Literatura

Galileu & Déjà Lu, contadoras de histórias em Cascais

Uma boa livraria é a Olimpo da Literatura – um espaço de refúgio e de imersão. É onde o leitor se perde e, ao mesmo tempo, se encontra. Na Vila de Cascais – que já foi, pelo menos uma vez, musa na vida e na obra de escritores como Almeida Garrett, Fernando Pessoa, Maria Amália Vaz de Carvalho, Eça de Queirós e Ruben A. – existem duas livrarias independentes que esperam por uma visita; ou duas ou três. Fomos conhecê-las. 

A Avenida Valbom é uma das passagens mais importantes de Cascais, a uma distância de vinte minutos de transportes de Lisboa. É lá que encontramos a livraria Galileu, que assim foi batizada pelos elementos do grupo de Esquerda que a fundaram. Eram contra o Antigo Regime e desejavam dar-lhe o nome de alguém que tivesse tido ideias diferentes e vanguardistas. E assim foi.

A Galileu é considerada, por quem a conhece, um ícone da Vila de Cascais.
Fotografia de Inês Sousa Martins

Esta foi a primeira livraria em Cascais, nascida a 22 de dezembro de 1972. O grupo fundador decidiu ir buscar um livreiro chamado Nuno Oliveira para arrancar com o projeto. Quem o explica é Caroline Tyssen, a atual proprietária. Conta que foi parar à Galileu em maio de 1974, depois da Revolução dos Cravos, por um “perfeito acaso”. Formou-se na área do Turismo e procurava trabalho. Um dia, encontrou uma amiga na estação que lhe disse que, se queria um emprego temporário, se deveria dirigir à Galileu porque estavam a precisar de pessoas. Nunca mais de lá saiu – já passaram quarenta e seis anos.

A Galileu tem, sobretudo, livros antigos, mas na montra encontram-se expostas obras mais recentes, de onde se destacam Uma Vida no Nosso Planeta, do célebre naturalista David Attenborough; Diccionario da Linguagem das Flores, de António Lobo Antunes; e ainda Almanaque do Céu e da Terra, de Cristina Carvalho; mas não só. “Na montra, temos sempre o Tintim”, acrescenta Caroline Tyssen. Perguntei-lhe se isso acontecia por alguma razão específica: “A minha família é toda belga. Só eu é que nasci no Douro”, respondeu.

As aventuras em quadradinhos do jovem repórter Tintim protagonizam a montra da livraria Galileu.
Fotografia de Inês Sousa Martins

Pela porta, entra todo o tipo de cliente. “Não somos uma livraria especializada numa só área, vendemos de tudo. Temos muitos clientes fiéis e há muita gente que passa a palavra”, explica. Caso contrário, já teriam fechado portas – “Se não tivéssemos história, não continuávamos aqui. Os últimos anos foram muito difíceis. É pelo facto de termos histórias que ainda estamos aqui vivos. Isto é um milagre. Já devíamos ter fechado há dez anos. Somos uma livraria independente. Sabe o que está a acontecer às livrarias independentes? As que ficam são aquelas que teimam. Há anjos a voar na Galileu”. Por um lado, deverão ser anjos muito sortudos, com todos os livros, de todos os géneros e épocas, que têm à sua disposição para ler; por outro, não terão muito espaço para esvoaçar livremente, tendo em conta a enorme quantidade de livros que lá existe, nos dois pisos que compõem a livraria.

A entrevista é interrompida algumas vezes. Da primeira vez, entra um cliente – que, segundo Caroline, é fidelíssimo – que lhe entrega um saco com uma garrafa de bebida. A proprietária ri-se. “Está a ver? Isto são só presentes!. Ambos falam como se se conhecessem há muito tempo – e, efetivamente, conhecem-se. A livraria é também um espaço de convívio e de amizade. O cliente compra uma série de livros para oferecer aos seus familiares no Natal e coloca-os dentro de um enorme saco reutilizável – daqueles que se levam aos supermercados – e diz-nos “é assim que se vem à Galileu. Caroline diz-lhe que tem sorte em ter uma família que lê.

A livraria possui uma enorme coleção de livros antigos e muitos deles são armazenados na sua cave.
Fotografia de Inês Sousa Martins

Entretanto, entram também dois jovens, um de cada vez. O primeiro procura livros de autoajuda. O segundo mostra a Caroline uma lista de obras. Ela diz-lhe imediatamente que não têm nenhum dos exemplares procurados. A proprietária partilha que, agora, a geração mais jovem regressou às livrarias e voltou a manifestar interesse pela Literatura. Muitas vezes, pedem-lhe conselhos e perguntam que livros é que lhes recomenda. “Sentem necessidade de ler, mas têm mais dificuldade em arranjar tempo de solidão para a leitura. É uma geração mais acelerada e que não para; e para ler é preciso parar. Quando se está com um livro, está-se só; e as pessoas mais novas têm um certo medo dessa solidão”.

