7ª Arte

Cineteka: Porque é que os clubes de vídeo se tornaram uma espécie em vias de extinção?

Ainda és da geração que conheceu os videoclubes? Fazes sequer ideia do que é que se trata? Já sentiste a adrenalina de alugar um filme e levá-lo para ver em casa, sabendo que terás de o devolver dali a uns dias? Bem, ainda vais a tempo, porque os videoclubes podem ser raros e até old school, mas ainda existem.

A Cineteka sobrevive e, ao que tudo indica, está para durar. Tudo começou com a criação de um site na Internet, no ano de 2004 (estavam ainda os clubes de vídeo em voga), e, dois anos mais tarde, o mesmo adquiriu vida num espaço físico localizado no Parque das Nações. Hoje, a Cineteka continua a existir em Marvila, em Lisboa. Gonçalo Peres, o seu proprietário, utilizou os seus conhecimentos técnicos enquanto programador informático para, na altura, criar um videoclube ao seu gosto. Numa época em que se ouve tanto falar da conciliação do formato presencial com o formato online, devido à pandemia, Gonçalo Peres fá-lo desde sempre.

A palavra que melhor descreve a Cineteka? Talvez seja “flexibilidade”. Aquilo que era desenvolvido, primeiramente, nas quatro paredes do quarto de Gonçalo foi, mais tarde, transposto para uma loja no Parque das Nações. Posteriormente, a Cineteka passou a ocupar um espaço mais pequeno dentro de um café e hoje estão novamente dentro de um escritório. Gonçalo Peres explica que houve a necessidade de mudança, ao longo dos tempos: “Como os clientes reduziram, tive de me adaptar aos custos. Quando estávamos dentro de um café, não fazia sentido estarmos abertos num horário tão alargado, inclusive aos fins de semana, durante o ano todo, e para tão poucos clientes. Acabámos por vir para um centro de escritórios e alugámos um espaço” – que é onde se encontram agora.

A Cineteka já esteve alojada em vários locais, incluindo neste café. Fonte: NiT

Todas essas mudanças foram realizadas em menos de um dia, uma vez que Gonçalo sempre teve a coleção em arquivadores, podendo ser facilmente mobilizada para outros locais. Tomou a decisão de ter um horário mais reduzido, num espaço com receção. Apenas alguns clientes é que continuam a ir presencialmente e pensa que, por essa razão, acabou por se perder um pouco o contacto com os mesmos (regra geral da pandemia). Todavia, tem a grande vantagem e a possibilidade de deixar as películas alugadas nessa portaria até ao final da noite, caso o cliente pretenda ir buscá-los mais tarde: “Não precisamos de ficar à espera. Isso implicava ter mais gente a fazer esse atendimento, mais horas, mais custos”. Costuma trabalhar na Cineteka uma vez por semana, tendo duas pessoas empregadas. Uma delas encontra-se disponível mais ativamente e, quando esta vai de férias, Gonçalo chama uma segunda pessoa. Estão ao serviço cerca de três horas por dia, o suficiente para gerir todas as reservas. Torna-se, assim, uma gestão do empreendimento mais sustentável, a vários níveis.

Quando questionado se é dono do último videoclube que resta na região de Lisboa, responde acreditar que sim, mas que isso não é motivo de orgulho, muito pelo contrário: “Hoje em dia, é capaz de ainda existirem alguns videoclubes, mas não tenho a certeza. Isso não é uma vitória, pois acho que se fica a perder por sermos os únicos. Eu gostava mais quando havia outros, como os Blockbuster” [outrora a maior cadeia de aluguer de filmes no mundo e em Portugal que encerrou no nosso país em 2010. O último destes videoclubes está situado nos Estados Unidos da América].

Se te recordas desta fachada icónica, testemunhaste o período áureo dos vídeoclubes! Fonte: Time Out Lisboa

Segundo a opinião de Gonçalo, os videoclubes sempre foram parte integrante do comércio local, pois faziam com que os interessados saíssem de casa: “Isso sempre foi das coisas que eu mais gostava nos videoclubes. Como assistir a um filme é uma atividade muito sedentária, é bom fazer com que as pessoas saiam de casa. Um videoclube, um café ou um minimercado são onde as pessoas vão com frequência e obrigam a que haja interações, o que cria um espírito de comunidade, ao contrário de um banco ou de uma loja de roupa, onde não se vai tanto. Esse tipo de relação é importante, principalmente vivendo numa cidade.

