Opinião

A esquerda castrada

A esquerda castrada - joão carrilho

O volta-face nas recentes eleições britânicas pareceu improviso teatral. Após meses de sondagens, estudos e estatísticas a apontar para um claríssimo empate técnico entre Trabalhistas e Conservadores o resultado foi, no mínimo, surpreendente. Uma corrida que seria um roer de unhas até à última tornou-se numa arrebatadora vitória para o atual governo de David Cameron. De tal forma estava a ideia de um impasse eleitoral difundida por todo o espetro mediático, que, em várias estações televisivas, estrangeiras ou nacionais, podia ouvir-se que a única certeza nestas legislativas era a de que uma maioria absoluta seria absolutamente impossível. Teria, então, de existir uma coligação partidária de forma a termos uma base governativa minimamente sólida. Pois bem, não só a eleição esteve a léguas de uma recontagem (estilo Bush vs. Gore, em 2000), como ainda os Tories obtiveram a maioria absoluta sem terem de recorrer a qualquer ajuda extrapartidária. O que terá acontecido à esquerda nestas eleições, então? Será que, tal como parafraseia Paulo Portas, as sondagens são quase matemática conspiratória? Será o nevoeiro londrino culpado de fazer com que os britânicos se tenham perdido a caminho das urnas? Nada disto, na minha opinião.

Foquemo-nos não nas especificidades matemáticas, mas sim nos motivos ideológicos do desinteresse populacional. É claro como água: os Trabalhistas perderam, porque são um partido cobarde. A esquerda cada vez mais centraliza medrosamente as suas posições económicas (e às vezes até as sociais), ao ponto de se ter praticamente autoextinto. Os Labour andam sempre com medo de pisar a mínima poça que seja, temendo serem categorizados como “vermelhos”. É aquela analogia cinematográfica, algo cliché, do pai que quer entrar no quarto do filho sem o acordar: caminha, pé ante pé, temendo pisar qualquer brinquedo guinchante. Esta esquerda está obcecada com o compromisso; é um fruto da árvore democrática americana. Os Republicanos legislam as suas reformas absurdas com um bonito tapete vermelho desenrolado pelos Democratas. Agora só há direita e centro, pelo menos no mainstream político. O Partido Nacional Escocês é agora o que o partido Trabalhista foi no passado. A franja partidária é, mais que nunca, para bem ou para mal, a verdadeira representação dos alicerces esquerdistas.

A colossal abstenção justifica-se, pelo menos parcialmente, com uma apatia jovial: se forem um votante consciente e progressista, que quer uma esquerda sólida, capaz de agir com coragem, (aquele estilo ideológico a que os nórdicos chamam de verdadeira social democracia), não há nenhum quadradinho no boletim que vos leve a escolher de forma não anedótica. “Pelo menos X é melhor do que os Conservadores”, é algo devastadoramente antidemocrático. Entre o candidato de direita a sério e o candidato de direita a fingir, os Tories votam no primeiro, e ninguém vota no segundo. Miliband, líder (neste momento, já ex-líder) dos Trabalhistas é uma figura baunilha: o supre sumo do desinteressante, alguém com o carisma de uma peça de mobiliário do IKEA. Um homem de esquerda que glorifica a Margaret Thatcher, aquando da sua morte, e que vai, inclusive, dar simpáticas “hidromassagens” a Netanyahu, líder carniceiro de Israel, não merece o respeito dessa ala ideológica. Como se já não bastasse, Miliband é também o campeão das gaffes.

Quando concorre um candidato de esquerda progressista, de esquerda verdadeira, a afluência às urnas é esmagadora. Reparem no fenómeno Obama em 2008 e na imagem (falsa, diga-se) de mudança que este criou e atentem na correlação entre este episódio e o grau de fervor dos jovens; o choro que correu naquela noite de novembro. Nessas presidenciais americanas todos os blocos demográficos (homens latinos, mulheres latinas, mulheres brancas, homens negros etc.. etc.. etc…) votaram maioritariamente nos Democratas. Todos, menos um: a exceção foi, naturalmente, os caucasianos masculinos de meia-idade, nomeadamente os pertencentes a classes económicas superiores que querem ver ainda mais cortes nos impostos a serem-lhes fornecidos numa bandeja republicana.

Rezo a Darwin para que a esquerda dominante, tanto no Reino Unido, como na América, e, inclusive, em Portugal com o Partido Socialista, ganhe a coragem para parar de tentar apelar à direita maleável e ao menor denominador comum, e para que honre os princípios de mudança que são alicerce da sua génese revolucionária.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *