Literatura

O CASTELO, DE FRANZ KAFKA: UMA LEITURA SUGADA PELO INFINITO

Aviso: este artigo não contém spoilers. Devido às exigências editoriais dos admiráveis tempos novos, esta tentativa de crítica moderadamente especializada, que será apresentada como review pelos delegados de comunicação do órgão, não terá informações sobre o desfecho da obra. Como se lê tão pouco, certamente por isso, e apenas por isso, tem-se paulatinamente deixado a crítica literária ao abandono nos espaços de publicação periódica. Quer-se que as pessoas leiam, mas não se quer que as pessoas entendam o lido, conceito este que acende em si imaginários de vaidade e aparência sobre os quais não terei tempo de discorrer.

O Castelo, Das Schloß na língua original, é um fragmento romanesco de Franz Kafka. A obra nunca chegou a ser concluída, devido à morte do checo em 1924, vítima de tuberculose. Ainda assim, é considerada, por grande parte da crítica, a obra-prima de Kafka, bem como o culminar da sua carreira de alegorias alucinantes sobre a burocracia, a justiça e a sobrevivência, no labirinto que é a vida. Narra a história de K., um suposto agrimensor recém-chegado a uma aldeia para nela trabalhar.

Antes de passar à obra propriamente dita, é preciso dizer duas coisas: primeiro, tentar entender que Kafka é um desafio possivelmente impossível. Desafiante, mas, em rigor, impossível. E segundo, para tentar esboçar um entendimento mínimo, convém conhecer informações contextuais de época e de biografia.

CONTEXTOS

A obra de Kafka é situada pela crítica na corrente expressionista, devido à temática da dissociação do Eu, à estética do feio, à abstração, ao modo como faz incidir a realidade nos seus textos e ao conflito com o pai – símbolo da autoridade. Porém, esta categorização é porosa e tremendamente frágil, dado que proliferam leituras de vários quadrantes das ciências sociais e linguísticas a respeito dos seus livros.

Kafka nasceu e viveu em Praga durante grande parte da sua vida. Hoje capital da República Checa, Praga, à época, no início do século XX, pertencia ao Império Austro-Húngaro. Dentro da cidade, Kafka pertencia a duas minorias, condição que vai marcar toda a sua obra: a minoria falante de alemão (7% dos praguenses) e a minoria judaica (2%). 

Segundo Gonçalo Vilas-Boas, professor aposentado da Universidade do Porto e talvez o maior especialista vivo de Kafka em Portugal (e de quem tive o privilégio de ser aluno… por uma aula, é certo), há, assim, três grandes vetores que orientam a obra de Kafka:

1) O isolamento, na cidade e em casa (devido à autoridade excessiva do pai e à falta de privacidade). 

2) O sentimento de culpa, porque teve sempre de dividir a sua vida entre o trabalho (numa seguradora) e a escrita. Ou seja, nunca conseguiu ser nem um burguês nem um artista na sua plenitude.

3) A debilidade física. Tuberculoso a partir de 1917 e reformado por doença em 1922, Kafka via a doença como uma libertação artística, porque o afastava dos deveres profissionais que sempre cumpriu a custo.

NÃO É UMA SINOPSE

“Era já noite quando K. chegou. A aldeia jazia afundada na neve. Do monte do Castelo, nada; só bruma e escuridão a toda a volta; nenhuma luz, nem a mais débil, deixava adivinhar o grande Castelo. K. deteve-se na ponte de madeira que, da estrada, ia dar à aldeia, e longo tempo ali ficou, de olhos erguidos para o vazio aparente.” Começa assim o romance. Não temos grandes informações. Há um protagonista, uma aldeia, um castelo e trevas. Quando começamos a leitura, “temos a impressão de que, antes, não havia acontecido nada, e de que o universo, a vida de Kafka, a história da literatura, começam naquela noite, quando K. chega diante do monte do Castelo”, afirma o crítico Pietro Citati. E se o leitor espera que mais para a frente essas informações de contexto temporal surjam, pois bem, nunca irão surgir. Estamos perante um espaço fora de todo o espaço e de todo o tempo, como se de um conto de fadas se tratasse.  

