7ª Arte,  Secções

Spectre

Spectre é o segundo e último capítulo da franquia de 007, realizado por Sam Mendes. É mais relaxado e não tão bom como Skyfall, o seu antecessor, mas os dois complementam-se. O seu objetivo é comum: conseguir um equilíbrio entre o passado e o futuro de James Bond. Se Skyfall foi o ponto de viragem, Spectre é o começo de algo que pode ser espetacular.

Todos os mortos estão vivos” é o mote do filme. À primeira vista parece estar a falar do passado de Bond, mas acredito que tenha um significado mais profundo. É uma afirmação acerca dos clássicos. É uma forma de assegurar ao público que a essência de 007 não foi esquecida, que o clássico ainda está vivo, apesar de James Bond ser mais complexo.

No filme anterior, os clássicos já tinham sido revisitados com o regresso de Miss Moneypenny e a reinvenção de Q e M. Q (Ben Whishaw) é agora jovem, tem um sentido de humor apurado e é um génio no que toca a tecnologia. Moneypenny (Naomi Harris), para além de continuar a ser a única mulher capaz de resistir a James, é bastante energética e carismática. A verdadeira questão era ver o novo M.

Ninguém vai conseguir substituir a adorada Judi Dench (que aparece uma última vez neste filme) e Ralph Fiennes nem tenta, prefere criar o seu próprio M. Teve direito à sua própria narrativa e a sua performance é convincente. O discurso que faz a C (Andrew Scott) sobre a licença para matar é um dos grandes momentos do filme. Espero ver Whishaw, Harris e Fiennes a interpretar estas personagens durante muitos anos.

Há ainda a questão do passado e do futuro e de como colidem. Será que ainda precisamos de agentes secretos? Não são obsoletos face a todas as tecnologias que permitem fazer o mesmo trabalho? No final de contas, passado e futuro têm de coexistir. James Bond é o clássico que sobrevive ao teste do tempo porque se reinventa. É por isso que continua a ser relevante tanto no mundo da espionagem como no da sétima arte.

E o vilão? Franz Oberhauser (Christoph Waltz) é mais uma peça do passado de James Bond: o seu irmão adotivo que se pensava morto. Os espectadores que acompanham Bond desde os filmes mais antigos rapidamente vão perceber que também o conhecem e que também pensavam que estava morto. Como não quero revelar tudo, deixo-vos com isto: Oberhauser tem agora um novo nome e um gato branco muito particular.

O cabecilha da organização terrorista Spectre (também ele conhecida por quem conhece a franquia) inspira medo apenas por estar presente. É elegante, sofisticado e eloquente, embora igualmente cruel. Não consigo pensar num ator mais perfeito para o papel do que Waltz.

Já a personagem de Dave Bautista é o oposto de Oberhauser. Hinx é o tipo de homem que age e não fala, que escolhe a força bruta à intimidação/ameaça. Diz apenas uma palavra o filme inteiro. A sua luta contra 007 no comboio é uma cena para ver e rever. Proporciona-nos uma perseguição de carros que nos permite ver o clássico Aston Martin em todo o seu esplendor.

Léa Seydoux é Madeleine Swann, a Bond Girl. O seu papel é ser resgatada por James, embora seja a filha de um assassino e saiba defender-se perfeitamente. Contudo é capaz de conquistar o coração de Bond. Já Monica Bellucci aparece e desaparece num abrir e fechar de olhos, mas conseguiu deixar-me intrigada acerca da sua personagem, Lucia Sciarra.

O Bond de Craig revisita o seu passado desde Casino Royale até Skyfall e há um certo tom de despedida. Não sei se isto acontece por ser o último filme de Mendes ou porque há a possibilidade de ser o último filme de Craig. Ainda não é certo se este vai continuar a vestir o fato e a conduzir o Aston Martin.

Eu gostava de que Daniel Craig continuasse. Ele desafiou o conceito de James Bond: não é moreno, é o mais baixo de todos os 007 e tem complexidade emocional. Este 007 não é apenas um agente, é humano; e no fim do dia o que ele faz afeta-o profundamente não só a nível físico como psicológico. Daniel Craig foi e é capaz de o fazer de forma praticamente perfeita.

Resumindo, Spectre é a reinvenção dos clássicos e a consumação de um Bond realista. É a conclusão do que Skyfall começou e o início de uma nova era. Todos os mortos estão vivos, os clássicos estão vivos! O James Bond do passado trabalha com o James Bond do futuro e toda uma franquia ganha nova vida. Que essa vida seja longa!

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