Não existem milagres, mas o espírito resiliente da Cineteka teve alguns pontos a seu favor. Em primeiro lugar, o seu fundador confessa que sempre teve um olhar diferente em relação ao negócio de aluguer de películas. Procurou-se apostar no cinema de autor e nem sempre as películas disponibilizadas pelo videoclube eram do interesse do grande público, o que levou a que se criasse um nicho de clientes. Basta dar uma espreitadela em https://www.cineteka.com/ para perceber que a oferta é diversificada, onde nem os blockbusters escapam, com quase dezasseis mil títulos. É também através deste site que o cliente tem oportunidade de conhecer aquilo que se encontra além da capa (o que não aconteceria se se tratasse de um videoclube apenas físico), ao ter possibilidade de aceder a mais informação, como à respetiva página da IMDb. Gonçalo diz que um dos objetivos da Cineteka sempre foi «que as pessoas não escolhessem o filme pelos “lindos olhos”, mas, em vez disso, através de uma escolha informada». Através da página de utilizador, é possível adicionar obras a uma lista de interesses, ficando registados aqueles que já foram previamente alugados. Tendo isso em consideração, é possível receber recomendações de outros dos quais poderemos gostar.

Um “videoclube de culto para cinéfilos exigentes”: assim se define a Cineteka. Fotografia de Inês Sousa Martins

Em segundo lugar, a acessibilidade dos preços contribui para a manutenção do negócio. O custo do aluguer varia entre um e quatro euros, existindo planos para todos os gostos. Há filmes que seguem pelo correio e os portes têm um valor de €1,80, sendo que os títulos são acompanhados de um envelope de devolução. Quando quiser devolvê-los, o cliente tem apenas de voltar a colocar o envelope numa caixa de correio azul ou verde: “Não tem de ir para nenhuma fila, mas obriga a pessoa a fazer, pelo menos, uma viagem”, comenta Gonçalo, a rir. Nada o impede de ficar dependente apenas de clientes locais, pois consegue chegar a todo o país através do correio. Acredita que o cinema sempre foi um negócio bastante acessível, ainda que se torne mais dispendioso para famílias grandes. Alugar um filme num videoclube permite, assim, que várias pessoas assistam em casa, ao mesmo tempo.

Curiosamente (e como se a própria existência do videoclube não fosse já ela alternativa o suficiente), durante o primeiro confinamento provocado pela pandemia de Covid-19, Gonçalo Peres divulgava no Facebook que deixava os alugueres em casa dos clientes que se encontravam mais perto da sua morada, em bicicleta. Estava tudo fechado em Lisboa, as pessoas estavam todas em casa e, não havendo carros nem ruído, era uma tarefa tranquila e até bastante prazerosa.

Gonçalo Peres, a mente cinéfila por trás do último videoclube de Lisboa. Fonte: Time Out Lisboa

O terceiro fator que contribui para a continuidade do negócio é o facto de a coleção se encontrar sempre à disposição do cliente, ou seja: “a partir do momento em que um filme entra na Cineteka, fica lá. A nossa coleção vai aumentando, mas mantém-se sempre disponível e, às vezes, nas outras plataformas ficam apenas alguns meses e depois saem. A Netflix tem filmes que nós não temos, mas nós temos filmes que a Netflix e outras plataformas não têm”. Gonçalo Peres considera que o facto de trabalharem para um nicho de mercado faz com que ainda existam: “Apesar de termos um nicho muito pequeno de clientes, são muito diversos entre si. Existem aqueles que procuram este tipo de filmes, os que gostam de negócios diferentes e os que ainda gostam dos filmes em formato físico. Alguns são mesmo fãs da Cineteka e enviam-nos mensagens para continuarmos o nosso trabalho, com receio de que um dia possamos não estar cá. Além do que seria expectável, ainda continuamos a alugar filmes”.

E porque é que os videoclubes se tornaram espécies em vias de extinção? O que é que mudou? Gonçalo depreende que o número de clientes diminuiu muito, não apenas no que diz respeito à Cineteka, mas ao cinema em geral. Entende que, se nos anos noventa e no início deste século, o cinema ocupava um destaque no tempo de lazer da maioria das pessoas, hoje já não existe a capacidade de seguir uma obra com duas horas: “As pessoas querem ver séries de trinta ou quarenta minutos, porque se foram habituando a ver coisas mais curtas. O número de clientes reduziu bastante, porque as pessoas passam agora a maior parte do tempo num telemóvel ou nas redes sociais”. Por isso, acredita que não são plataformas de streaming como a Netflix e tampouco os outros videoclubes os maiores concorrentes da Cineteka, mas as restantes alternativas de entretenimento.