Voltando ao enredo, após exibir um despacho das autoridades da aldeia (residentes no castelo que dá título ao romance) que confirmava a escolha de K. para responder às necessidades de agrimensura no reino, acontece o seguinte: as mesmas autoridades afirmam que a aldeia não precisa, afinal, de agrimensor nenhum. K. passará todo o tempo a tentar resolver este imbróglio burocrático, numa luta desigual contra todo um sistema que o engole e vai causando, aos poucos, uma alienação e destruição psicológica quase impercetíveis.

Como é habitual na literatura desta época, há um boicote desconcertante aos protocolos de leitura habituais. O leitor tem de aceitar como ponto de partida que o protagonista chega à aldeia afirmando ter sido chamado pelas autoridades do castelo para trabalhar como agrimensor, ao passo que as autoridades negam essa chamada. Esta situação é evidentemente caricata e absurda, além do facto de nunca vir a ser justificada ao longo do texto. O problema é que é a única perspetiva a que o leitor se pode agarrar. Agarra-se, portanto, a uma nuvem de informações e de contrainformações sobre as quais é desconhecida a perspetiva verdadeira, se é que ela existe. Aliás, ao longo do texto, o leitor não só não é esclarecido, como se adensam as dúvidas sobre a versão correta dos factos, à medida que novas personagens vão entrando em cena e apresentando também as suas versões. No final, vamos ficando até na dúvida se K. é, ou alguma vez sequer chegou a ser, um agrimensor. Neste aspeto, é de salientar a genialidade do autor, que consegue enredar toda uma sequência narrativa a partir de, afinal, ao que vemos, um absoluto vazio informativo. Percebe-se, assim, que o leitor depende bastante da perspetiva do protagonista, até porque este sabe mais do que o próprio narrador. Contrariamente ao narrador da escola realista ao estilo de um Eça de Queirós, um Gustave Flaubert ou um Charles Dickens, aqui o narrador não é omnisciente. No máximo, poderíamos dizer que o narrador de O Castelo tenta recolher e juntar as peças de cada perspetiva das várias personagens, com o intuito de condensar a informação e de chegar à verdade. Fica por esclarecer se Kafka pretendia um narrador colaborativo com o leitor ou antes um narrador que apenas contribui para adensar as perguntas. O que sabemos é que, intencionalmente ou não, o narrador nos deixa a solo na busca pela verdade dos factos. O leitor acaba por se ver forçado a identificar-se com K., à falta de outras perspetivas minimamente consistentes. Fica, porém, à mercê do facto de K. poder ser traído por impulsos, falsas perceções e falsas avaliações, como vem a acontecer.

Trata-se, portanto, como vemos, de uma obra envolta na busca incessante e desesperante pela verdade num universo em que o contexto só parece contribuir para uma diluição da verdade com a mentira. K. passa todo o romance em processo de procura da verdade, sem parar, porque há um problema: se estiver parado, a incerteza matá-lo-á. O segredo é manter-se em movimento, isto é, manter a esperança de que lhe será dada razão, procurando encontrar-se com pessoas que o possam ajudar nesse objetivo. Só que, ‘em andamento’, vai tendo cumulativamente de tomar novas decisões sem saber se está a ir pelo caminho certo. O texto não dá qualquer pista de qual a decisão acertada a tomar por K. em cada momento. K. move-se pela precipitação e impaciência, motivadas pelo medo da inércia fatal, logo não pode tomar boas decisões nestas condições. Além disso, há outro fator crucial: K. desconhece as leis do reino. O leitor fica com a sensação de que, não as conhecendo, qualquer que fosse a decisão tomada por K., seria sempre uma decisão errada.

K. sabe com quem precisa de falar e de reunir presencialmente: com os altos funcionários do castelo. Problema: estes são profundamente distantes, inacessíveis, silenciosos. Evitam a todo o momento a comunicação com os aldeãos e, quando o fazem, são incompreensíveis e austeros. Tudo para arrastar os processos e exercer uma dominação indireta, brincando com as expetativas das pessoas. Um pormenor bastante curioso é que os altos funcionários se encontram sempre munidos de montanhas de relatórios nos seus gabinetes, mas nunca chegam a lê-los para aplicar a lei – o que exibe uma espécie de omnisciência do absurdo, porque, no fundo, consiste num embuste. Sem nunca usar um tom crítico, através desta risível caricatura, Kafka denuncia a infantilidade das organizações burocráticas que atuam, na verdade, de forma arbitrária, já que não há vagar para analisar tantos papéis, o que os torna flagrantemente inúteis. Efetivamente, a única coisa que move estes funcionários é a obscenidade. Vistos como deuses pela população, passam todo o romance a possuir as aldeãs e, posteriormente, a abandonarem-nas quando desejam. A reverência que lhes é votada é de tal modo absurda que, caso uma aldeã recuse um envolvimento, é ela que é alvo de um acérrimo julgamento popular que conduz inevitavelmente à sua desonra, nunca do funcionário do castelo, protegido por uma aura divina.

Toda a trama poderia resumir-se no diálogo travado entre K. e o regedor do castelo. Nesta fase, já é absolutamente claro que o castelo cometeu um erro grave: aquela aldeia não precisava de agrimensor nenhum, embora K. detivesse uma declaração onde a chancela do castelo diz o contrário. E a resposta do regedor é, numa palavra, perturbadora: “O serviço de controlo não está feito para descobrir erros no sentido grosseiro da palavra, porque nunca se cometem erros. […] Mesmo que por exceção aconteça um erro, como no seu caso, quem pode garantir-nos afinal que se trate verdadeiramente de um erro?… Quem pode garantir-nos que a segunda repartição avaliará o caso do mesmo modo, e a terceira, e as seguintes?” Por outras palavras, e em resumo, segundo o castelo, não há erro… porque não há erro. Desesperante por um lado, ridículo por outro – fica ao critério de gosto interpretativo do leitor.

Perante a forma como as altas instituições burocráticas são expostas ao ridículo, este romance é assim um romance de crítica social. Certo? Não necessariamente (vendo bem, este dístico serve para responder a qualquer pergunta relacionada com a obra de Kafka). Na verdade, por mais estranho que possa parecer para quem não está familiarizado com a literatura kafkiana, não há qualquer crítica social visível, nem sequer um retrato realista da realidade. Aliás, para Kafka, a crítica é inútil, pois estamos todos inseridos no problema: a burocracia. E, portanto, não somos capazes de ‘sair para fora’ para fazer uma rigorosa análise crítica da situação. Em O Castelo, não existe exatamente um chefe supremo conhecido, isto é, um déspota com rosto a quem são devidos reverência e medo. O máximo que existe é uma ténue referência a um certo conde que supostamente estaria no topo da hierarquia, mas o seu nome é rapidamente engolido e nunca novamente mencionado. Todas as personagens que participam ativamente no enredo passam pelo papel de oprimidos e de opressores. A haver um supremo chefe totalitário, seria a burocracia a que todos estão sujeitos, não uma pessoa em específico. A burocracia não tem corpo, logo é imortal, o que esmaga qualquer esperança. Isto impossibilita a crítica social, porque não há um alvo. Não se chega a saber se a burocracia é vista como um mal menor ou um mal inevitável. Contudo, sabemos que Kafka não tem uma proposta alternativa de organização social e política. Apenas sabemos que a que existe é, em seu entender, labiríntica, aterradora e fatal. Mas, ao mesmo tempo, não há, nem houve, outra.

TEMAS

ALIENAÇÃO. Vamos percebendo que K. está completamente perdido e, ao mesmo tempo, resignado face à impossibilidade de penetrar na autoridade do castelo. Isto torna-o numa personagem sempre movida por uma falsa esperança, sempre defraudada. É importante referir que a severidade com que K. é punido não é uma severidade física, mas psicológica. As autoridades do castelo até vão respondendo às suas cartas e cedem passiva e falsamente às suas pretensões. No entanto, esta é uma passividade destruidora, porque coloca a vida de K. permanentemente em suspenso e na expetativa. As cartas que lhe são dirigidas são falsas. Inclusivamente, o castelo envia dois falsos ajudantes de agrimensura para adensar a confusão de K. e, ao mesmo tempo, dar-lhe uma falsa sensação de satisfação. K. nunca irá conseguir entrar no castelo ou sequer contactar algum funcionário interno do castelo. Estamos perante uma tortura passiva em que a não-resposta e a expetativa sempre mantida em suspenso alienam e destroem a humanidade de K., subjugando-o sem que ele se aperceba disso. Nunca o narrador descreve explicitamente o estado psicológico de K., porém. Há apenas uma presunção de esgotamento psicológico que está em permanente conflito com um renovar das expetativas, expetativas essas sem fundamento aparente e apenas movidas pelo desespero.

