Não, Orwell não é profeta

Desde que as redes sociais explodiram como o maior veículo de comunicação do planeta, são muito frequentes as analogias entre a sociedade atual e o livro Nineteen Eighty-Four, do britânico George Orwell. Afinal de contas, o fim da privacidade humana coincide com o início da era da internet. O Big Brother, enquanto conceito abstrato, é efetivamente uma realidade: a internet é um buraco negro de informação, onde tudo o que lá vai parar, por lá permanece ad eternum.

No entanto, logo no conceito orwelliano de Big Brother residem grandes diferenças face ao que o senso comum pseudointelectual veicula: o Big Brother de Nineteen Eighty-Four é uma entidade fictícia e mística. É certo, mas está ao serviço de um partido político e de uma ideologia clara: o socialismo. Além disso, este Big Brother servia o propósito de, através dos telecrãs, observar o comportamento dos cidadãos. Em caso de ação ou pensamento subversivo face ao Partido, os cidadãos eram prontamente presos e torturados. É de ressalvar que a forma como Orwell constrói toda esta alucinação macabra, em que a tortura é levada ao extremo para que nem o amor pelo próximo resista entre os humanos, é absolutamente notável. Felizmente, ainda estamos, pelo menos no mundo ocidental e mesmo com o recente avanço do anticientismo e do totalitarismo, longe dessa privação de liberdade. Se os grandes grupos económicos mundiais podem condicionar largamente o rumo político e social do mundo, eles não querem nem um pouco saber dos nossos amores ou dos nossos dilemas particulares.

Uma outra grande diferença é a de que o Big Brother do romance é uma figura com rosto e feições, à qual os cidadãos têm a obrigação moral e coerciva de prestar culto. Ao passo que o Big Brother dos nossos tempos é uma entidade incorpórea, à qual nós voluntariamente cedemos a nossa privacidade, sem qualquer coercividade associada. Somos, para todos os efeitos, razoavelmente livres para, pelos menos nas redes sociais, não marcarmos a nossa presença. Se falamos do aparelho estatal, aí a conversa é outra. No máximo, podemos aceitar que esta liberdade é aparente. No entanto, em países democráticos, existe a liberdade de contestar as decisões políticas, geoestratégicas, económicas e outras. Na Oceânia do socing, os pilares que sustentam o Big Brother são o medo e o ódio. Não é isso que acontece no mundo real: os estados certamente fazem uso dos nossos dados para condicionar decisões e favorecer lóbis económicos. Ainda assim, o fator diabólico e sádico do Big Brother, representado pela mítica sala 101 – onde os presos sofriam a derradeira tortura –, não tem um paralelo real. Aos contestatários é-lhes reservado o desprezo e a ignorância, não exatamente uma gaiola de ratazanas. Não é, na verdade, consensual qual é o pilar do Big Brother do século XXI. Arriscaria a dizer que é a ilusão de liberdade. Este pode, ainda assim, ser contestado, algo que seria impensável no romance. Os nossos estados não estão minimamente importados com os nossos casos amorosos, as nossas loucuras, as nossas tristezas, desde que cumpramos com as nossas obrigações legais e fiscais. E preferencialmente conformistas face ao status quo. Ao invés, na Oceânia, as relações amorosas entre membros do Partido eram terminantemente proibidas. Winston Smith, o protagonista do romance, foi precisamente detido no local onde tinha encontros secretos com Julia, a sua amante, tal como ele pertencente à máquina do Partido. Podemos dizer que os mecanismos de fiscalização são semelhantes na ficção e na realidade, assim como os fins. Porém, os métodos utilizados para alcançar esse fim são completamente antagónicos. No caso do livro, o fim era a manutenção do poder com base na violência e na raiva. No mundo real, o fim é igualmente a manutenção do poder, mas com base na liberdade ilusória, que leva ao silenciamento voluntário da voz de mudança mais poderosa: as massas.

Apesar de cedermos a nossa privacidade a uma máquina incomensuravelmente maior do que a que Orwell projeta no livro, parece-me que, ainda assim, a nossa privacidade caseira continua assegurada. As redes sociais colocam-nos despidos face aos nossos interesses, gostos e ideologias. Contudo, elas não são um espelho da realidade, mas uma caricatura dela e de nós mesmos. Elas projetam os nossos alter-egos e as nossas personagens sociais. Somos livres de mostrar lá aquilo que queremos mostrar. E isso pode não corresponder exatamente àquilo que somos em essência. É, de resto, a situação mais comum, porque a vaidade leva sempre de vencida esta guerra. Em Nineteen Eighty-Four, o Big Brother reveste-se de uma perspicácia humana que lhe permite garantir que ninguém lhe passa a perna. O nosso Big Brother não é mais do que um algoritmo que pode ser enganado se assim o quisermos. Se eu desatar a seguir páginas de viagens e lifestyle, isso não faz de mim um fã desses assuntos, mas certamente que serei inundado por anúncios e artigos patrocinados sobre os mesmos. É relativamente fácil enganar o sistema. Os algoritmos, por muito aperfeiçoados que possam vir a tornar-se, estarão sempre um passo atrás do ser humano, porque este é imprevisível e mutável. Talvez o pilar do Big Brother dos nossos tempos seja surpreendente: a preguiça. A preguiça de ser, de refletir, de questionar, que leva à anestesia e ao conformismo. Temos a liberdade de mudar o mundo e optamos por não o fazer, ao passo que Winston tentou fazê-lo e foi esmagado pelo sistema. Esta é a mesma preguiça que faz com que aqueles que acreditam num paralelismo linear entre as duas sociedades sejam precisamente aqueles que provavelmente nunca leram a obra.

Artigo revisto por Catarina Cravinho Gramaço

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