Literatura

Pedro Rodrigues: “Não há Internet que valha à Literatura, porque o livro vai continuar a ser o livro”

Quando foi informado sobre o seu direito ao off the record, recusou-o, de forma imediata: “não gosto dessa ideia de esconder e de falar nos bastidores. As pessoas são como são”. Tratou-me imediatamente por “tu” e pôs-me à vontade para tratá-lo assim também. É uma das maiores promessas da última geração de escritores portugueses. Pedro Rodrigues, nascido a 1 de março de 1987, é oriundo da Cova-Gala, no concelho da Figueira da Foz. Acabou de lançar, este mês de novembro, o seu novo livro Alice do Lado Errado do Espelho, escrito em pleno confinamento. Numa entrevista sobre tudo e sobre nada, falou-se sobre arte, direitos de autor, estupidez alheia, redes sociais, a pandemia, maus hábitos de leitura. Tudo sem papas na língua, qual António Lobo Antunes – ou não fosse esta uma das maiores inspirações literárias de Pedro Rodrigues. 

Pedro Rodrigues é uma das jovens promessas da Literatura Portuguesa
Autoria da imagem: Pedro Agostinho Cruz

És um engenheiro civil que quis ser escritor ou um escritor que quis ser engenheiro civil?

É engraçado porque eu lembro-me perfeitamente de uma canção dos Deolinda, que diz que “há trolhas escritores” e eu sempre me revi nessa passagem da música. Eu nunca quis ser engenheiro civil, sou-te muito sincero. Isto foi quase uma imposição dos meus pais e eu digo “quase” porque eu também tenho a minha quota parte de… sei lá.

De tomada de decisão.

Sim… De erro, porque me deixei levar por essa imposição deles. Tinham medo de quando eu dizia que queria ser artista. Gostava muito de desenhar quando era mais novo e lembro-me de os meus professores de EVT [Educação Visual e Tecnológica] me dizerem que tinha de seguir Artes e, realmente, era isso que me deixava feliz. Só que os meus pais tinham aquela ideia muito pouco romântica do que é ser artista: “tu vais ser artista, vais passar fome”. O António Lobo Antunes também fala muito disso e, na última aparição dele na Sociedade Portuguesa de Autores, ele até diz “está a ver, mãe? Se calhar, se fosse médico, agora andava a pedir na rua”. Claro que é muito difícil ser artista, mas as artes não são um bicho de sete cabeças como os meus pais acham. Hoje já aceitam e até porque já consigo, neste momento, e de todas as formas, subsistir e viver da arte, mas acho que eles ainda têm aquele… Não lhe chamaria rancor, mas é um pouco isso, por eu não seguir a área da engenharia civil e por não poderem dizer aos amigos “o meu filho é engenheiro civil”, como os filhos dos amigos deles são engenheiros, ou são médicos, ou são isto ou aquilo. Ainda por cima, sou de um meio pequeno, da Cova-Gala, que é uma vila e os meus amigos que são artistas não vivem disso. Trabalham em fábricas e isso [a arte] é um escape que eles têm. É uma parte da vida deles a que, talvez, gostariam de dar uma oportunidade, mas devem ter medo também, por isso, vivem do trabalho que têm nas fábricas e fazem-no nos tempos livres. Eu, felizmente, consegui dar a volta e, com muita perseverança, consegui chegar onde estou. Ainda assim, acho que continua a assustar os meus pais, por ser uma profissão volátil. Hoje posso estar na mó de cima e amanhã, de um momento para o outro, por um erro qualquer, posso já não ter trabalho. Uma pessoa, quando trabalha em engenharia, acaba por ter outra estabilidade. Aqui não… Se eu não estiver a fazer traduções, se eu não estiver a fazer isto, se eu não estiver a fazer aquilo, não há dinheiro. Tenho de andar a procurar e é isso que faço. Costumava dizer que tenho muita sorte, mas comecei a aperceber-me de que também procuro e também vou fazendo por isso. Vou aceitando desafios. Nunca pensei em traduzir na minha vida. Estou a fazê-lo e estou a adorar. Sempre que surge uma oportunidade de trabalho na área, eu atiro-me de cabeça. 

Não conseguiste apenas escrever o teu novo livro em plena pandemia, mas também lançá-lo.

Eu por acaso tive – lá está, aqui é que entra o fator sorte – a sorte de poder continuar a trabalhar, apesar dos pesares. Comecei a escrever o livro [Alice do Lado Errado do Espelho] durante o confinamento. Sei que houve muita gente no mundo das artes que se reinventou e, apesar de tudo, foi uma oportunidade, de facto, para as pessoas se reinventarem. Se calhar, já davam muito o que tinham por adquirido e, depois, com este choque, tiveram de se reinventar, porque viram que, a qualquer momento, podem tirar-nos o chão. É ótimo ver que as pessoas têm essa capacidade. 

Se não fossem os livros, os filmes, a música, achas que teria sido mais difícil, para as pessoas, ultrapassarem esta fase de confinamento? Sentes que valorizaram e recorreram mais ao teu trabalho e ao de outros artistas, apesar dos preconceitos que já mencionaste? 

Penso que sim. Acho que as pessoas se aperceberam de que, realmente, a arte é importante. É um pilar, porque, quando tudo está mal, nós temos de nos agarrar a algo e a arte tem sido essa boia de salvação para muita gente. Tens o caso das lives do Bruno Nogueira, que salvaram muita gente daquela loucura do “porra, o que é que eu vou fazer agora, sempre em casa?”. Estávamos numa espécie de mito de Sísifo, não é? Parece que estávamos a viver num GIF: acordávamos sempre no mesmo sítio, a fazer sempre as mesmas coisas e voltávamos a fazê-lo, no dia seguinte. No dia-a-dia, se calhar, as pessoas não dão valor [à arte] e acham que, por exemplo, as frases que encontram na Internet aparecem do nada. Muitas vezes, mutilam-nas.