Quando é questionada sobre o que é que a Galileu tem de especial e o que é que a diferencia das outras livrarias, atira prontamente: “Não vai perguntar isso a uma pessoa que trabalha aqui há quarenta e seis anos. Dei a minha vida por esta livraria”. Fará ideia de quantos livros ali existem? “Sei lá. Não respondo a números, sou uma mulher de letras”.

Depois de tantos anos, a livraria mantém-se fiel à sua missão, graças à resiliência e, acima de tudo, à paixão de Caroline Tyssen: “Nunca desisto da Galileu. Esta livraria é História. Vai continuar por aqui, mesmo quando se reformar.

Inaugurada no ano de 1972, a Galileu é a mais antiga livraria de Cascais.
Fotografia de Inês Sousa Martins

Saímos pela porta da Galileu e, depois de caminharmos cerca de dez minutos, deparámo-nos com a Fortaleza de Nossa Senhora da Luz, mais conhecida como Cidadela, onde se refugia a livraria Déjà Lu. Francisca Prieto confessa que, além de ser cliente e amiga da Galileu desde “miúda”, já trabalhou naquela livraria, no ano de 2003, quando deixou de trabalhar na área de Marketing e Publicidade para se dedicar à família. Na Galileu fazia duas ou três manhãs por semana e “era aquilo a que eles chamavam ‘os temporários’, mais para jovens do liceu ou da faculdade”. Definitivamente, não foi temporário como aconteceu com Caroline Tyssen, porque Francisca apenas trabalhou na livraria durante uns meses e, mais tarde, foi co-fundadora do projeto solidário que se transformou na Déjà Lu.

A livraria abriu, enquanto espaço físico, no ano de 2015, mas Francisca explica que a sua história remonta mais atrás no tempo. Tem uma filha de 15 anos com trissomia 21 e, quando a bebé nasceu, descobriu o Centro de Desenvolvimento Infantil DIFERENÇAS cujos profissionais faziam um excelente acompanhamento às crianças com a síndrome de Down. “Rendi-me completamente à instituição, mas rapidamente percebi que, apesar do facto de serem ótimos médicos e terapeutas, não percebiam nada de angariações de fundos”. Tendo formação na área do Marketing e da Publicidade, ofereceu-se para ser voluntária no centro, criando e desenvolvendo projetos deste género.

A Déjà Lu, localizada na Cidadela de Cascais, tem uma missão solidária.
Fotografia de Inês Sousa Martins

No entanto, a crise do ano de 2008 fez com que as doações abrandassem. Ao mesmo tempo, surgiram as modas vintage e das vendas de garagem que eram novidade em Portugal. Francisca pôs-se a pensar em “algo que não fosse uma tralha” e que pudesse vender em segunda mão. Um dia, estava em casa a fazer arrumações quando compilou cerca de trinta livros muito interessantes e em ótimo estado. “Certamente que interessavam a alguém, mas eu não sabia onde os entregar ou o que lhes haveria de fazer. Nessa altura, fez-se um clique e achei que os livros poderiam ser um excelente objeto para vender”. Explica que, além do facto de serem muitos fáceis de armazenar –  “se eu tivesse uma loja de móveis em segunda mão, iria precisar de um armazém gigante!” –, é, claro, uma apaixonada por Literatura.

Tudo começou com um blog onde leiloava, em conjunto com uma amiga, um lote de livros, dando continuidade às campanhas de angariação de fundos a que era tão devota. Recebiam tantos e tão bons livros que começaram a acumulá-los em casa. “Eram livros que não eram nossos, foram doados para uma causa e tínhamos de os escoar [doutra forma]”. Francisca e a amiga decidiram ir falar com a direção do recém-inaugurado hotel Pestana Cidadela Cascais, propondo-lhe a criação de uma livraria solidária no complexo onde se inseria.

A Déjà Lu (sobre)vive das doações de livros em segunda mão.
Fotografia de Inês Sousa Martins

A direção do hotel gostou tanto da ideia que, prontamente, lhes disponibilizou o primeiro andar do edifício do restaurante para o efeito. Francisca Prieto confessa que, inicialmente, ficaram reticentes com a proposta, pois tinham idealizado abrir a sua livraria no rés-do-chão, com porta para a rua, onde as pessoas não tivessem de subir. “Cinco anos depois, aquilo que achávamos ser um entrave passou a ser uma oportunidade. As pessoas sobem as escadas e sentem-se num sótão mágico. Têm a sensação de que conhecem um segredo que mais ninguém conhece”.

