Opinião

A influência dos influencers (ou a falta dela)

Confesso que não sei o que é pior: pessoas que se autointitulam como influencers ou aquelas que utilizam esta palavra a torto e a direito. Já dizia a Filomena Cautela que a única coisa que se sentia influenciada a fazer era uma laqueação de trompas.

São criadas tendências em redes sociais como o Instagram, o YouTube, o Facebook ou o Twitter. Geram-se fenómenos de popularidade e as marcas tornam-se virais através dos so-called influenciadores, ao colocar o foco em pessoas que podem vir a ter influência sobre potenciais compradores, os quais, por sua vez, pertencem à sua lista de followers – que nem efeito de Flautista de Hamelin.

File:Pied Piper2.jpg - Wikipedia
Autora da imagem: Kate Greenaway

Um arrepio percorre-me a espinha quando reparo que, para muitas pessoas, o conceito e até a profissão de influenciador/a se tenham legitimado e até banalizado. Este não é um desabafo que procura menosprezar todos os influenciadores. Não tiro, de todo, o mérito à criatividade, envolvimento e esforço por parte dos ditos influencers, os quais podem possuir estratégias para saber como atrair mais seguidores, quais os melhores momentos para fazer publicações e de que forma podem criar tal engagement em relação ao seu público-alvo, do qual tanto se fala por estas bandas dos influenciadores digitais. Também esse pode ser um talento.

Berger & Wyse on influencers – cartoon
Autores da imagem: Joe Berger and Pascal Wyse para The Guardian

Compreendo ainda que a era digital tenha aberto as portas a uma panóplia de novas profissões e de possibilidades de negócio na área do Marketing Digital e que, mais que isso, as redes sociais tenham impacto, quase de forma inevitável, no modo de viver do século XXI. É a forma banal como a palavra influencer é hoje atribuída que me faz confusão. Depois, o que pode influenciar uns pode não exercer o mesmo efeito (chamemos-lhe poder) sobre os outros. Até que ponto, ao autoproclamarmo-nos um ou uma influencer, podemos ter a certeza de que influenciamos alguém? E influencia-se a fazer o quê, especificamente? A comprar uma marca? A tornarmo-nos capitalistas? A lutar por uma causa social? A darmos uso à nossa voz? A irmos votar nas eleições?

O fenómeno dos influenciadores é mais atual do que nunca e já tem sido objeto de estudo em vários trabalhos académicos e artigos, não só em Portugal, mas por aí fora. Todavia, não creio que este seja um conceito contemporâneo, nascido das entranhas da Web 2.0: os grandes filósofos, artistas e estadistas não foram, desde sempre, grandes influenciadores?

Esta influência e esta proximidade (pelo menos, nos casos em que esses dois fatores existem mesmo) que permitem cultivar um sentimento de identificação e de confiança entre produtor de conteúdo e o consumidor pode tender a roçar a futilidade e a superficialidade. Massificam-se os gostos e os consumos. Olhemos para os números de seguidores e de likes de jovens ativistas com reconhecimento internacional, como Greta Thunberg e Malala Yousafzai, e façamos uma comparação com os números exorbitantes na Internet de algumas personalidades – ups, desculpem, influencers – em Portugal (pois é, não precisamos de ir até outros sítios do globo). A discrepância é notável.

Wannabe Influencer Marketing cartoon | Marketoonist | Tom Fishburne
Fonte da imagem: marketoonist.com

Do que é que se trata, realmente, ser influencer? Será que passa pela publicação de um vídeo no YouTube a humilhar publicamente a namorada com quem acabamos de terminar uma relação? Ou por filmar um vlog a fazer uma tournée pela nossa vivenda de luxo, aliciando e fazendo pirraça aos mais jovens (crianças, até), fazendo-os acreditar que, se enveredarem pela mesma carreira no digital, poderão ter tudo aquilo e muito mais? Tudo está, literalmente, à distância de um clique – incluindo a receita que é gerada e que entra para a conta bancária. Não nos podemos esquecer de que estas publicações não são feitas de forma gratuita e desinteressada. Afinal de contas, ser influencer não se trata de uma profissão como as outras?

A verdade é que é mais fácil assumir ou atribuir o rótulo de influenciador e de, quiçá, role model do que assumir o compromisso e a responsabilidade que isso acarreta – e isso aplica-se tanto para o bem, como para o mal.

Cuidado com as más influências.

Fonte da fotografia de destaque: lurn.com

Artigo revisto por Miguel Bravo Morais

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