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O medo do “não sei”

O Homem é um mamífero que procura padrões, mesmo quando estes não existem: quando não temos uma teoria racional, contentamo-nos com a teoria da conspiração; quando vemos dois pontos e um parêntesis, vemos uma cara humana a sorrir. Aquilo que parece encaixar tem de encaixar. Recordo esta clássica experiência: uma mulher visita uma vidente com a intenção de saber aquilo que o fado lhe guarda. A psíquica diz-lhe que ela deve atentar no número 32. Nos dias seguintes, a mulher começa a reparar que encontra o algarismo em todo o lado: é o número do autocarro que apanha para o trabalho, é a idade da melhor amiga e é o ano de nascimento do seu realizador de cinema preferido. Na verdade, todos estes eventos já o eram antes da vidente o ter dito. A taromante, como “figura de autoridade da adivinhação”, apenas fez com que a mulher criasse associações entre eventos singulares que não têm nenhuma ligação intrínseca. Ou seja, o 32 sempre lá esteve, mas agora a mulher repara nele, quando antes o ignorava.

Acontece algo parecido na “falácia lógica do jogador”. Imaginem que atiram uma moeda não viciada ao ar 15 vezes e nessas 15 vezes sai sempre cara. Se eu lançar a 16º vez qual será a probabilidade de sair cara? Certamente será mais provável voltar a calhar cara, não? Falso. A probabilidade será de 50% na mesma: estamos a falar de eventos independentes, sem ligação, ou seja, a décima-sexta vez que lançamos a moeda e a posição em que esta cai não dependem das primeiras quinze vezes.

O reconhecimento de padrões está diretamente relacionado com o medo do desconhecido: o maior medo do ser humano é a não sapiência. Quando não há explicação científica, há explicação religiosa. Quando não há explicação política, há explicação conspiratória. Quando não há explicação racional, há explicação irracional. É algo impresso no nosso ADN, já que ajudou à nossa sobrevivência, relativamente a aspetos darwinianos. Quantos “eu acho que…” são subterfúgios do “eu, de facto, não sei”? Nem me refiro à ignorância propriamente dita, mas sim aos mistérios do Universo, ainda não resolvidos pela ciência.

A perpetuação deste problema deve-se, em grande parte, à ausência do conhecimento das regras da lógica. A posição de partida, no que toca a uma preposição, é o “não acreditar”. Exemplificando, para clarificar esta mixórdia: o monstro do Lago Ness, os duendes e os elfos são criaturas pertencentes ao imaginário popular. À partida, ninguém acredita neles até à apresentação de provas concretas, factuais, evidentes e testáveis em condições controladas. Quando alguém declara que já fomos visitados por ET’s, ninguém deve acreditar até a pessoa apresentar provas que passem no escrutínio do método científico. Nós queremos respostas, mesmo que tenhamos de nos iludir com uma reposta imaginária e irrealista: tudo menos admitir que não sabemos; tudo menos mantermo-nos no escuro.

No entanto, é hora de acabarmos com a nossa natureza no que toca a este aspeto. A ciência acolhe e alimenta-se do “não sei”. Esta é a força motriz, o motor que serve de força de vontade para continuar com os avanços imparáveis da ciência. A alma do cientista quer descobrir e a vontade de descobrir só advém do desconhecido.

Concluo com uma citação do biólogo Richard Dawkins, do documentário The Root of All Evil?, que sumariza esta tese:

“Lembro-me de uma influência formativa durante a minha vida de estudante universitário em Oxford. Havia um velho professor no meu departamento que tinha defendido uma tese apaixonadamente durante uma série de anos. Um dia um investigador americano em visita à faculdade destruiu e falsificou por completo a hipótese do velho. O professor correu para a frente da plateia, apertou a mão do investigador e disse: ‘Meu querido colega, quero agradecer-lhe, pois eu estive errado durante quinze anos.’ Todos aplaudimos até esfolarmos as mãos. Esse era o ideal científico: alguém que tinha investido tudo, uma vida investida numa teoria, e estava contentíssimo de ter sido refutado, porque a verdade científica tinha dado um passo em frente.”

CRÓNICA - O medo do não sei - João Carrilho - para CORPO DO ARTIGO

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