O bom, o mau e o laico

Esta crónica é escrita ao abrigo do novo acordo ortográfico

 

Como ateu quase militante seria fácil para mim criar toda uma revolta imaginária em relação à tolerância de ponto concedida pelo governo aquando da vindoura visita do Papa. Também poderia com uma hipocrisia inocente fechar os olhos a este bombom dado pelo Estado Português aos trabalhadores do setor público. Pois bem, creio ter encontrado um consenso agradável entre ambas as posições.

O Papa, independentemente de ser o Francisco, o Manuel, ou o Zé Carlos, é mais do que um mero CEO da igreja católica apostólica romana. A verdade é que este é uma figura que ultrapassa o espectro religioso e penetra na esfera politico-cultural, tal como defende o Professor José Gil no jornal Público: “Se o Nelson Mandela em vida viesse a Portugal e o Governo concedesse uma tolerância de ponto para o povo ir vê-lo, as pessoas estariam de acordo ou não? Claro que estariam”.

Por mais laico que seja o Estado, é inegável que a esmagadora maioria da população portuguesa se identifica como católica. Sim, é evidente o populismo da medida e, sim, é uma clara violação da laicidade do Estado, mas deixem lá os papistas divertirem-se mais do que o Papa.

Há problemáticas relacionadas com a Igreja Portuguesa bem mais preocupantes, como a insistência na colocação de crucifixos em escola públicas, ou mesmo a crescente comercialização de Fátima, que cada vez mais se afasta da sua simbologia enquanto santuário, aproximando-se a largos passos de uma gift shop. Quase que só falta venderem-se lá t-shirts a dizer, “My grandma went to Fátima, and all I got was this lousy t-shirt!”

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