Literatura

José Miguel Costa: “Escrever este livro não foi um sonho apenas meu, mas também de todas as pessoas da minha terra”

História, devoção e futuro: é através destas três palavras que José Miguel Costa descreve a sua terra. O jovem de 21 anos, natural de Santa Bárbara de Padrões, uma aldeia situada em Castro Verde, no distrito de Beja, Alentejo, escreveu e publicou, no ano de 2018, uma monografia sobre a freguesia homónima – “Santa Bárbara de Padrões – a Identidade de uma Freguesia” –, a qual descreve como sendo “uma declaração de amor” à sua terra.

José Miguel Costa, que tinha somente 18 anos quando deu início ao processo que resultaria nesta obra, afirma que o seu objetivo sempre foi registar a história local, as suas gentes, as tradições e as particularidades, onde se inclui a maior coleção de lucernas romanas do mundo (cerca de 20.000, expostas no Museu da Lucerna em Castro Verde) – “que até podia entrar para um recorde do Guinness!”, sorri José. Para cumprir o propósito de perpetuar e manter a memória coletiva, pensou em fazê-lo, desde o início, através da Literatura:

Talvez fizesse sentido registar todas estas memórias de outra forma que não através de um livro, mas é certo que sempre tive uma paixão pela escrita. Talvez esteja também um pouco relacionado com o facto de ter sempre gostado muito deste formato de monografia. Sempre que tenho curiosidade relativamente a qualquer sítio, gosto de verificar se existe algo deste género sobre essa terra.

A capa de Santa Bárbara de Padrões – a Identidade de uma Freguesia tem, como protagonista, o único elemento de Património edificado da freguesia: a Igreja Matriz de Santa Bárbara de Padrões.
Fotografia cedida por José Miguel Costa

José Miguel começou a escrever “Santa Bárbara de Padrões – a Identidade de uma Freguesia” em maio de 2018 e terminou em agosto do mesmo ano, a tempo de o lançar no âmbito das tradicionais festas da sua terra. Tinha acabado de concluir o primeiro ano da Licenciatura em Direito, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, e, tendo “despachado” todas as frequências da altura, dedicou-se exclusivamente à escrita durante as férias – “escrevi à velocidade da luz”. Embora considere que o processo de escrever um livro nem sempre seja fácil, o autor contou com o apoio de várias pessoas com experiência nesta área. José explica que esta se trata de uma edição de autor, ou seja, foi uma publicação cujo custo foi sustentado na íntegra por si próprio, não tendo recebido qualquer tipo de patrocínios para tal.

A epopeia de registar, em livro, o património material e imaterial da sua freguesia de origem obrigou José Miguel Costa a arregaçar as mangas e a deslocar-se no terreno. Tendo já antes reunido um conjunto de informações que em muito facilitou o seu trabalho de escrita, optou por visitar todas as localidades da freguesia para entrar em contacto com várias pessoas que conseguiu, previamente, identificar: “Estas seriam pessoas que eu sabia que poderiam acrescentar valor ao livro. Falei com gente mais velha que me deu informação sobre o passado destas terras e destas gentes”. Tarefa essa que seria difícil de concretizar se fosse hoje, durante plena pandemia, constata. No entanto, o autor acrescenta que pretendeu dedicar este livro também “às forças vivas do presente e às novas gerações”.

A apresentação do livro na Casa do Alentejo, em Lisboa, contou com um momento de Cante Alentejano, elemento identitário da região e também de Portugal, classificado como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, no ano de 2014.
Fotografia de Raquel Cristina Comprido

No seu percurso intra-freguesia, fazia perguntas, recolhia testemunhos e algumas pessoas davam-lhe mesmo o que tinham, como orações antigas e modas alentejanas, por exemplo – “coisas que estavam a ser um bocadinho perdidas e algumas delas até eram das avós”. “Santa Bárbara de Padrões – a Identidade de uma Freguesia” é uma ode à identidade e património local. José defende que é “de extrema importância preservarmos e defendermos a nossa identidade enquanto comunidade e salientarmos aquilo que nos diferencia”. Existe, pois, desta forma, uma estreita relação entre Literatura, cultura e identidade local, porque “a Literatura tem um papel fundamental que vai além das suas páginas.

Além disso, José pesquisou em algumas obras e recorreu a especialistas, como historiadores e arqueólogos – “[este livro] não se trata de um trabalho académico, nem de uma carreira, propriamente, de escritor. Trata-se de um projeto de um jovem que quer dar a conhecer a sua terra e homenageá-la. A memória coletiva é algo muito próximo e, portanto, é importante que perpetuemos aquilo que faz parte da nossa história e da nossa essência; caso contrário, nada fica registado”. Confessa que se emociona ao pensar que, entre as tantas pessoas que tanto contribuíram para o seu livro, muitas delas já partiram. 

