Literatura

Sete monstros literários catapultados para a Sétima Arte

Já dizia o provérbio popular: “não julgues um livro pelo seu filme” (é assim que se diz, certo?). Ao ler as linhas de uma narrativa, é impossível que o leitor não imagine e personifique, na sua mente, cada uma das suas personagens. Adaptar uma obra literária para o grande ecrã não é, por isso, tarefa fácil, perante a exigência dos fãs que aguardam que a versão cinematográfica seja o mais fidedigna possível. É, igualmente, uma tarefa ingrata para os cineastas, já que cada um dos leitores “dá vida” de forma diferente a cada um dos intervenientes na história. Já dizia outro provérbio popular: “não se pode agradar a gregos e a troianos” (este eu sei que existe!).

A verdade é que ler um livro pode convencer o leitor a explorar a respetiva adaptação pela Sétima Arte e vice-versa. Entre grandes clássicos da Literatura e obras mais recentes, entre Portugal e o estrangeiro, trazemos algumas sugestões de livros, as quais – opiniões à parte – partilham a popularidade e, claro, a adaptação que tiveram no grande ecrã.

Cartas da Guerra, de António Lobo Antunes 

“Este é o livro do amor dos nossos pais, de onde nascemos e do qual nos orgulhamos. Nascemos de duas pessoas invulgares em tudo, que em parte vos damos a conhecer nestas cartas. O resto é nosso”. É desta forma que Maria José e Joana Lobo Antunes, filhas do autor, encerram o prefácio desta obra. Cartas da Guerra – D’este Viver Aqui Neste Papel Descripto é, na verdade, um romance epistolar. Teve origem nas palavras escritas por António Lobo Antunes (ALA) à sua mulher, enquanto jovem soldado, médico e aspirante a escritor, durante o período de dois anos (entre 1971 e 1973) em que esteve em Angola, em plena Guerra Colonial; cartas que foram compiladas e editadas pelas filhas do casal, no ano de 2005, por vontade expressa da sua progenitora.

Em 2016, o realizador português Ivo Ferreira deu voz às cartas, adaptando o livro para o cinema, numa longa-metragem onde os atores Miguel Nunes e Margarida Vila-Nova são os protagonistas. ALA chegou a dizer ao cineasta que talvez não fosse fácil encontrar um jovem tão bonito como ele era na altura, para o interpretar.  No ano seguinte, o escritor confessou que não queria ver o filme, porque se iria emocionar. E, ao que consta, também nunca quis ler o livro. Apesar disso, Maria José e Joana ficaram rendidas à adaptação, a preto e branco, de Ivo Ferreira. 

Em Parte Incerta, de Gillian Flynn

Se há quem adore a adaptação cinematográfica de 2014, realizada por David Fincher, há quem goste ainda mais do livro. O aclamado thriller da escritora norte-americana Gillian Flynn (cujo título original é Gone Girl), publicado dois anos antes de ser levado ao grande ecrã, é macabro e nefasto, prometendo não deixar ninguém indiferente.

Amy e Nick Dunne são um jovem casal, interpretado pelos atores Rosamund Pike e Ben Affleck, que enfrenta uma (nada inocente) crise no casamento. O desaparecimento da mulher encontra-se envolto em acontecimentos sinistros que colocam o marido na mira da polícia e da imprensa. No entanto, nem tudo é o que parece. A obra de Gillian Flynn esteve no topo da lista de best sellers do The New York Times e atingiu o arquétipo da popularidade quando a versão cinematográfica chegou às salas de cinema, arrepiando e surpreendendo os espetadores.

O coração de Simon contra o mundo, de Becky Albertalli

Esta obra de 2015 é protagonizada por um jovem de 16 anos que vê a sua privacidade a ser invadida, sendo forçado a enfrentar as suas emoções e a assumir quem verdadeiramente é perante a sua família e, pior, perante o mundo inteiro.

O livro inspirou o cineasta norte-americano Greg Berlanti (conhecido pelo seu trabalho em séries como Arrow e You) a realizar o filme de 2018 Com amor, Simon. A versão cinematográfica é protagonizada por Nick Robinson e conta com nomes veteranos como Josh Duhamel e Jennifer Garner. Calma! Não nos precipitemos e deixemos os preconceitos de lado; não, este não é mais um chick flick. A autora Becky Albertalli apresenta-nos uma história cativante e divertida sobre a aceitação, as relações, o poder da Internet, o bullying e, acima de tudo, a importância de nos mantermos fiéis a quem nós verdadeiramente somos, sem vergonha de o mostrarmos.

Fotografia de Inês Sousa Martins
António Lobo Antunes, o autor das “Cartas da Guerra”, nunca desejou ler a obra, nem assistir à sua adaptação ao grande ecrã.

