Síndrome Bolsonaro: um reflexo dos novos tempos?

Atenção aos seguintes sintomas: narcisismo, ego frágil e necessidade alarmante de atenção. 1 em cada 2 são utilizadores de Twitter. Tudo indica que seja um problema hereditário e especialistas alertam para o cada vez maior risco de contágio.

Fonte: BBC News Brasil, Joedson Alves/EPA

Deputado Federal mais votado da história do Brasil no seu segundo mandato por São Paulo, polícia federal, advogado e terceiro filho de Jair Bolsonaro, atual presidente do Brasil. É esta a biografia que podemos ler no perfil do Twitter de Eduardo Bolsonaro, reveladora desde logo de um percurso profissional notável – diria até impressionante. 

Se até aqui a esperança de ver tweets com informações úteis e sérias ainda se mantinha, esta facilmente cai por terra ao fazer scroll por alguns dos tweets do deputado, naquele que parece ser o seu diário digital. Entre destilamentos de ódio às fações de esquerda, odes ao conservadorismo, à religião, ao patriotismo exacerbado, a comentários antiaborto e vastas críticas à imprensa, Eduardo Bolsonaro reserva ainda um espaço para a partilha de fake news.

No passado dia 26 de setembro, o deputado publicou uma foto manipulada para atacar Greta Thunberg, tentando associá-la à Open Society, uma rede de fundações do multimilionário George Soros, que apoia movimentos da sociedade civil por todo o Mundo, e que, segundo o texto junto à imagem, “fomenta pautas de interesse da esquerda internacional”. Na imagem manipulada, a jovem ativista aparece sentada a comer perante o olhar sôfrego de crianças negras do outro lado da janela do comboio. A imagem real foi publicada por Greta durante uma viagem de comboio à Dinamarca.

Fonte: Twitter do Eduardo Bolsonaro.

Independentemente da opinião – seja ela positiva ou negativa – em relação à construção mediática em torno da ativista Greta Thunberg, absolutamente nada justifica um ataque público, uma tentativa de humilhação, ignorando os inúmeros danos psicológicos que isso lhe possa causar. É uma questão de bom senso, de maturidade e de ética.

O que poderá ter motivado o deputado a partilhar esta imagem? Das duas uma: ou acreditou verdadeiramente na sua veracidade e decidiu partilhá-la sem fazer um fact-checking, ou, na pior das hipóteses, sabia que era uma manipulação de imagem e decidiu publicá-la deliberadamente com o intuito de partilhar uma informação falsa que serviria os seus interesses políticos. São mais de um milhão as pessoas que o seguem no Twitter. Imagine-se a velocidade de disseminação de qualquer (des)informação que partilha.

A palavra é, efetivamente, uma arma, e quem está em lugares de poder sabe exatamente como fazer um tiro certeiro. O problema é que, neste caso, o deputado acabou por dar um tiro no pé ao publicar exatamente aquilo que ele e o pai tanto criticam: as fake news. Como conhecidos admiradores de Donald Trump, inspiraram-se (entre outras coisas) nos famosos ataques à imprensa que este protagonizou, e dedicam-se agora a acusar todos os órgãos de comunicação que os criticam de serem uma ameaça: a “extrema imprensa”, controlada pelos comunistas.

É este ódio cego à esquerda que controla todas as ações de um governo no qual vale tudo em nome de uma agenda conservadora e extremista. Até mesmo difamar uma adolescente de 16 anos que não faz mais do que lutar por uma causa ambiental que afeta todos, sem exceção. Quando o ativismo ambiental é visto como uma ameaça e não como um objetivo comum, é sinal de que algo muito grave se passa. É um reflexo dos novos tempos.

Quanto ao deputado Eduardo Bolsonaro, este acabou por se justificar perante as críticas que se seguiram à publicação da imagem. Há que parabenizá-lo pela criatividade. Afinal, nem sequer era uma notícia falsa: era só um “meme”, uma simples piada, e ninguém percebeu! Somos todos uns “esquerdopatas” sem sentido de humor.

                                                                           Artigo revisto por Mariana Plácido

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