À direita na fotografia, José Miguel Costa, o autor.
Fotografia de Raquel Cristina Comprido

A pesquisa que conduziu para a elaboração de “Santa Bárbara de Padrões – a Identidade de uma Freguesia” trouxe revelações únicas para a história regional: através da consulta de documentos no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, José descobriu que havia sido outorgado um foral ao já extinto concelho de Padrões, à qual pertencia a freguesia de Santa Bárbara de Padrões, pela Ordem de Santiago de Espada: Acabei por fazer uma descoberta que ainda ninguém tinha feito! Ninguém sabia, até 2018, que Santa Bárbara tinha tido um foral, orgulha-se o autor. Admite, ainda assim, que esse facto o deixa triste, pois revela a “falta de interesse e de estudo em relação à terra, o que acaba por se alastrar um pouco a toda esta região [do Alentejo]”.

Além desta descoberta, o jovem recorda ainda, com especial carinho, o capítulo que dedica às tradições orais e ao Cante Alentejano – “que já é reconhecido por todos e já foi classificado como Património Imaterial da UNESCO” –, e outro que corresponde ao culto à padroeira, Santa Bárbara. Por curiosidade, conta que esta virgem mártir é a padroeira dos mineiros – o que faria todo o sentido, não fosse esta freguesia o local onde se situa a “maior mina de cobre da Península Ibérica”. Porém, como esclarece José, as minas entraram em funcionamento no século XX e Santa Bárbara é a nossa padroeira desde o século XIV. Por isso, já era padroeira dos mineiros antes de existirem as minas. Tentei perceber o que levou a que Santa Bárbara fosse escolhida há tantos séculos e cheguei à conclusão de que também isto teve a ver com as ordens religiosas que por aqui passaram”. Este foi, uma vez mais, um facto interessante ligado à história e à cultura local que o autor desvendou e partilhou com os seus conterrâneos através do seu livro.

Santa Bárbara de Padrões: do Alentejo para o mundo.
Fonte da fotografia: Câmara Municipal de Castro Verde

Para José, Santa Bárbara de Padrões é História (“a própria história desta freguesia vem antes da própria nacionalidade portuguesa”); devoção (“este local esteve sempre muito ligado à religião e não necessariamente apenas a cristã” – uma clara referência à presença romana no território e ao paganismo) e, ainda, futuro (“se utilizei a palavra ‘História’ que nos remete para o passado, acredito também que a minha terra tem futuro e grandes potencialidades”).

Apesar disso, quando questionado acerca da juventude de Santa Bárbara de Padrões, alega que a mesma é “escassa”, pois “não há ofertas de emprego nas suas áreas de estudo. Eu tirei Licenciatura em Lisboa e vou também lá tirar o Mestrado. Muito provavelmente, a minha vida profissional também não vai passar pela minha terra. Não existindo indústrias e postos de trabalho que potencializem a fixação dos jovens nestes locais, torna-se muito complicado ficar ou voltar, por mais que a vontade seja muita. É semelhante àquilo que se encontra no resto do interior, de norte a sul do país.” Ainda assim, garante que tem a certeza de que a sua vida terá sempre uma ligação muito forte com Santa Bárbara de Padrões. Aos outros jovens, em particular àqueles que também gostassem de enveredar pela área da Literatura, deixa uma mensagem de incentivo para “investirem no que querem e de lutarem pelos seus sonhos”.

As pessoas da freguesia de Santa Bárbara de Padrões são um elemento-chave para a perpetuação da memória coletiva e, consequentemente, para o desenvolvimento desta obra.
Fotografia de Alice Sebastião

José relembra com satisfação todo o feedback positivo que recebeu desde o momento em que lançou o seu livro. Tenha este partido de pessoas naturais da freguesia ou mesmo de outras que, de alguma maneira, possuam alguma ligação ao local, mesmo que já não lá habitem:

Conheci uma senhora que me contou que o seu pai era natural de Santa Bárbara de Padrões e que já tinha falecido. Durante a vida dela, sempre ouviu muitas histórias sobre a terra que o pai lhe contava e disse-me que teve a oportunidade de revisitá-las todas através daquilo que eu escrevi”.

Recentemente, há quem lhe tenha revelado que aproveitou para ler o livro várias vezes, durante a pandemia. 

O jovem autor espera que esta obra seja, futuramente, uma referência para outras pesquisas porque “ficaram muitas pontas soltas” que poderão e deverão ser exploradas. Quanto a uma próxima aventura no mundo da Literatura: não descarta essa hipótese. Afirma que ter escrito “Santa Bárbara de Padrões – a Identidade de uma Freguesia” foi, além de um sonho seu, um de todas as pessoas da sua terra – “este livro acaba por ser isso mesmo: as pessoas”.

“Santa Bárbara de Padrões – a Identidade de uma Freguesia” já teve três edições publicadas que esgotaram rapidamente. De momento, não se encontra à venda na Internet, mas José admite que é “uma possibilidade”, pois a procura é notória. É possível aceder à página de Facebook do livro para mais informações.

Fotografia de capa de Alice Sebastião

Artigo revisto por: Beatriz Campos

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