vou como? – Olhe, a senhora vai a pé…”.

 

CRÓNICA - Fim do Rápido abranda o Serviço Público - Pedro Mateus

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