Opinião

Horóscopo podre

Esta crónica é escrita ao abrigo do novo acordo ortográfico

Se algum de vós, leitores, tem acompanhado ferverosamente esta minha aventura enquanto cronista, deve ter a noção de que nada me põe o sangue a ferver mais depressa do que a pseudociência. Ora, poucas coisas englobam mais este espírito burlão do que a cartomancia – a “arte” de adivinhar o futuro através do lançamento de cartas. Algo aparentemente inocente, mas que pode ter repercussões sociais (e até económicas) extremamente graves. Não acreditam? Então vejamos.

Tomemos como exemplo Carla Duarte, taróloga de profissão e apresentadora do programa “A Vida nas Cartas – O Dilema”, transmitido durante as tardes da SIC. Aqui há uns tempos, uma inocente telespetadora ligou para este programa a fim de pedir conselhos acerca dos seus problemas matrimoniais, admitindo ser vítima de violência doméstica “há mais de 40 anos”. Ora, uma pessoa normal teria respondido à ouvinte suplicando-lhe para contactar a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, ou para efetuar uma queixa-crime na Polícia Judiciária, mas Carla Duarte, doutorada em pseudopsicologia, escolheu uma abordagem diferente, que remonta, na opinião deste humilde cronista, aos tempos de um patriarcado salazarista. A taróloga disse-lhe que aquele era “o homem que ela tinha escolhido” e que, “independentemente de tudo, por enquanto é com ele que esta ia ficar”, com o bonito acrescento de que, “quando damos amor, recebemos amor, mesmo que seja em menos quantidade”. Uma história romântica, sem sombra de dúvidas. É verdade que Carla Duarte acabou por pedir desculpa, mas com que sinceridade? Certamente com a sinceridade de alguém que está aterrorizado com a ideia de perder o emprego e pouco mais – perdoem-me a conjetura inocente.

Carla Duarte é um exemplo entre muitos, em que os “poderes sobrenaturais” e os bruxedos são usados ao invés de uma abordagem racional, científica e humanista ao problema.

Para além disto, é bem sabido que o tarot anda de mãos dadas com as medicinas alternativas. Vários pacientes oncológicos, por exemplo, desesperados com o seu prognóstico e com o horror justificado da quimioterapia, confiam nos conselhos de uma cartomante, substituindo medicina por “medicina” – mezinhas, chás, poções, rezas, sementes de isto e de aquilo, e por aí adiante.

Mas quem podemos culpar: o burlado ou o burlão? Não me sinto capaz de pôr o peso em indivíduos com baixos níveis de escolaridade e pouca cultura científica, em que a isso se acrescenta muitas vezes o temor de um problema que parece impossível de resolver. Não. A culpa no cartório é dos burlões.

Não creio na inocência destes indivíduos. Acho que a esmagadora maioria tem plena consciência do mal que está a fazer e que poucos acreditam genuinamente nos seus poderes extraordinários. Pouco mais passam do que ilusionistas, com a diferença de que, ao invés de entreter, causam danos possivelmente irreversíveis na vida as pessoas.

Desculpem o pódio moralista, mas é-me incompreensível como esta gente se consegue deitar à noite na sua almofada confortável, paga com as contribuições honestas da sua clientela, e dormir um sono descansado.

Taromantes, psíquicos, adivinhadores, bruxos, astrólogos… tudo farinha do mesmo saco. O horóscopo para esta semana destes indivíduos é: “tenham cuidado com a Internet, pois podem encontrar lá certos artigos do vosso desagrado”.

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João Carrilho é a antítese de uma pessoa sã. Lunático, mas apaixonado, o jovem estudante de Jornalismo nasceu em 1991. Irreverente, frontal e pretensioso, é um consumidor voraz de cultura e um amante de quase todas as áreas do conhecimento humano. A paixão pela escrita levou-o ao estudo do Jornalismo, mas é na área da Sociologia que quer continuar os estudos.

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