Opinião

Instapinion? Não, obrigado.

Muda-se de tudo menos de clube. Sempre ouvi dizer isto e concordo plenamente. Porquê? Porque dizer isto não é diferente do que dizer “muda-se de tudo menos daquilo que não interessa”. Clube aqui serve como metáfora, pelo menos para mim. Sejamos honestos, o futebol não interessa para nada. Eu adoro futebol mas sei que não deve ser um modo de vida ou razão para grandes chatices. É apenas um espectáculo como outro qualquer. Fico mais feliz ou mais contente, nada mais. Mas guardo este tópico para outra semana. Hoje o que interessa é o Instagram e o grilo falante.

Sempre adorei falar sozinho. Em voz alta ou a pensar sou o meu maior ouvinte. Serei maluco? Eu penso que não. Ninguém me percebe melhor do que eu próprio. Eu percebo tudo o que quero dizer à primeira. Acho-me sempre muita graça e costumo cheirar bem da boca. Mas aquilo de que mais gosto nos meus monólogos é o facto de eu ser o meu maior crítico. Todas as minhas opiniões são questionadas por mim próprio e, felizmente, essas mesmas opiniões são muitas vezes substituídas.

Todos temos opiniões pré-definidas e quando não as temos depressa as criamos. Isto é natural e muitas vezes inevitável. No entanto, é muito importante estar em permanente contacto com aquela criança chata que já foram e constantemente perguntar: porquê?

Não digo isto porque quero todas as opiniões que me vêm à cabeça fundamentadas. Aliás, muitas tradições acabariam se nos puséssemos a avaliar argumentos em vez de nos deixarmos ir na onda do “é tradição”. Mas, essencialmente, não quero ter opinião sobre uma coisa sem saber se essa é de facto a minha verdadeira opinião. Faço-me entender? Às vezes basta um “porquê?” para perceber que eu não penso realmente aquilo que inicialmente pensei. E é nestas conversas comigo próprio que começo: “ah, isto assim, assim e assado. Espera, mas porquê? Porque assado? Mas e cozido? E frito? Pois, de facto é grelhado”. Poucas coisas me deixam mais feliz do que saber que sou capaz de mudar a minha opinião (sempre para melhor, espero eu) sozinho. Analisando tudo o que sei e imaginando todos os cenários, não me deixando levar por opiniões preconceituosas ou criadas em cima do joelho.

É aqui que entra o Instagram. Cinco dos dez Instagrams mais criativos, de acordo com o The Huffington Post, são portugueses. Esta notícia caiu-me no colo depois de um dia inteiro a ouvir a pergunta “De que cor é este vestido?”. Eu já sou tão fã do Instagram como a neve do Sol, por isso, a minha paciência para a mistura de tudo e de nada que é a internet já estava a esgotar-se mais depressa do que maçãs meio comidas. Logo, a minha primeira reacção ao ler uma coisa destas foi: “a prova de que Portugal perde demasiado tempo com porcarias como vestidos multicolor em vez de gastar mais tempo em algo mais relevante é que 10 milhões de habitantes, dos quais 1/3 são experientes, num mundo com 7 mil milhões, foram capazes de criar metade das 10 contas mais criativas do Instagram.”.

Pouco tempo depois fui fumar e dei por mim a pensar: “Epá, criatividade é criatividade. Seja no Instagram ou numa tela. E quer dizer que os portugueses, mesmo em crise, são capazes de pôr as preocupações de lado e aproveitar o que podem fazer. É mais uma prova de que somos imaginativos. Não sou fã da alienação que o Instagram e os seus primos provocam, mas isto só quer dizer que há vida para além de usar o telemóvel como passadeira de fitness para o polegar.”

Sozinho e de repente mudei a minha opinião e orgulho-me disso. Nunca se esqueçam de que nada está definido. A única coisa certa na vida é a morte. Pelo menos para nós, visto que existe uma espécie de estrela-do-mar que, em vez de morrer, faz reset ao sistema e começa a vida do zero. E já que estou numa de expressões esta crónica, como tudo na vida, tem um fim, excepto a banana que tem dois.

 

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