LEI. Existe uma lei que rege o castelo, sabemo-lo. Só que ninguém a conhece, nem mesmo os que a aplicam. Ou seja, na prática, o castelo é uma anarquia totalitária, se é que me é permitido o oxímoro. Isto cria uma sensação de perfeito absurdo, claro, que pode ser desolador ou hilariante. Tanto num caso como noutro, como Gilles Deleuze argumentou, há um conflito claro entre uma “lei paranóica” e uma “justiça esquizofrénica”. Trata-se de um sistema judicial que se boicota a si mesmo, levando a que as pessoas não morram da punição, mas do desespero por desconhecerem a sentença final e por não haver forma de a descobrir. A punição é levada a cabo nunca direta e objetivamente, mas através de um silêncio ensurdecedor que gera nos alegados réus um sentimento de culpa e que os dilacera interiormente, dispensando qualquer punição de âmbito penal.

ESPAÇO-TEMPO. Temos a sensação de que o espaço na obra é um lugar utópico. Não há ao longo do livro qualquer referência a qualquer pessoa ou episódio prévio à história que ali se passa. É um espaço absoluto que não se poderia situar em qualquer espaço ou em qualquer tempo do mundo, devido à transmutação de referências propositadamente anacrónicas, nomeadamente o conflito entre uma aura medieval em torno do castelo e os seus servos, escrivães e mensageiros e a máquina burocrática industrial organizada à luz das regras do século XX, que usa o telefone para comunicar.

INFINITO. O Castelo é um livro que não foi concluído, o que, num sentido lógico, é de lamentar, porque estamos na presença de um clássico da literatura mundial. No entanto, num sentido figurado, é justo dizer que, onde quer que terminasse a obra, esta seria sempre infinita. K. é apenas um indivíduo que calhou ser protagonista como mera amostra exemplar de todos nós. Todos nós poderíamos ser K. e, em certo sentido, somos. Para destruir a máquina, teríamos de não ser a própria máquina. Destruir a máquina seria destruir a vida e o mundo. Em Kafka, a resignação e a falsa esperança não são fraqueza ou falta de coragem, mas a sobrevivência e manutenção de uma sanidade mental mínima, num mundo dominado por loucos e crianças.

AS PROFECIAS…

O romance termina com uma frase por completar. Mas será que existem registos que comprovem como Kafka terminaria O Castelo, caso não tivesse morrido? Felizmente para os aficionados, a resposta é sim. Segundo Max Brod, o melhor amigo de Kafka, a quem o escritor confiou a tarefa de incinerar todo o espólio (pedido ao qual Brod não anuiu), o romance iria terminar com o funeral de K., finalmente morto de exaustão e, nesse preciso momento, chegaria a procuração que validava o seu direito de viver e trabalhar naquela terra.

O que é que Kafka nos quer transmitir? Que a liberdade só chega depois da morte? Uma leitura judaico-cristã talvez apontasse para aí. Que não temos outro remédio que não lutar mesmo contra um grotesco dado viciado que não nos oferece escapatória? Ou que a vida seria melhor numa anarquia? É impossível responder. Kafka é um labirinto. A melhor forma de o entender… bem, é não ler uma única linha do que escreveu. Porque, quanto mais se lê, menos se entende. A contiguidade é o máximo a que podemos aspirar.

E hoje? O que Kafka tem a dizer sobre hoje? Em primeiro lugar, é preciso dizê-lo categoricamente: sempre se falou de Kafka enquanto profeta do futuro, com a sua lucidez terrífica. Mas iria mais longe: Kafka é um profeta do futuro, do passado e mesmo do tempo absoluto. O Castelo é uma das mais felizes alegorias ao motor que sempre moveu o mundo: o poder e as suas relações. Vivemos tempos semelhantes aos que Kafka vivenciou no seu apogeu criativo: tempos de convulsão, revolução, contrapontos de forças ideológicas e mutações nos grupos sociais – tempos nos quais urge o aparecimento de vozes esclarecidas, capazes e corajosas. Certo, Kafka? “Essa gente é dona do mundo e, no entanto, enganam-se. Atrás deles já aí vêm os secretários, os burocratas, os políticos profissionais, todos esses sultões modernos a quem preparam o acesso ao poder.”

Artigo revisto por Beatriz Campos

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