Opinião

Portugal é amigo das brasileiras, ou faz de conta?

Ao contrário daquilo por que ansiávamos, 2021 não veio aliviar os preconceitos do ano passado. No começo desse ano tivemos, em Portugal, um caso mortal de xenofobia ocorrido ao abrigo do SEF e, este mês, deparámo-nos com o corpo de uma mulher transsexual no areal de Matosinhos.

Não é necessário acompanhar a investigação para se saber que a probabilidade de o crime se ter dado por discriminação da identidade de género da vítima é muito grande. A comunidade LGBTQ+, apesar de atualmente ter maior apoio tanto de partidos políticos como de associações relevantes, continua a ser um dos maiores alvos de crimes bárbaros, de entre os quais assassinatos. O nicho de indivíduos que se encontra no processo de mudança de sexo chega a ser o mais discriminado. É certo que este homicídio, ocorrido após a vítima ter desaparecido na madrugada de dia 1 de Janeiro, não foge à regra, infelizmente.

No entanto, visto não me considerar capaz de abordar a nuvem preconceituosa que paira sobre o subgrupo transsexual, decido alertar para um motivo que, apesar de não ser tão grave quanto o referido, se reergueu. Angelita Correia, de 31 anos, para além de uma mulher transsexual, era uma mulher brasileira. E como mulher brasileira carrega consigo um histórico de rejeição por parte dos portugueses.

As proximidades cultural e linguística são alguns dos motivos que atraíram os brasileiros a imigrar para Portugal há uns anos. Um dos espaços mais notórios do reflexo desse movimento foram as escolas. Numa turma de vinte pessoas, cerca de cinco eram de nacionalidade brasileira ou luso-brasileira. Apesar das tamanhas parecenças entre nações, rapidamente se fizeram notar alguns preconceitos com o aumento das chegadas. 

Em âmbito escolar, as diferenças linguísticas eram criticadas e vistas como reflexo de uma inteligência inferior ou de desleixo. Inevitavelmente, habituei-me a que colegas meus vissem as suas notas escolares inferiores a outros, devido a estes erros difíceis de se contornar. O facto de, em alguns casos, a estadia dos alunos ainda ser muito recente impossibilitava uma adaptação rápida ao português de Portugal. Esta implicação no ensino tinha todos os sinais de ter raízes anteriormente criadas – descarregava-se nos mais novos que não tinham como se defender. 

Na faculdade, infelizmente, o preconceito em relação ao povo brasileiro persiste. Alunos da Faculdade de Direito de Coimbra chegaram a protestar contra os docentes, diretor incluído, relativamente a comentários xenófobos postos em prática. Era de esperar que este tipo de situações não se mantivesse com o aumento do nível de qualificação dos docentes, mas certamente que não é um fator que impeça a discriminação de entrar porta adentro. Os casos expostos são semelhantes.

No entanto, o contexto de Universidade dá-nos novas abordagens: desta vez, a discriminação não vai ao encontro da falta de adaptação do aluno ao português de Portugal – pois a maior parte dos estudantes universitários já reside no país há tempo suficiente para, inevitavelmente, se adaptarem –, mas sim ao encontro de uma discriminação de cariz sexual. Na foto de capa podemos ver um dos cartazes usados no protesto dos universitários coimbrenses, onde se lê «“Mas você é brasileira!” – Quando recusei uma investida sexual». Algo parecido acontece no segundo desabafo abaixo, em que se lê «”As alunas brasileiras precisam cuidar o comportamento, caso contrário, reforçarão o estereótipo de prostitutas, putas ou fáceis.”– “Conselho” de uma professora”».

Este cartaz testemunha a intervenção de uma mulher para outra, onde é posta a ideia de que a mulher brasileira é que deve ultrapassar estes preconceitos – como se fossem culpa sua e um dever seu contornar estas ideias retrógradas.

Fonte: vounajanela.com

Este último caso é um retrato da discriminação enraizada que existe da mulher portuguesa para com a mulher brasileira que se fez sentir com um episódio, de entre outros, iniciado em 2003.

Mais a norte do país, originou-se o movimento Mães de Bragança, que se acompanhava de uma petição com mais de uma centena de assinaturas. O objetivo destas mães, e primeiramente mulheres, era consciencializar para o aumento do número de casos de prostituição na cidade. Foi dito pelas mães que “as prostitutas brasileiras que nos últimos tempos invadiram a cidade” traziam consigo uma “onda de loucura” que lhes roubava o dinheiro que entrava em casa e os maridos que já não apareciam na mesma. 

