7ª Arte

Uma estonteante viagem pela Sétima Arte italiana

Fonte: Medium.com

O cinema é indissociável da cultura italiana. Se a chamada “Sétima Arte” é desta forma conhecida foi porque um italiano assim o quis. Esta denominação surgiu pela mão de Ricciotto Canudo, no ano de 1923. Coincidência ou não, a Sétima Arte italiana é uma das mais admiradas e mais prestigiadas do mundo inteiro.

Os italianos são ferozes e habilidosos mestres em muitos domínios. O cinema, onde foram grandes pioneiros, é definitivamente um deles. Um dos seus maiores legados é a Olimpo da Sétima Arte italiana: Cinecittà. Fundada em 1937 na periferia oriental de Roma, constitui o maior complexo de estúdios cinematográficos na Europa e foi, outrora, o mais provável rival de Hollywood.

Foram produzidos mais de três mil filmes em Cinecittà, tendo sido um deles La Dolce Vita, o primeiro desta lista de clássicos do cinema italiano que vos apresentamos, viajando por várias décadas e por vários géneros cinematográficos.

Década de 60: La Dolce Vita

Fonte: Youtube

1960 | 2h 54m | Drama | Realizado por Federico Fellini

Seria pecado não o incluir nesta listagem. Mesmo que nunca tenhamos visto o filme, é impossível não associar este título à icónica cena em que o protagonista Marcello (interpretado por Marcello Mastroianni) segue a personagem Sylvia (interpretada pela atriz sueca Anita Ekberg) que entrara, sem pudor, numa Fontana di Trevi completamente vazia, a meio da madrugada.

No entanto, La Dolce Vita não se circunscreve a esta sedutora cena. A longa-metragem remete-nos para a cidade de Roma durante a década de 60 e conta-nos a história de um repórter “social” (podemos antes chamá-lo de “cor-de-rosa”?) que vive entre celebridades, gente rica e paparazzi. Marcello conhece e seduz mulheres bonitas, convive com famílias da classe alta – onde se integra de forma bastante confortável e aparentemente natural -, frequenta os locais mais populares da capital italiana e tem acesso praticamente exclusivo a todo o lado, graças à sua profissão e às suas companhias.

Todavia, nada disto o preenche. O protagonista é marcado, no decorrer do filme, por um vazio existencial, enquanto tenta procurar um novo sentido para a sua vida – que, afinal de contas, pode não ser assim tão doce.

O realizador presenteia-nos com cerca de três horas de filme, a preto e branco, com cenas sem um aparente fio condutor, mas que se complementam na perfeição e que nos chegam carregadas de simbolismo. La Dolce Vita é arrojado, excitante e intemporal, além de arriscado para a época. Este ex-libris do cinema italiano foi obra do cineasta que estava para a Cinecittà como o Papa está para o Vaticano: Federico Fellini, ovviamente. Chi altro?

Década de 70: Suspiria

Fonte: Youtube

1977 | 1h 39min | Terror | Realizado por Dario Argento

Suspiria faz-nos suster a respiração. É-nos contada a história da bailarina americana Suzy Bannion (interpretada pela atriz Jessica Harper) que consegue uma bolsa para estudar numa das mais conceituadas escolas de dança europeias. No entanto, quando chega, em vez de desfrutar do sonho que concretizou, depara-se com um pesadelo que se materializa em várias mortes macabras e fenómenos aparentemente inexplicáveis.

Este filme, o primeiro e o mais bem sucedido de uma trilogia concebida pelo cineasta Dario Argento, é dominado pelas cores saturadas e pelos jogos de luzes que contribuem para aprofundar a estética bizarra e perturbável com que o espectador se depara. Suspiria é uma obra de arte cinematográfica, onde assistimos, no auge do suspense de fazer roer as unhas, a uma orgia de cor e de som. No ano de 2018, foi produzido um remake desta longa-metragem, mas não há nada como um bom clássico, certo?

Década de 80: Nuovo Cinema Paradiso

Fonte: Youtube

1988 | 2h 35m | Drama | Realizado por Giuseppe Tornatore

Penso em Cinema Paradiso e só me apetece suspirar ou não fosse esta uma obra que marcou a história do cinema – para além de ser um dos filmes italianos mais amados e (re)conhecidos por todo o mundo. Vencedor de um Óscar e de um Globo de Ouro na categoria de melhor filme de língua estrangeira, Nuovo Cinema Paradiso transporta-nos no tempo até aos anos 50, à infância de Salvatore Di Vitta (cuja alcunha é “Totò”), um famoso cineasta que regressa, pela primeira vez em trinta anos, à sua aldeia natal, na Sicília, depois de receber a inesperada notícia da morte de um amigo.

Esse querido amigo de infância é Alfredo (interpretado pelo ator francês Philippe Noiret), o velho projecionista do Cinema Paradiso, que, depois de muita insistência por parte de Totò (que, em criança, é interpretado por Salvatore Cascio), acaba por lhe ensinar tudo sobre a arte da projeção. Os dois criam uma ligação profunda e especial que perdura até à idade adulta de Salvatore que, entretanto, se muda para Roma em busca do sonho de se tornar realizador de cinema. Parte e nunca mais regressa a casa, nem para rever o amigo. E é o próprio Alfredo quem lho ordena.

Nuovo Cinema Paradiso, para além de ser um filme que celebra a própria Sétima Arte ao mostrar-nos todas as emoções que o cinema desperta nas pessoas, é uma ode à amizade, ao amor, à saudade, à vida – e também à música, através do génio de Ennio Morricone, compositor e maestro italiano falecido em julho deste ano. Para ver e rever.

Década de 90: La Vita è Bella

1997 | 1h 56m | Comédia, Drama | Realizado por Roberto Benigni

À semelhança daquilo que acontece em Nuovo Cinema Paradiso, aqui também sorrimos entre as lágrimas. La Vita è Bella é uma homenagem à liberdade, à esperança e ao amor condicional.

Em 1938, a felicidade do simpático judeu Guido (interpretado pelo próprio realizador Roberto Benigni) e da sua família é interrompida quando todos são detidos pelas tropas alemãs e, posteriormente, enviados para um campo de concentração. A partir daí, testemunhamos a luta e o sacrifício constantes de Guido para tentar que o filho não se aperceba nunca da humilhação, da repressão e da violência repercutidos naquele lugar, ao procurar esconder toda a realidade, de forma altamente engenhosa e meticulosa.

Com um final agridoce, La Vita è Bella não é um filme sobre o Holocausto, ao contrário do que muita gente poderá pensar. É um filme sobre amor e que surgiu numa época em que muitos consideravam que a supremacia cinematográfica italiana se encontrava já em estado de decadência.

Roberto Benigni recebeu o Óscar de melhor filme estrangeiro com La Vita è Bella, no ano de 1999, protagonizando aquele que é considerado um dos momentos mais épicos de sempre da cerimónia da Academia. Quando a também atriz italiana Sophia Loren anunciou que o filme havia sido o vencedor daquela categoria, Benigni entrou em êxtase (e a audiência também): andou por cima de cadeiras, esbracejou e quando, finalmente, chegou ao palco, atrapalhou-se no inglês devido ao entusiasmo. Pouco depois, na mesma noite, venceu o Óscar de melhor ator, onde concorria contra os “monstros” Tom Hanks e Ian McKellen.

Século XXI: Benvenuti al Sud

2010 | 1h 42min | Comédia | Realizado por Luca Miniero

A pontuação de 6,5 no IMDb não lhe faz justiça. Benvenuti al Sud é um remake de um filme francês (Bienvenue chez les Ch’Tis) que evidencia os preconceitos e as rivalidades existentes entre o Norte e o Sul de Itália.

Alberto (protagonizado por Claudio Bisio) é diretor de uma estação de correios em Brianza, no Norte do país. Para satisfazer a mulher, pede transferência para Milão, ao fingir ser portador de uma deficiência física. Depois de ser apanhado a mentir, Alberto é castigado e transferido para uma pequena cidade a sul de Nápoles, durante aquele que seria um doloroso período de dois anos.

Apesar da relutância inicial, provocada pelos seus inúmeros estereótipos e preconceitos, a personagem principal acaba por perceber que, afinal – e para sua própria surpresa -, aquele é bem capaz de ser o sítio ideal para viver e ser feliz.

Este enredo faz-nos chegar grandes lições de vida através do humor. Para encerrar esta lista, poderíamos ter escolhido outra longa-metragem da primeira ou da segunda década do século XXI. Benvenuti al Sud não costuma ser integrado no pódio das grandes obras cinematográficas italianas, onde reinam enredos complexos e espetáculos visuais e sonoros  soberbos. Apesar disso, continua a ser um filme inesquecível e um merecidíssimo integrante desta listagem.

A 13ª Festa do Cinema Italiano está finalmente de regresso, depois de ter sido cancelada em abril, por causa da pandemia. Durante todo o mês de novembro, alguns dos maiores sucessos de bilheteira em Itália serão exibidos em várias salas de cinema, de norte a sul do nosso país, incluindo nos Açores. Este ano, além da qualidade cinematográfica a que nos tem habituado, a programação (que já se encontra disponível on-line) contará ainda com uma homenagem especial ao mestre Fellini. 

O festival arranca já no próximo dia 4 de novembro, quarta-feira, com a sessão de abertura a ter lugar no mítico Cinema São Jorge, em Lisboa, com o filme Pinocchio, de Matteo Garrone – contando com Roberto Benigni no papel de Geppetto, depois de ele próprio ter interpretado o famoso boneco de madeira que quer ser criança numa malsucedida versão cinematográfica por ele realizada, em 2002.  

E também isto faz parte da magia do cinema. 

Buon viaggio!

Artigo redigido por Inês Sousa Martins

Artigo corrigido por Adriana Alves

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