7ª Arte

P´tit Quinquin: Uma sátira ao patriotismo francês

Um prado verde com arbustos e habitações ocasionais enquadram o protagonista. De nuca descoberta, evidenciando o cabelo curto e o aparelho auditivo, o rapaz observa acolá uma jovem a tocar uma canção num instrumento de sopro. Já de frente, o pequeno confunde-se com uma versão encolhida do Stalker, de Tarkovski. Estes são os três planos que iniciam a história ocorrida num aldeia em França. O pequeno Quinquin – no original, P´tit Quinquin – para além de dar nome ao rapaz de nariz tosco, é também o título da inesperada comédia de Bruno Dumont.

Ao volante de um Citroën, numa condução agressiva, o comandante Van der Weyden (Bernard Pruvost) e o seu colega, Carpienter (Phillipe Jore), vêm dar propósito às aventuras de Quinquin e dos seus amigos. Na vizinhança, uma vaca aparece caída misteriosamente num abrigo. Na autópsia descobrem pedaços humanos no interior do animal. O acontecimento abre caminho para uma sucessão de semelhantes homicídios, os quais a polícia não consegue impedir. Pestanejos intercalados por um marchar insistente e de teor cómico-peculiar espelham a atitude do comandante: parece indiferente aos crimes.

O interior da igreja da aldeia é um dos espaços que o realizador escolhe para retratar esta indiferença. Enquanto o órgão parece eternizar as missas de homenagem aos defuntos, um microfone disfuncional junta-se ao ruído, o que provoca o riso do padre e dos acólitos. A cena bizarra parece durar horas sem que a hilaridade se esgote por entre familiares destroçados. O teor cómico criado através do áudio prolonga-se em atuações que parecem desafinar. Um exemplo disso é quando Aurélie, interpretada por Lisa Hartmann, canta Cause I Knew, canção que parece agradar a todos os presentes, criando uma discrepância entre a reação dos espetadores da missa e dos espetadores do filme – facilmente se percebe que se está perante uma desafinação flagrante.

Cena em que Aurélie canta na igreja. Fonte: Youtube

A família de Quinquin – interpretado por Alane Delhaye –  depara-se com uma dualidade visível a todos. Quando o comandante de bigode curto e olhar desconfiado refere o Diabo, é difícil compreender a que suspeito estará a aludir. A família Lebleu cria cavalos, animais vistos de forma pura, que são comparados aos nus do pintor Rubens pelo comandante. O extermínio carnal que inunda a vila parece não afetar o gado da família, como se estivesse protegido por uma força maior. Enquanto os suínos e bovinos de outros aldeãos contêm pedaços das vítimas nos seus interiores, os seus cavalos parecem mansos, bem tratados e a postos para concursos. No entanto, quando Van der Weyden se encontra nas suas atribuladas viagens em busca de testemunhos, ele descobre que todas as vítimas estão ligadas à família Lebleu, tornando-a automaticamente suspeita. Esta incoerência leva-nos a crer que a identidade que paira sobre a família tanto poderá provir do Bem, como do Mal.

A única coerência garantida é a indiferença por parte dos cidadãos. O realizador mostra isso, dando exemplo de um individuo negro, uma das vítimas que morre no esquecimento das pessoas que lhe eram próximas. O mesmo desinteresse parece acontecer quando o seu filho se suicida em público enquanto o observam, sem que esbocem qualquer reação. Não é claro se a população se habituou à banalidade dos assassínios ou se sempre foi indiferente. Dumont desenvolve uma metáfora crítica que se reflete na tinta azul, branca e vermelha dos rostos que observam o sucedido. Uma França não hospitaleira que parece não se surpreender com os maus acolhimentos que faz aos estrangeiros.

Há um trabalho que recorre à comédia e vai moldando a família Lebleu a valores que não se limitam à aldeia de Quinquin. O pequeno pode funcionar como hipálage da nacionalidade francesa, isto é, uma continuidade geracional do Mal. O nome Lebleu, traduzido «O Azul», é, coincidentemente, o termo utilizado para descrever um francês fora do seu país. Juntando este facto às pinturas faciais, temos uma provável simbologia oculta.

Fonte: Ozu-teapot (Tumblr)

No último ato, o ritmo da narrativa é intensificado. O realizador mostra-se fiel à iniciativa cómica e é escolhido, estrategicamente, o caminho indesejado pelo espetador. O olhar de Quinquin promete uma ação que não se chega a realizar e a marcha do comandante remete-nos para uma estagnação nas investigações do caso. Creio que se chegássemos à vila nesse instante não daríamos pelos vestígios do passado. A inquietude apodera-se do ecrã, mas a monotonia permanece na aldeia do pequeno Quinquin.

Dumont não parece ter intenção de retratar apenas uma terra do pecado ou afetada pelo Diabo. Nem talvez queira insinuar que os sobreviventes se tratem de puros patriotas. O facto de ser, em alguns países, uma minissérie televisiva não invalida o potencial do argumento cinematográfico. Não existem intenções de se criar drama onde não existe, nem mesmo suspense desnecessário: todas as cenas são relevantes para uma harmonia intencional, sem que perca a credibilidade e o seu impacto narrativo. O Pequeno Quinquin não é uma comédia, mas é uma fita que provoca riso do descabido patriótico. E Dumont tem o seu mérito por equilibrar o retrato de uma sociedade onde parece faltar medidas.

Artigo redigido por Margarida Ramos

Artigo revisto por Maria Ponce Madeira

Fonte da imagem de destaque: Telestar.fr

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