A Cineteka disponibiliza cerca de dezasseis mil títulos. Imagem cedida por Gonçalo Peres

Entre as mesmas, encontram-se, como referiu, as séries: “Existe esta necessidade de procurar estímulos imediatos e ver um filme já parece um grande esforço. Nós também temos algumas séries. No entanto, prendem-nos num determinado registo temporal, em determinada história com determinadas personagens”. Gonçalo Peres defende que esta experiência é bastante diferente àquela de assistir a obras cinematográficas, pelo facto de estas serem mais ecléticas, podendo retratar a contemporaneidade ou o passado ao não se confinarem apenas a um registo. Dá ainda o exemplo das ‘viagens’ nas quais o espetador pode embarcar através do cinema oriental, sul americano, norte europeu, sul coreano: Conseguimos mudar completamente de cultura e ter contacto com outras realidades completamente diferentes. Nas séries, perde-se a diversidade e ficamos mais monocentrados enquanto espetadores. É uma perda para a sociedade, porque não se recebe tantas referências diferentes. Isto não nos torna tão tolerantes e ficamos mais suscetíveis de adotar um discurso mais nacionalista”. Desta forma, é caso para acreditar que o cinema tem um papel, ainda que subtil, na nossa formação enquanto cidadãos.

No que diz respeito ao lado mais sombrio da Sétima Arte, destaca a dependência excessiva relativamente à publicidade: «A partir do momento em que as pessoas que consomem o filme já não o pagam a quem o produz, a indústria do cinema fica refém de outras fontes de receita, nomeadamente o “product placement”.» Isto é, a forma de introduzir publicidade de forma subtil no conteúdo cinematográfico. Gonçalo adverte: Ao colocar as personagens a puxar de um cigarro quando estão muito irritadas, ou a seguir a terem sexo, todos os comportamentos, sejam eles bons ou maus, sejam frustrações ou alegrias, estão a ser associados ao ato de fumar. Os espetadores, incluindo crianças e jovens, acabam por adquirir essa mensagem sem se aperceberem, pois está tudo feito para que não pareça óbvio”. Aliás, o fundador da Cineteka costuma comentar isso com quem conhece e conta, divertido, que, passado uns tempos, vêm ter com ele a dizer que começaram finalmente a reparar nas mais variadas situações em que as pessoas fumam, durante uma longa-metragem.

A atual morada física da Cineteka situa-se em Marvila, na capital. Imagem cedida por Gonçalo Peres

Continua, explicando que isso contribui para a perda da liberdade criativa: “A indústria do tabaco continua a vender bastante, não podendo fazer publicidade. O filme acaba por ser, muitas vezes, um veículo de promoção de produtor e de marcas. A qualidade acaba por não ser a mesma e fica dependente de outros interesses, apesar de ainda haver pessoas a fazerem bons filmes na atualidade”. Gonçalo esclarece que isto acontece com outras indústrias e compara a situação àquela que sucede, igualmente, no mundo do jornalismo: “Se não são os consumidores das notícias que as pagam, o jornal fica dependente da publicidade”.

Para uma pessoa que se encontra tão ligada ao cinema, qual é que é, afinal, o filme da sua vida? «Nunca fiz uma dessas listas, mas o “Eternal Sunshine of the Spotless Mind” é um dos meus favoritos. O Michel Gondry [realizador] tem outro chamado “Be Kind Rewind, que conta a história de um senhor com uma certa idade que tem um videoclube, mas com cassetes VHS, em pleno século XXI», ri-se.

Eternal Sunshine of the Spotless Mind é uma das películas prediletas de Gonçalo. Fonte: Comunidade Cultura e Arte

Para terminar, a pergunta para um milhão de euros: por que razão é que nunca pensou desistir da Cineteka?O negócio continuou a ser sustentável. Não é algo que recomende a ninguém nesta altura, obviamente, mas como já tínhamos o investimento feito, o software, tudo a funcionar e a logística toda montada, não estávamos a perder dinheiro e essa é uma das razões pelas quais não fechámos. E os clientes continuam a gostar de alugar”. O que pensa a respeito da durabilidade do negócio? “Obviamente que não há de ser um negócio que dure para sempre. Depende se continuarem a sair filmes em formato físico em Portugal. Podemos continuar a alugar aqueles que já temos, mas, se não forem editados novos, ficamos um pouco mais limitados” – como acontece agora em plena pandemia, comenta, por estarem a ser lançados menos longas-metragens. Isso é, evidentemente, algo sobre o qual não têm controlo.

Gonçalo mantém-se despreocupado com o futuro e focado na Cineteka, independentemente daquilo que o destino lhe trará: “Tenho é pena de que os filmes depois deixem de estar disponíveis e de que, quando as pessoas quiserem ver [determinado filme], não encontrem. Já pensei em doá-los todos a uma biblioteca e, pelo menos, ficavam disponíveis a algum público, só que numa vertente mais local. Também não os queria vender. Todas as semanas, há quem queira comprar algum filme e digo sempre que não, porque, ao ir para casa de uma pessoa, nunca mais ninguém o vê”. E a magia do cinema só faz sentido quando partilhada.

Artigo redigido por Inês Sousa Martins

Artigo revisto por Adriana Alves

Fonte da imagem de destaque: Nerve Media

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