O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos

A comovente história de Zezé, um menino de seis anos nascido no seio de uma família muito pobre, foi escrita em 1968, por um dos maiores nomes da literatura brasileira: José Mauro de Vasconcelos. Apesar do facto de ser muito traquinas e de ser, muitas vezes, castigado pelos seus pais, Zezé é uma criança sensível, inteligente e carente. Como refúgio do ambiente duro e solitário em que vive, torna-se amigo de um pé de laranja lima que passa a ser o seu maior confidente. O highlight da obra é o facto de o protagonista encontrar, ainda, o afeto e a atenção de que tanto necessitava no “Portuga”, um velho rico e solitário de quem se torna inseparável – dando início, assim, a uma ligação improvável e comovente.

O Meu Pé de Laranja Lima foi adaptado duas vezes para o cinema. A primeira versão surgiu no ano de 1970, através de Aurélio Teixeira – que, além do facto de ser o realizador, também interpretou o “Portuga”. A segunda e última adaptação, datada do ano de 2012, foi dirigida por Marcos Bernstein e José de Abreu. No entanto, o livro já vira a sua popularidade consolidada muitos anos antes, ao cativar diferentes gerações e fazendo o leitor apaixonar-se pelas suas personagens.

O Nome da Rosa, de Umberto Eco 

O intelectual italiano publicou o seu primeiro romance no ano de 1980. Il Nome della Rosa é considerado um clássico da literatura mundial, o qual foi adaptado com sucesso para o cinema, seis anos após a sua publicação, pelo realizador Jean-Jacques Annaud – embora tanto o público como a crítica tenham continuado a dar preferência à obra de Umberto Eco. 

A célebre narrativa é envolta em crime e mistério, remontando a um mosteiro italiano, no século XIV. O monge franciscano William von Baskerville – interpretado pelo ator Sean Connery, na película – é enviado para dar apoio na investigação de um homicídio, sem imaginar que, num curto espaço de tempo, surgiriam outros cadáveres de forma inusitada. A personagem criada por Eco é frequentemente comparada ao astuto Sherlock Holmes, também ele contando com o auxílio do seu próprio Watson: o jovem noviço Adso von Melk que o acompanha na aventura. Apesar de tudo, considera-se que o filme é fiel à obra literária. O Nome da Rosa combina, de forma harmoniosa e inteligente, religião, erotismo, investigação, violência e até humor. Umberto Eco provou, uma vez mais, a razão pela qual é considerado uma das maiores figuras de todos os tempos.

O Padrinho, de Mario Puzo 

O mítico Don Vito Corleone foi eternizado pela interpretação do ator norte-americano Marlon Brando, no filme homónimo de 1971, de Francis Ford Coppola. O Padrinho é considerado um dos filmes mais importantes e mais aclamados da história da Sétima Arte. No entanto, muitos desconhecem que a famosa trilogia cinematográfica teve origem no livro do autor Mario Puzo, publicado no ano de 1969. No ano seguinte, o escritor escreveu uma carta ao próprio Marlon Brando: “Dear Mr Brando, I wrote a book called THE GODFATHER which has had some success and I think you’re the only actor who can play the part Godfather”. Depois de muita relutância da produção e de um casting bem-sucedido do polémico ator, as preces de Puzo foram ouvidas.

O romance manteve-se na lista dos best sellers do New York Times por sessenta e sete semanas e tornou-se altamente popular em países como Inglaterra, França e Alemanha. Se o livro foi um sucesso, o filme ainda o foi mais. A história sobre o universo da máfia siciliana, nos anos 40, em Nova Iorque, apaixonou leitores e amantes do cinema. Mario Puzo juntou-se a Francis Coppola na elaboração do enredo da versão cinematográfica – afinal de contas, é importante tentar garantir que esta se mantenha o mais fiel possível ao livro de origem, certo?

Os Filhos da Droga, de Christiane F.

Na Alemanha, os jornalistas Kai Herrmann e Horst Rieck conheceram, em 1978, a jovem Christiane F., de quinze anos, num tribunal de Berlim, onde prestava declarações enquanto testemunha. Solicitaram-lhe uma entrevista no âmbito de uma investigação sobre os problemas da juventude e tinham previsto que a mesma tivesse uma duração de duas horas. Os Filhos da Droga acabou por surgir das gravações do testemunho de Christiane, que se prolongaram ao longo de dois meses.

Esta popular obra que conta também com declarações e textos da mãe de Christiane foi publicada com o seu consentimento, assim como o dos sobreviventes do seu grupo de amigos e respetivas famílias. Retrata a espiral de decadência do mundo das drogas e da prostituição para a qual a jovem foi arrastada, constituindo um testemunho chocante, cru, impressionante e, apesar de tudo, atual. O filme, também alemão, surgiu no ano de 1981, realizado por Ulrich Edel e protagonizado pela atriz Natja Brunckhorst. O realizador procurou manter-se fiel à história real, tendo sido aclamado de forma positiva pelo público e pela crítica. Pela sua relevância, o livro consta na lista de obras sugeridas no âmbito do Plano Nacional de Leitura.

Fotografia de Inês Sousa Martins
A adaptação cinematográfica do livro Os Filhos da Droga (em itálico), que celebra este ano o seu 30º aniversário, continua a ser bastante elogiada.

Fotografia de Capa de Inês Sousa Martins

Artigo revisto por Ana Sofia Cunha

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