Literatura

A Arte Subtil de Saber Dizer Que Se F*da à pandemia

Quantas vezes, durante as diferentes etapas de confinamento pelas quais já passámos desde março de 2020, fomos espreitar a nossa prateleira dos livros (não estou nem sequer a perguntar quantos é que, efetivamente, lemos, pois isso daria assunto para outro artigo)? Eu já o fiz várias vezes. Da última vez, houve um livro em especial que prendeu a minha atenção: A Arte Subtil de Saber Dizer Que Se F*da, do autor norte-americano Mark Manson.

Apesar de já o ter ‘devorado’ em 2018, ano em que a tradução portuguesa foi publicada através da chancela Desassossego do grupo editorial Saída de Emergência (a obra original fora publicada dois anos antes), não pude deixar de pensar neste título que já vira (e lera) antes. Confesso que os livros de desenvolvimento pessoal não ocupam grande espaço na minha biblioteca (bem, para dizer a verdade, este é o único que tenho), mas A Arte Subtil de Saber Dizer Que Se F*da faz um dedo do meio a esse género de Literatura. Segundo o próprio autor, é o “livro de autoajuda para as pessoas que detestam livros de autoajuda”.

Dei por mim a criar analogias entre as palavras de Mark Manson neste livro e a situação pandémica que vivemos atualmente. Tenha sido este um delírio causado pela pandemia ou não, e apesar de este livro ser, por vezes, hiperbólico (e também ele delirante), também todos nós deveríamos aprender a arte subtil de saber dizer que se f*da a esta situação – o que não é sinónimo de despreocupação, de todo. Aliás, o próprio autor explica-nos que “estar a borrifar-se não significa que seja indiferente; significa que se sente confortável em ser indiferente”. Na contracapa é-nos dito que “(…) Manson mostra-nos que o caminho para melhorar a nossa vida requer aprender a lidar com a adversidade. Aconselha-nos a conhecer os nossos limites e a aceitá-los, pois no momento em que reconhecemos os nossos receios, falhas e incertezas, podemos começar a enfrentar as verdades dolorosas e a focar-nos no que realmente importa”.

Durante o último ano, muitos leitores aproveitaram a quarentena para colocar a leitura em dia. Os livros tornaram-se, mais que nunca, um escape da vida real. No entanto, a Literatura não serve apenas para lermos realidades diferentes da nossa. Neste caso, o autor rompe com a fantasia cor de rosa da maioria dos livros de autoajuda, revelando-se cru, provocador e bastante invulgar – isso é imediatamente notório pelo título.

Curiosamente, Manson diz-nos acreditar que “hoje em dia enfrentamos uma séria epidemia psicológica, devido à qual as pessoas já não percebem que não faz mal, de vez em quando, as coisas serem uma treta”. O autor acrescenta que o livro transformará a nossa dor numa ferramenta, o trauma em poder e os problemas em problemas ligeiramente melhores. Em suma, pretende que reorganizemos as nossas prioridades e que saibamos fazer distinção entre as coisas às quais devemos dar importância e as coisas às quais devemos saber dizer… Bem, adivinharam: “que se f*da”.

Este livro dá-nos a conhecer aquilo a que o autor chama “valores merd*sos” (a censura foi minha, não de Manson): o prazer, o sucesso material, o “ter sempre razão” e o “manter-se positivo”. O prazer é um “falso deus”, pois a procura incessante pelo mesmo é perigosa e não é, de todo, a causa da felicidade, mas antes o seu efeito: “se as outras coisas estiverem bem (…), então o prazer ocorrerá normalmente como um efeito secundário”. Por sua vez, quem rege a sua vida pelo valor do sucesso material corre o risco de negligenciar valores como “a honestidade, a não-violência e a compaixão”. O autor explica que “quando as pessoas se medem não pelo seu comportamento, mas pelos símbolos de status que podem acumular, não são apenas superficiais mas, provavelmente, completos cretinos”.

Atrevo-me a dizer que os “valores merd*sos” mais associados à pandemia são o “ter sempre razão” e o “manter-se positivo”. O primeiro remete imediatamente, claro, para os ‘chicos espertos’ que baseiam o seu valor em terem (ou tentarem ter) razão em tudo – nomeadamente, no que diz respeito à Covid-19 –, pois não aprendem com os seus erros, não aceitam novas perspetivas e, mais do que isso, não empatizam com os outros: “fecham-se a informações novas e importantes. É muito mais útil assumir a ignorância e que há muita coisa que não se sabe. Isto mantém-nos a salvo de crenças supersticiosas ou pouco informadas e promove um estado constante de aprendizagem e crescimento”. Onde é que já vimos isto, certo? Em tempos de pandemia, todos se julgam cientistas ou médicos. Mark Manson disse ainda, no Twitter, em abril do ano passado: “Se há uma coisa que sabemos com certeza sobre essa pandemia é que não sabemos quase nada com certeza sobre ela”.

