Pedras e Sátiras

Quem não tem teto de vidro que atire a primeira pedra. Ou quem tem alguma reclamação a fazer para com a organização da sua universidade. Tanto faz. Vamos ampliar o ditado para incluir os recalques dos discriminadores, pois todos merecem uma voz. E é só um ditado. Bem como, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, o cartaz escrito “Grátis se for para atirar a um zuca que passou à frente no mestrado” colocado numa caixa com pedras era apenas uma sátira. Teve muita piada para um público alvo, mas nenhuma para aqueles que foram referidos como alvo.

Neste ano ainda, em março, estávamos todos estupefactos com o acórdão elaborado pelo juíz Neto de Moura e pelas suas justificações de base religiosa favoráveis a um homem que agrediu a esposa. Logo foi questionado que tipo de lógica e raciocínio têm estado por trás dos julgamentos feitos no judiciário. Estes, como bons alunos de Direito, elaboraram a sua defesa mais rápido do que revisaram a decisão do juíz.

Pois a dita sátira que ocorreu nesta semana na Faculdade de Direito suscita uma pergunta ainda mais importante: afinal serão éticos aqueles que se dedicam à lei? E o respeito? Espera, fica ainda antes a dúvida: será que existe bom senso no futuro do Direito? Estamos em 2019. Já vimos muitos exemplos das diversas formas que o preconceito pode assumir, para além de sabermos o que significa ter discriminação institucionalizada. Quer dizer, ao menos quem estuda as sociedades, as suas regras e instituições deveria saber, certo?

Em alguns dos jornais que falaram sobre a “piada”, a ênfase era no dizer que não passava de uma brincadeirinha do grupo Tertúlia, que faz sátiras com professores e alunos sobre diversas temáticas há mais de uma década. A caixa com as pedras (ou, como eles chamaram, “loja de souvenirs”) faz parte da campanha na época de ação eleitoral para a Associação de Estudantes da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

Indignou, obviamente, alunos (brasileiros ou não) e mesmo o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES). Mas não parece ter causado o mesmo efeito, por exemplo, na reitoria, que deve ponderar bastante sobre como puni-los. Nem naqueles que, ao noticiar os acontecimentos, reduziam constantemente o nível de absurdo daquilo que os alunos fizeram. Afinal, é apenas uma piada. Todo o mundo é um dia alvo de piada, até ser alvo de outras coisas.

Mas bem, veja lá, os coitados precisam de mostrar a sua irritação de alguma forma. Como mais poderiam protestar contra os atuais regulamentos de ingresso para mestrado? Só há uma via, é claro. Os alunos de Direito não poderiam ter escrito uma carta à reitoria, proposto um diálogo com a direção ou, sei lá, mobilizado-se em manifestação. Sátiras xenófobas são, de facto, a única maneira de exigir que as suas reclamações sejam ouvidas.

Talvez se os alunos brasileiros não tivessem reclamado, entretanto, este pedido de socorro não teria tido resposta. A direção da Faculdade de Direito apenas emitiu o seu comunicado depois de um grupo de alunos ter ido questioná-la. E, após muita insistência, cederam àqueles que montaram o stand para serem neutros. O que mais esperar de uma administração que permitiu que a insinuação e a violência preconceituosa ficassem ali intactas por uma manhã inteira, até ao meio da tarde? O processo disciplinar apenas começou, mas eu já prevejo que a punição estará próxima de palmadinhas nas costas congratulatórios.

Pode soar, para alguns, como pura falta de senso de humor. Deveria, porém, ser evidente que o que falta é mesmo olhar o mundo à sua volta. É impossível, seja quem for e independente do que faça, que nunca se tenha deparado com um grupo étnico-racial a ser discriminado. Ainda que não tenha presenciado algo do tipo, é impossível que não perceba o quão humilhante e ofensivo é. Aliás, não deveria ser ofensivo apenas para aqueles que estão a ser a “piada”. Deveria ofender todos os que se dizem defensores da democracia, da liberdade e dos direitos humanos.

Revisto por Catarina Santos

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