Literatura

Livro da Semana: Uma Costela da Beira Alta

Quando era pequena, os livros de que mais gostava e aqueles que lia mais vezes eram os livros de contos. Sempre me fascinou o facto de se poder contar uma história em menos folhas do que se conta em livros enormes e, por isso, os contos ganharam um lugar cativo na minha vida.

Quando soube que o Daniel ia publicar um livro fiquei admirada: não sabia que ele escrevia. Depois, ao saber que era um livro de contos, ainda mais admirada fiquei. Há quem diga que é muito fácil escrever um conto, por serem mais curtos, mas, na verdade, não é fácil. Contar uma história, que poderia facilmente ser descrita em cem páginas em apenas meia dúzia delas — ou menos — é um desafio enorme e o Daniel superou-o.

Ser da Beira Alta, do interior, é uma propriedade que ainda é estranha a muita gente. Eu cheguei à ESCS a dizer que era do concelho de Trancoso e tinha de completar automaticamente com “distrito da Guarda” para me compreenderem minimamente. Conheço apenas duas, três pessoas que não precisaram do meu complemento para conhecerem Trancoso. Boas pessoas, portanto. Houve, ainda, uma pessoa que chegou a dizer “Guarda? Isso é ao pé de Coimbra, não é?”. Não, não é. Mas que culpa tenho eu de que os vossos professores de Geografia não prestassem?

Mas, continuando, que estamos aqui para falar de um livro e não de Geografia.

Em doze contos, ou estórias – como o próprio autor lhes chama-, é traçado um retrato fiel da Beira Alta, de Trancoso à Covilhã, passando pela Guarda, por Figueira de Castelo Rodrigo, Sátão, Vilar Formoso e até uma certa “Aldeia Natal”, que eu acho que tão bem conheço. Confesso que o livro acaba por me dizer mais desde que saí de lá. À distância vejo a Beira Alta de uma forma ainda mais clara e reconheço em cada conto um bocadinho de alguém com quem já me cruzei por terras de Bandarra.

Mas o livro não é só para quem vive na região — era o que mais faltava! Acho que o grande ponto forte do livro é mesmo fornecer um retrato fiel e real da região: seja o rapaz de Vilar Formoso que não sabe se o melhor é seguir a vida e ir para longe ou se o melhor é estudar fora e voltar à zona; ou a mulher que fica sozinha em Figueira de Castelo Rodrigo e não se consegue imaginar lá assim…

Quando o autor diz “a extrema familiaridade que temos na Guarda, e na maior parte do país, ao fim e ao cabo, é castradora. As pessoas sabem de onde tu vieste, conhecem-te bem de mais e não te perdoam. Se queres subir um degrau, eles querem que caias dois” [pág. 36], acho que não podia sentir-me mais compreendida e não podia ver Trancoso mais espelhado em tal afirmação.

Na verdade, este livro é muito mais do que um livro de contos: é um livro de histórias de pessoas que representam a realidade na ficção. Como ponto forte destaco os contos “Aldeia Natal” e “S. Tomé”. Vírgulas à parte, e por muito que sinta Lisboa como uma das minhas casas, as minhas costelas são da Beira Alta e nem tudo na Beira Alta é mau. Pelo menos, temos grandes histórias para contar.

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