7ª Arte

DocLisboa: Cinema no feminino em tempos de pandemia

Até ao momento da concretização deste artigo não me tinha ocorrido nenhuma ideia inovadora e tinha acabado de comprar um bilhete por impulso, portanto, no início do mês de Dezembro, decidi assistir à última sessão do DocLisboa. Abordar a ambiência de uma sala de cinema em contexto de confinamento pareceu-me ser uma boa escapatória. Agora não me orgulho desta tomada de decisão tão óbvia. Poderia ter visto algum filme mais recente da Netflix e estampar como imagem de capa uma cara conhecida. Em vez disso, opto por destacar um festival de cinema que fará muitos olhos revirar por falta de interesse, infelizmente.

Eis que, nesse dia, após uma aula online, corri para a cadeia de fast-food mais próxima do cinema Ideal, de forma a não perder a sessão pouco depois do jantar. Com boa parte da tote bag recheada de Subway, estava pronta para entrar naquele tipo de espaço em que sabemos que não convém falar, tossir ou ter cheiro.

Entretanto, recebi o papel da pessoa mais nova daquela sala a interpretar o que, no contexto em que vivemos, simbolizaria a pessoa com menos risco em ali se infetar. Agora que penso nisso, os sujeitos que corriam mais perigo eram um casal de seniores, aposentados, do meu lado direito, numa fila da retaguarda. Ao sentar-me de caderno à mão, pronta para anotar tudo o que pudesse ser importante para este artigo, pude ouvir o marido referir algo como “isto antigamente chamava-se o cinema do piolho”. Por desonra à minha curiosidade, não obtive um esclarecimento. As luzes apagaram-se e o casal recolheu-se após outro senhor lhes alertar para a utilização da máscara. Éramos tão poucos que quase conseguia ouvir a dentadura dos velhotes a bailar dentro da boca.

Point and Line to Plane, de Sofia Bohdanowicz

Fonte: sofiabohdanowicz.com

A primeira curta-metragem da belíssima sequência da noite é da autoria da realizadora Sofia Bohdanowicz. Intitulada Point and Line to Plane, num primeiro contacto faz referência a Kandinsky, sem sabermos ainda o propósito, e aparenta não ter voz ou movimento algum. É o que achamos ao depararmo-nos com o primeiro plano em que a presença feminina (Deragh Campbell) se encontra num estado deprimido. No entanto, esta história é relatada na primeira pessoa do singular e tem movimento, mas não onde esperávamos vê-lo.

É-nos relatada, de forma muito familiar e próxima, a perda de um amigo, Giacomo. Rapidamente percebemos que há uma ligação entre os dois, através de um interesse artístico e que é através deste ponto em comum que se vai tentando atenuar a perda.

Num gesto autobiográfico e quase como que em modo direto, a personagem principal relembra momentos que passara com o seu amigo, tal como alguns pontos que se foram ligando como que coincidências na sua vida, pós-luto. A semelhança de Giace com Mozart: ambos nascidos no mesmo dia e desaparecidos com a mesma idade. Os bombons de pistácio e maçapão com embrulho referente ao compositor lembram os círculos de Kandinsky, representantes da alma humana e que se tornam num símbolo importante na curta. Também a morte do seu vizinho é referida como uma coincidência, sendo que se tratava de um artista igualmente ligado à representação dos círculos e formas entre as cores.

Para este homem, as interseções entre as figuras redondas disponibilizavam a visualização de rostos. Ela refere que, ao contemplar as suas obras, só vê uma rapariga zangada com o cabelo despenteado. É com ligações encadeadas que conseguimos ver o falecido Giace retratado na metade de um bombom que acabou de ser partido ou nos laivos circulares que nos são apresentados ao longo da curta. Não é alucinante que a realizadora também o veja.

