• Literatura

    Alerta CM! Descoberta a cura para o coronavírus: ler

    Pensei em retirar o verbo com que termina o título desta crónica, mas achei que a menção ao CM já cumpre suficientemente os propósitos de mau jornalismo propositado.                Podemos começar por aqui. Esta estação televisiva tem tido, com a propagação da COVID-19 (que, por razões que desconheço, é uma menina), terreno fértil para o sensacionalismo com que nos brinda desde a sua fundação. Se já era o canal mais visto pelos portugueses, na semana passada bateu mesmo o seu recorde de audiências. Com o confinamento às habitações, a televisão tem recuperado terreno e importância. Ora, o problema é o monotema que ocupa praticamente toda a programação. O medo de…

  • Opinião

    Dicionário web-summitês-português

                A páginas tantas do Livro de Desassossego, Fernando Pessoa – ou Bernardo Soares, como preferirem – escreve, a respeito a língua portuguesa, a afirmação que se segue:             “Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a página mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia…

  • Opinião

    Tenho ‘Insta’, logo existo

    Em 1637, René Descartes escrevia, na quarta versão do seu Discurso sobre o Método, uma das frases mais emblemáticas e vilmente apropriadas da história da filosofia: “cogito, ergo sum”. Isto é, em português, “penso, logo sou”, e não, como erroneamente se convencionou, inclusivamente nos manuais de filosofia do ensino secundário, “penso, logo existo”. O filósofo francês procurava estabelecer todo o conhecimento a partir de bases sólidas e seguras, precisando, para tal, de um ponto de partida. Assim, negou todo o conhecimento fundado a partir dos sentidos, dos sonhos e, inclusivamente, das fórmulas matemáticas – contestando a arbitrariedade destas últimas. Para Descartes, rejeitar todas as crenças antigas e todas as impressões…

  • Literatura

    A nova sociedade definida pelo novo cansaço

    O livro é de 2010, mas poderia perfeitamente ser de 2020. A Sociedade do Cansaço de Byung-Chul Han é uma obra de leitura obrigatória para quem quer compreender a contemporaneidade e o quão diferente ela é do século passado. Não espere o leitor uma história ficcionada, com personagens, enredo e um final feliz. Falamos de filosofia contemporânea e da realidade como ela fatalmente é – ainda que haja espaço para referências literárias como Herman Melville, autor de Moby Dick.                 Han começa por expor a sua teoria sobre a sociedade do século XXI: do ponto de vista imunológico, já não padecemos maioritariamente de doenças virais, como o sarampo ou a…

  • Literatura

    Não, Orwell não é profeta

    Desde que as redes sociais explodiram como o maior veículo de comunicação do planeta, são muito frequentes as analogias entre a sociedade atual e o livro Nineteen Eighty-Four, do britânico George Orwell. Afinal de contas, o fim da privacidade humana coincide com o início da era da internet. O Big Brother, enquanto conceito abstrato, é efetivamente uma realidade: a internet é um buraco negro de informação, onde tudo o que lá vai parar, por lá permanece ad eternum. No entanto, logo no conceito orwelliano de Big Brother residem grandes diferenças face ao que o senso comum pseudointelectual veicula: o Big Brother de Nineteen Eighty-Four é uma entidade fictícia e mística.…

  • Opinião

    Aforismo 125

    Um dia, numa faculdade de belas-letras fora do espaço e do tempo, apareceu, em plena manhã, um homem louco, doente, a correr pelos jardins da dita, e pôs-se a gritar incessantemente: “Procuro a especialização! Procuro a especialização!”. E, como lá se encontravam muitos que não criam na especialização, o homem despertou uma grande gargalhada geral. Estaria ele perdido? Como e porque tinha ido ali parar?”, especulavam os estudantes entre si, rindo. “De onde vens?”, perguntaram ao homem. “Venho da faculdade de economia. Estou aqui para um workshop de public speaking.” E, apressado e visivelmente alterado, o homem louco lançou-se para o meio deles e trespassou-os com o seu olhar. “Para…

  • Literatura

    Do medo

    Andamos permanentemente enganados em relação ao conceito, por ocasiões faustiano por outras só doentio, de ambicionar o sucesso sublime da realização pessoal. A esse conceito podemos chamar, de forma mais simplista, querer ser Deus, ou até vencer Deus. Por outro lado, tantos que andamos apenas a desistir, a adiar, a achar que não servimos para nada nem para ninguém. Tantos que, temporariamente ou de forma perene, desistimos simplesmente da mínima condição de ser. E é tudo apenas medo. Queremos ser grandes por medo de falhar e por, na verdade, sentirmos necessidade de nos sentir superiores, porque não nos achamos tão bons assim. Remetemo-nos à auto-insignificância porque já sabemos que vamos…