Este livro encontra-se a cumprir todas as regras do confinamento.
Fotografia de Inês Sousa Martins

O último valor, o “manter-se positivo”, corresponde aos indivíduos que negam e evitam as emoções negativas. Isso é perigoso, muito perigoso. Manson explica que há que aceitar que, às vezes, a vida é mesmo uma treta e que o melhor (e mais saudável) a fazer é admiti-lo. Além disso, “negar as emoções negativas leva a experienciar emoções negativas cada vez mais profundas e prolongadas e à disfunção emocional”. Não existe problema absolutamente nenhum em ter pensamentos menos positivos durante a pandemia. O autor continua, afirmando que os “problemas acrescentam sentido e importância à nossa vida” e que, ao negarmos a sua existência, teríamos uma vida sem grande propósito. Por exemplo: ainda que, de momento, nos encontremos privados de fazer as coisas de que mais gostamos (viajar, estar com a família e amigos, ir ao cinema, o que seja), isso apenas fará com que, assim que pudermos voltar a fazê-las, as aproveitemos ainda mais. Caramba, ainda dizem que este não  é um livro de autoajuda!

A verdade é que, como Mark Manson constata, “a sociedade está contaminada por grandes doses de treta e de expectativas ilusórias em relação a nós próprios e ao mundo”. Dizíamos nós que iríamos sair melhores de tudo isto. As pessoas que já eram más tornaram-se péssimas. Em dezembro de 2020, num artigo no seu blog, o autor escrevia que “uma crise não muda as pessoas; amplifica quem elas já são”. Touchè.

O leitor é alertado, ao longo da obra, para a urgência da priorização de valores e de situações que devemos ter na nossa vida. Esta pandemia veio deitar tudo por água abaixo, deixando a maioria dos nossos projetos pessoais e profissionais em standy-by. A vida deu uma volta de cento e oitenta graus e aquilo que antes era prioritário para nós, agora já poderá não o ser – o que não é, de todo, mau. Existe a esperança de que a pandemia nos tenha ensinado (ainda que, para alguns, de forma temporária) a reorganizar os nossos valores e as nossas prioridades. Num momento tudo está bem e em seguida já não está – é essa a mensagem que A Arte Subtil de Saber Dizer Que Se F*da também nos tenta passar. Conseguimos aprender a passar sem coisas sem as quais antes pensávamos não saber viver. No final de contas, será que eram realmente assim tão importantes?

Por último, há quem ache que “tem o direito”. Isto é, os narcisistas e os egoístas que pensam que o mundo gira à sua volta, tanto para o bem, como para o mal. Manson atira que “se temos um problema, o mais provável é que milhões de outras pessoas o tenham tido no passado, e venham a tê-lo no futuro”. É ilusório afirmar que, neste momento de pandemia, nos encontramos todos no mesmo barco. Antes pelo contrário: encontramo-nos todos a remar contra a mesma maré, mas alguns estão em iates de luxo, uns em barcos à vela e outros mesmo em minúsculas jangadas. Embora o autor considere que estamos no melhor momento da História para se viver, devido aos benefícios fantásticos da Internet e das redes sociais, também crê que “essas tecnologias produzem efeitos sociais secundários indesejados”. Talvez esta liberdade na Web 2.0 tenha dado, simultaneamente, às pessoas a sensação de que “têm o direito”. Ainda para mais agora, em confinamento, onde ocupamos a maior parte do nosso tempo nestas plataformas digitais.

A Arte Subtil de Saber Dizer Que Se F*da é um livro que toda a gente deveria ler, pelo menos uma vez na vida. Quem já o leu poderá relê-lo durante esta fase de pandemia. Mark Manson lançou, no ano de 2019, Está Tudo F*dido e mantém-se ativo no seu blog, onde vai partilhando artigos de autoajuda da sua autoria e vai procurando quebrar o estigma de vários assuntos relacionados com o autoconhecimento e com a saúde mental. Esperemos que, brevemente, seja lançado um livro pós-pandemia com todas as aprendizagens (ou falta delas) trazidas pela mesma. Preferencialmente, com um título igualmente genial.

A Literatura não é estanque; também ela se transforma consoante os olhos que a leem – dependendo do estado de espírito do leitor, da sua idade e maturidade, do ambiente em que está inserido e do momento em que se encontra na sua vida. Um livro nunca é o mesmo livro sempre; a sua magia passa por essa versatilidade.

Fotografia de capa de Inês Sousa Martins

Artigo revisto por Miguel Bravo Morais 

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Uma pessoa de muitas paixões. Por isso, licenciou-se em Informação Turística, está a terminar o Mestrado em Jornalismo e quer tirar Doutoramento em História Contemporânea. A ideia de ter uma só carreira durante a vida toda aborrece-a. A Inês gosta de escrever, de concertos, dos The Beatles, de Itália, de conduzir e dos seus cães. Sonha em visitar, pelo menos uma vez, todos os países do mundo.

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