Liberdade com todas as letras: à conversa com José Jorge Letria

A Associação 25 de Abril assinalou os 45 anos da revolução com o colóquio Memória(s) de Abril. Um dos protagonistas do debate foi o escritor e presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, José Jorge Letria. O ex-jornalista abriu-nos a porta para o seu mundo.

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Fonte: José Jorge Letria, retirada de: http://www.josejorgeletria.net/1/jose_jorge_letria_2438627.html
Créditos: José Jorge Letria

Desde cedo que percebeu que tinha vocação para escrever. Porém, só aos 11 anos se apercebeu realmente de que queria ser escritor, depois de escrever um poema em homenagem à avó materna que tinha falecido há pouco tempo. Aos 16 anos, enfrentou a morte repentina do pai e, a partir daí, a escrita tornou-se, não só uma forma de preservar as suas memórias, mas também de expressar aquilo que sentia.

Antes de exercer a profissão de escritor, José Jorge Letria começou por ser jornalista. A sua primeira casa foi o Diário de Lisboa. Mais tarde, na década de 70, mudou-se para o jornal República. José Jorge Letria revela que, no tempo da Ditadura, qualquer pessoa vivia com medo: “nunca sabíamos se íamos chegar a casa ao fim do dia ou se seríamos presos pela PIDE no dia seguinte”.

No jornal, os artigos passavam todos pela censura. Letria conta que, muitas das vezes, mais de metade do que era escrito era riscado com o famoso lápis azul, e, para cobrir os espaços em falta nos jornais, era obrigado a colocar imagens ou a abordar temas banais.

Todavia, mesmo com o constrangimento da censura, Letria salienta a importância do jornalismo na luta pela liberdade de expressão: “os jornais é que estruturaram a consolidação popular e ideológica daquilo que vai ser o 25 de Abril”.

José Jorge Letria foi ainda um dos poucos civis que estavam ao corrente do levantamento militar no 25 de Abril, tendo colaborado com os militares na Direção da Emissora Nacional enquanto responsável pela programação musical. Foi ainda um dos nomes mais destacados da canção senha da Revolução, “Grândola, Vila Morena”, ao lado de Zeca Afonso.

Confessa que na noite de 24 não conseguiu dormir “à espera de que acontecesse alguma coisa”. A primeira coisa que fez foi dirigir-se a casa da mãe para a alertar para que no dia seguinte não saísse à rua. Nessa noite, foi ainda ao cinema com Eugénio Guerra. Porém, ainda antes de o filme acabar, dirigiram-se para os locais onde as tropas iriam sair e aguardaram no parque de estacionamento do Hotel Roma a fumar e calados . “Nestas alturas, tudo o que se possa dizer é pura banalidade”.

O autor afirma que quando viram as primeiras colunas a sair, foi um momento de grande emoção: “o momento em que tive a certeza de que a data de 25 de Abril ficaria para a história foi quando vi as mulheres saírem à rua para apoiar os militares”. José Jorge Letria caracteriza este dia como o mais feliz da sua vida.

José Jorge Letria foi jornalista, músico, mas, acima de tudo, escritor. A sua obra literária já foi distinguida com inúmeros prémios, entre eles dois Grandes Prémios da APE, o Prémio Eça de Queirós e o Prémio Ferreira de Castro de Literatura Infantil.

Letria afirma que, quando escreve, partilha com as crianças não só a sua visão da realidade, mas também aquilo que gostava que ela fosse, através do mundo da imaginação, da fantasia e do sonho. Porém, a verdadeira mensagem que procura transmitir é que através da escrita é possível dizer “coisas fantásticas”. O escritor diz que a sua única referência é a imaginação, mas a sua paixão pela liberdade é algo que o inspira.

O presidente da Sociedade Portuguesa de Autores defende ainda que Portugal dá muito menos mérito aos seus escritores do que aquilo que parece e do que aquilo que devia. “Um dos equívocos que existe atualmente é que qualquer pessoa que escreva um texto é considerada escritora ou poeta, o que leva a uma banalização da arte de escrever”.  Contudo, o escritor não deixa de incentivar aqueles que querem seguir a área: “o que aconselho é que sejam exigentes consigo próprios, que se respeitem a si mesmos e que façam os outros respeitá-los”.


Revisto por Maria Constança Castanheira

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