Para além das recordações e tentativas de proximidade com o seu falecido, temos a presença de uma mulher que começa a acreditar na vida após a morte. A sua avó já teria afirmado que o seu avô teria reaparecido ao 35º dia após o seu funeral. Numa noite em que dorme em casa de uns amigos, uma moldura com uma pintura cai e parte-se. Este facto leva-nos a crer que o caso de Giace não é diferente do caso do seu avô. Descobre que se trata de uma pintura de Hilma af Klint, obra esta que será motivo para um encontro póstumo com o seu amigo a um museu.

Em sucessivas imagens de montanhas e planícies, relembra que “Giace is not here. Or here.” (Giace não está aqui. Ou aqui.) Num último instante em que o silêncio do ecrã se entrelaça com o silêncio da sala, vemos a personagem perante a Composição VI, de costas, pincelar a última fala da curta: “If you can hear me answer me through the shapes in the colors; I want to know what shape he chose to be.” (Se me consegues ouvir, responde-me através das formas nas cores; quero saber que forma ele escolheu ser.)

O ecrã volta à escuridão habitual e não existe uma única reação; apenas vários corpos a respirarem ao mesmo tempo.

Prologue, de Magdalena Froger

Fonte: doclisboa.org

No próximo instante já estamos dentro da segunda curta metragem da noite. Desta vez é Magdalena Froger, com Prologue, que nos vem acordar de um sono profundo. A história é protagonizada por dois jovens bailarinos, Wilchaan e Marie-Lou, que acabam de chegar à exigente escola Codarts, em Roterdão. Longe das suas casas e das suas famílias, vemos um tipo de perda diferente da do presente na curta anterior.

Com uma carga sonora maior, mas ainda com uma intensa apatia pela parte dos jovens que são filmados maioritariamente em grande plano, ficamos num estado de contemplação até ao final. Começamos com a apresentação da rotina do jovem Wilchaan, observamos os seus movimentos lentos e controlados durante as aulas e, em casa, o seu desabafo quotidiano. É com um gravador que fala, ilusoriamente, para a sua mãe, de cujo colo confessa ter saudades, sentindo-se longe dele. Relata um sonho que reflete o seu estado de solidão que pensa não ser sentido pelas pessoas ao seu redor.

No entanto, a jovem Marie-Lou faz-lhe companhia nesta sala vazia que é permanecer num sítio desconhecido. O mesmo padrão “escola, transportes públicos e casa” é aplicado na exposição do quotidiano desta jovem. Nesta curta vemos movimentos lentos comuns aos da curta de Sofia; no entanto, vemos esforço, vemos vida através do suor e das lágrimas que parecem quase escorrer pelo rosto de Marie-Lou.

Num momento em que a apatia parece já incomodar por nos dar a ideia de que não vamos chegar a nenhuma conclusão, na sala a voz do velho dos piolhos ressoa. No ecrã vemos Wilchaan ser maquilhado pela colega e intitulando-se a si mesmo “Femme Fatale”, uma surpreendente cena que nos dá esperança de um pico de atividade. No entanto, atrás de mim ouço uma voz masculina confusa e pronta a abandonar aquele barco ocupado por pouco menos de vinte pessoas.

Acontece que o ponto alto da noite se deu graças ao casal sénior que estaria provavelmente com medo de desrespeitar o horário do confinamento. Num relance ao meu relógio, vejo que ainda estamos longe do algoritmo das onze horas. Talvez se tivessem recusado a ver um homem maquilhado ou precisassem de fazer a visita agendada à casa de banho. No ecrã vemos Marie-Lou de frente para nós a iniciar uma dança contemporânea.

Exatamente no instante em que ouvimos a bengala do casal pousar no chão a música temática de Laranja Mecânica enche toda a sala como que um alarme do além. Parece tudo mexer em câmara lenta – diria até que consegui ver a corcunda da velhota a mover-se ao ritmo da sinfonia. Marie-Lou termina a performance num estado já de êxtase e de agitação que rapidamente é quebrada com um plano que volta à energia inicial da curta-metragem.