As mulheres bragantinas parecem desconhecer os motivos da ausência dos maridos. Em alguns casos, muitos ainda não teriam saído de casa por falta de desculpas. O aumento da prostituição veio apenas refletir a falta de compaixão do homem pelo lar que já se indiciava. Apesar desta incompreensão, as Mães de Bragança expõem um problema crucial: muitas das brasileiras são um objeto de venda. Uma das formas mais comuns de uma mulher brasileira conseguir sobreviver em Portugal era através da ajuda de homens que prometiam fazer a viagem consigo e dar-lhes trabalho. Este trabalho, no entanto, não era revelado como algo ligado à prostituição. Aquando da chegada a Portugal, eram instaladas em casas de alterne e “passadas” a outros homens que pagavam o custo da viagem e ficavam com elas, na maior parte dos casos, com o propósito de as explorar.

Perante uma situação dependente, algumas brasileiras tentam mesmo assim seguir o sonho de ter um casamento europeu, levando-as, em grande número, a sofrer abusos por parte dos maridos. Uma das maiores acusações feitas a estas mulheres é o facto de, numa visão generalizada, se prostituírem ou “roubarem o marido às outras”.

Na publicação que anuncia a morte de Angelita é especificado que ela teria, de madrugada, saído de casa e avisado o marido de que iria visitar uma amiga. Nos comentários vemos que este pormenor gera uma suposição e uma normalização do crime. De entre as intervenções podemos ler comentários como: “Que anda uma gaja casada a fazer à uma da manhã na rotunda da Boavista? Estranho; devia ser prostituta. E o marido descobriu e zás.”. Este comentário, apesar de difícil de digerir e de originar revolta, deve ser analisado como o reflexo da motivação do homem na criação do preconceito sobre a mulher brasileira. Não são apenas as Mães de Bragança e as restantes mulheres portuguesas que repudiam o povo feminino do Brasil. 

Mais uma vez, estamos perante um machismo estrutural. Os homens são os primeiros a acolher a mulher brasileira nos seus braços e nas suas casas de alterne. São os primeiros a colar o olhar no corpo voluptuoso de Gabriela na novela. São os primeiros a largar a família por uma nova mulher que não esteja marcada pela vida maternal. Mas são também os primeiros a julgá-las. Por ironia, ficamos sem perceber se Portugal é amigo das brasileiras ou se faz de conta.

Através do comentário de um utilizador do Facebook cujo nome não interessa expor, podemos ver que há uma suspeita de que tenha sido o próprio marido a cometer o crime e de que o motivo teria sido, de acordo com a teoria do sujeito, a descoberta de que a própria mulher era uma prostituta. Não é caso de riso, mas não é engraçado esta discrepância entre frequentar prostitutas, mas rapidamente julgar uma quando esta já nos é alguém próximo?

Fonte: pragmatismopolitico.com.br

No início deste artigo referi que o facto de a vítima, a par de tantas outras, ser de nacionalidade brasileira era um fator relevante para os crimes. Termos no cabeçalho da notícia que denunciam que estamos perante uma vítima brasileira poderão ser um trigger para que vários homens nos comentários insinuem que esta mulher se tratava de uma prostituta, só pelo facto de estar na rua sem o marido à noite. Claro que, graças ao machismo implementado, talvez o mesmo fosse  insinuado em relação a qualquer outra mulher. Mas, dado o histórico preconceituoso perante a mulher brasileira, tudo nos indica que este tipo de comentários e de suposições estruturais poderá estar mais propício a ser sobre elas feito.

A globalização dos media e o crescente aparecimento da mulher brasileira na televisão portuguesa veio aumentar o sentimento de posse que o povo português já sentira no colonialismo. Num país onde reina a mulher conservadora, de saias longas e que canta o fado, apareceu a mulher do samba que não se inibe de se despir e de louvar a sua beleza. Creio que o machismo estrutural português tenha visto esta aparição como uma ameaça ao poder do homem.

Acontece que a mulher brasileira se emancipa sem a ajuda do homem e sem que seja a favor deste. E esse poder excita o homem, no sentido em que contribui para as suas fantasias sexuais, mas também aumenta o rancor que sente pela afronta que esta mulher representa na sua presença. Também a mulher portuguesa se emancipa, mas não chega a conter em si a sensualidade tropical que a mulher brasileira, por natureza, possui. 

Como resposta à questão por mim imposta: não creio que Portugal seja amigo das brasileiras. É amigo quando lhe convém. É amigo quando se vê numa posição dominante em relação a outro povo. É amigo quando se senta e paga para ver. É amigo quando a mulher brasileira lhe serve e corresponde aos preconceitos ligados à disponibilidade sexual. Mas não é amigo das mulheres do mundo, ainda. Receio que enquanto o machismo estrutural e os vislumbres do colonialismo assombrarem o nosso país, será difícil sermos amigos de qualquer mulher. Especialmente da mulher brasileira.



Artigo revisto por Andreia Custódio

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