A seleção é feita de forma meticulosa e procuram colocar à venda obras bem preservadas. “Pode haver livros que não se encontram em muito bom estado, mas que são literariamente muito bons”. Todos eles se encontram agrupados de forma estratégica, por salas e temáticas, organizados dentro de caixas de garrafas de vinho reutilizadas que ganharam esta nova e improvável função. Nas estantes, encontramos livros de autores portugueses e estrangeiros, sejam eles traduzidos ou no idioma original; livros para adultos; livros para crianças. “Quando pensamos numa livraria solidária, as pessoas costumam ter uma ideia diferente. Não estão à espera de que tenha livros tão bons ou de que esteja tão bem decorada”. O próprio espaço físico da livraria entra em comunhão com o sentido de humor, o espírito alegre e a maneira de estar de que Francisca deseja que a sua equipa disponha.

Nesta livraria, cada pormenor conta.
Fotografia de Inês Sousa Martins

Na Déjà Lu existe apenas uma pessoa que é funcionária. As restantes, cerca de cinquenta, são voluntárias e trabalham por escalas. “Tanto temos uma miúda de dezanove anos que ia para a faculdade e acabou por não ir, como uma senhora irlandesa, de oitenta anos, que é a responsável pela sala de livros em língua estrangeira. Temos, ainda, uma voluntária para os voluntários, como nós lhe chamamos, que faz as escalas para todos, e uma voluntária que vem todas as semanas para introduzir livros no computador. O único requisito é a boa disposição”.

A Déjà Lu já foi palco de episódios simpáticos e inesperados. Francisca sorri ao lembrar-se, por exemplo, da vez em que teve a oportunidade de conhecer, na livraria, o autor britânico David Lodge – de quem é grande admiradora –, que estava de visita a Portugal por ocasião da Feira Internacional de Cultura (FIC), que era organizada pela LeYa, em Cascais. Foi-lhe pedida autorização para entrevistar o escritor na Déjà Lu. “Era o fim de um dia de verão e o senhor estava muito cansado. Nem me atrevi a ir cumprimentá-lo”. No final da entrevista, David Lodge pergunta à jornalista se todas aquelas estantes de livros foram montadas de propósito para a entrevista. Depois de lhe ser explicado o conceito da Déjà Lu, o autor levanta-se e dirige-se a Francisca. “Explicou-me que também tinha um filho de 40 anos com trissomia 21. Eu não o queria incomodar e, afinal, foi ele que veio ter comigo. Tivemos uma conversa com uma cumplicidade muito engraçada”.

A equipa da Déjà Lu apresenta sugestões de livros aos seus visitantes.
Fotografia de Inês Sousa Martins

Se tiveres algum livro que gostasses de doar à Déjà Lu, podes entregá-lo diretamente na livraria, em Cascais, ou no Centro de Desenvolvimento Infantil DIFERENÇAS, localizado no Centro Comercial da Bela Vista, em Lisboa. Cem por cento das receitas geradas pela venda de livros revertem para a Associação Portuguesa de Portadores de Trissomia 21 (APPT21) e para a Associação Pais21. Procura não levar mais do que dois sacos de livros, pois “principalmente nesta altura, é mais difícil de os gerir e de os armazenar”.

Francisca Prieto diz que este ano deverão ultrapassar os 150 mil euros em doações, “uma quantia bastante impressionante”, uma vez que vendem livros a um preço reduzido. Define esta experiência, acima de tudo, como “gratificante”: o dinheiro tem servido, no caso da APPT21, para proporcionar consultas grátis a todas as crianças com trissomia 21 e, no que diz respeito à Pais21, é revertido a favor de projetos de pré-profissionalização para jovens que se encontram numa fase de transição para a idade adulta.

Ao fim de cinco anos de existência, a equipa percebeu que a Déjà Lu criou um “pólo cultural em Cascais”: “há clientes muitos fiéis que vêm todas as semanas. Podem morar em Sesimbra e vêm cá de propósito para vir à livraria. Temos até uma voluntária que mora no Porto, mas que, de vez em quando, vem passar o fim de semana a Lisboa para nos ajudar”.

Existe uma parede onde estão expostos todos os objetos encontrados dentro dos livros doados à Déjà Lu.
Fotografia de Inês Sousa Martins

Estes espaços com história contam histórias. Cabe aos leitores preservá-los através da sua visita, da sua divulgação e, claro, da compra de livros. A Galileu e a Déjà Lu adotaram uma campanha criada pela Associação Americana de Livreiros: “Não deixe que as livrarias independentes se tornem ficção”.

Imagem de Capa: Fotografia de Inês Sousa Martins

Artigo revisto por Andreia Custódio

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Uma pessoa de muitas paixões. Por isso, licenciou-se em Informação Turística, está a terminar o Mestrado em Jornalismo e quer tirar Doutoramento em História Contemporânea. A ideia de ter uma só carreira durante a vida toda aborrece-a. A Inês gosta de escrever, de concertos, dos The Beatles, de Itália, de conduzir e dos seus cães. Sonha em visitar, pelo menos uma vez, todos os países do mundo.

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