Falo por todos aqueles que se encontravam dentro daquelas quatro paredes desinfetadas que já se sentia um ar exaustivo a percorrer-nos a todos nós. Porém, ainda tínhamos uma última curta-metragem pela frente e, com sorte, uma palestra via Zoom.

Episodes – Spring 2018, de Mathilde Girard

Fonte: viennale.at

No muro de um parque lê-se a frase “L’orage approche…” (“A tempestade aproxima-se…”) acompanhado de um A anarquista, enquanto um rapaz se aleija ao chutar uma garrafa que rola pelo chão. Assim começa Episodes – Spring 2018, de Mathilde Girard, já nos dando sinais de que nos encontramos num período revolucionário em França.

Esta curta-metragem realizada por Girard teve a sua dose de improviso como também de planeamento facultado pelos seus amigos que decidiram os discursos que os próprios iriam representar. Podemos ver estas conversas ao longo da curta, dispersas, num padrão corrente em que a realizadora vai ao encontro dos seus amigos individualmente e tem algum tipo de conversa em que cada um expressa as suas ideias políticas e também é aberto o palco a experiências sexuais e românticas. Tanto podemos num momento presenciar um grupo de jovens num parque a ouvir Freed from Desire de forma descontraída, como no próximo segundo vemos que afinal se trata de adultos por abordarem nomes como Kant, Pasolini, Daney e o propósito da arte na sociedade.

O assédio e a opressão à liberdade sexual são outros temas a que podemos ver a realizadora e uma das suas amigas no parque aludir. O seu único amigo masculino acaba por não se expor emocionalmente ou defender as suas ideologias, por escolha, o que deixa o espetador a pensar se haverá algum motivo por detrás disso. Numa última cena vemos o jovem adulto conduzir ao som de uma música que não nos é reconhecida, mas que nos dá a sensação de liberdade, como se o filme a partir dali fosse guiado estrada fora.

As luzes voltam-se a acender, alguns indivíduos abandonam o barco, sorrateiramente. Éramos tão poucos que José Luís Peixoto poderia vir a retratar-nos, naquele cinema, como retratou aos cinco à mesa, em “Na hora de pôr a mesa, éramos cinco”. No nosso caso, na hora do debate, éramos menos de meia dúzia. Rapidamente, os responsáveis põem-nos a par da chamada com duas das três realizadoras, Sofia Bohdanowicz e Mathilde Girard. Num contratempo entre longas perguntas, uma dificuldade em traduzir do português e ainda apoiar esta última realizadora francesa a obter um inglês percetível, acabámos por ser avisados das horas.

Sofia faz um apanhado do processo criativo e das coincidências retratadas que viriam desaguar a pensamentos de Freud. É de apontar como destaque a cena em que a atriz dança ao som de Mozart e a combinação perfeita criada através da sinfonia e da sonoridade do roçar da camisa entre as pernas e os braços, de tão intensa a dança. Já Mathilde Girard refere-se a Jean Rouche como inspiração, relembrando o seu objetivo: passar a ideia de que se pode em conjunto falar de sexo, amor e política. Acaba por também revelar pormenores na intenção da última cena que nos guia enquanto a música se mantém nos créditos sem que percebamos o final.

Não querendo me estender mais, reavivo a ideia de ser cada vez mais importante vermos os nossos filmes em ecrã ampliado, dentro das quatro paredes de um cinema. Certamente acabarão por ser expulsos do estabelecimento por necessidade de fecharem as portas a horas. No entanto, será sempre preferível sair do cinema alimentados por um bom filme do que nunca voltar, por falta de fundos que possibilitem a porta aberta. Neste período crítico, incentivo a ida ao cinema, ainda que o estado só dê uma esmola de 1% para a cultura e muito não esteja ao nosso alcance para o sustentar. Seja Nimas, seja Lusomundo, o cinema em tempo de confinamento está Ideal e recomenda-se.

Artigo redigido por Margarida Ramos

Artigo revisto por Miguel Bravo Morais

Fonte da imagem de destaque: DocLisboa (Twitter)

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