Acham que são frases feitas.

Exatamente. As pessoas acham que a arte surge do nada e que não há pessoas que precisam dela para viver. Não sabem que, para a arte existir, é preciso haver quem a faça. Eu não posso querer comprar um quadro e dizer “olha, toma lá vinte euros que é para pagar as tintas”. Então e o resto? E tudo o que está por detrás? Para isso existir, às vezes é preciso estarmos horas, dias ou meses a magicar uma forma de nos expressarmos e de metermos, no meu caso, no papel, ou numa tela, seja onde for. Penso que as pessoas dão isso como adquirido. Há uma falta de respeito para com os artistas, especialmente na Internet, porque veio trazer essa ideia de que tudo é fácil e de que tudo surge por geração espontânea. Mas, lá está, numa situação extrema como esta, é à arte que as pessoas recorrem. Só que eu penso que ainda não lhe dão o devido valor e o problema é exatamente esse. Se calhar dizem “epá, dar vinte euros para ir ao teatro, para ver uns gajos a fazer isso e nem sei o quê”, quando, se for preciso, vão de fim de semana e gastam vinte euros em finos, estás a perceber? São prioridades, mas para poder chegar à Internet e ter conteúdos, é preciso que alguém os crie. E para as pessoas os criarem precisam de gastar tempo, material, equipamento, seja o que for. Tudo isso custa dinheiro. Temos de pagar essas coisas todas e precisamos de dinheiro para viver. Nós estamos a contribuir para a sociedade, fazemos algo por ela. Penso que as pessoas, de certa forma, se aperceberam disso, mas também lhes passa rápido. Por isso é que aquilo que hoje é notícia, amanhã já não o é. 

Começaste a escrever desde muito novo, mas um dos acontecimentos mais trágicos da tua vida, a morte da tua avó, foi recuperar a tua veia de escritor. A dor faz-te escrever de forma mais imediata, como se a escrita fosse um salva-vidas? 

Sim, é um pouco isso. Penso que, às vezes, até é um ato de egoísmo. Temos tantos sentimentos controversos dentro de nós, tanta tempestade interior que só queremos extravasá-la e partilhá-la com toda a gente, o que acaba por ser um ato de egoísmo. Porque nós queremos sentir-nos mais leves e queremos que os outros absorvam isso que temos cá dentro. A dor acaba por ser um gatilho para escrever e, quando eu era mais novo, acredito que os sentimentos nefastos e os momentos mais tristes da minha vida eram os que me faziam escrever. Hoje em dia, já não. Estamos sempre a falar da morte como um marco nas nossas vidas para – vou usar novamente a palavra – nos reinventarmos. Quando morreu o meu avô, há quatro anos, comecei a olhar para a vida doutra forma. O meu avô era o meu melhor amigo. Reformou-se quando eu nasci. Durante toda a minha vida, até aos meus 29 anos, que foi quando ele faleceu, tive o meu avô ao meu lado. Vivia comigo e, pronto, éramos unha com carne. A morte dele foi um golpe ainda mais duro do que a da minha avó. Apesar de a minha avó ter sido a primeira pessoa que eu perdi efetivamente – de forma consciente, porque já tinha perdido outro avô, mas não conseguia consciencializar o que era a perda –, perder o meu avô foi ainda pior, muito pior. Depois de ele falecer, comecei a perceber que, a qualquer momento, posso perder quem amo e, por isso, vou aproveitar – eu posso morrer, como eles podem morrer – a vida ao máximo. Vou fazer aquilo que eu gosto de fazer. Estava no Técnico a acabar o curso [quando o avô faleceu]. Eu saí de Coimbra para o Técnico, porque não ia acabar o curso. Tive professores em Coimbra que me disseram logo “enquanto nós estivermos aqui, nós não o passamos e não vai acabar aqui o curso”.

Porquê?

Quezílias com eles. Eu não coopero com injustiças e, quando eu vejo algo que não está de acordo com o que é justo, eu não me calo. Eu falo e eles não estão habituados a que os confrontem. Foram dois professores que disseram logo “enquanto nós aqui estivermos, não acaba o curso”. Então, fui para o Técnico e estava a acabar o curso. Lembro-me perfeitamente de pensar: “eu vou acabar o curso, mas vou dizer aos meus pais que aquilo que eu quero fazer é escrever. Eu quero ser artista mesmo e é isso que eu vou fazer”. E assim, nessa altura, comecei a ver a vida doutra forma e comecei a escrever sobre tudo: sobre as pessoas com quem me cruzava no metro, com quem me cruzava nos autocarros… Adorava andar nos transportes públicos em Lisboa, porque há sempre historinhas. Aliás, até fiz uns textos que estão todos guardados e que eram quase um livro de poesia sobre a Carris. Eram só historinhas, muito pequeninas, mas eram engraçadas. Eram coisas que eu ouvia nos transportes. É espetacular, os velhotes têm histórias muito engraçadas e achava muita piada. Na altura, também comprei casa em Campolide e adorava ver todas aquelas fachadas dos prédios antigos, todas aquelas cores e escrevia sobre tudo. O meu gatilho já não era só a dor, mas tudo o que acontecia à minha volta. Quando acabei o curso, decidi que era isto que queria, efetivamente, fazer. Pude dedicar muito tempo à leitura. Sabes que era uma coisa para a qual eu, na altura, apesar de tudo, não tinha tempo… Bem, não é “não tinha”, porque nós, muitas vezes, dizemos que não temos tempo, mas não sabemos é organizar-nos e não damos prioridade às coisas a que devíamos dar. Vinha, muitas das vezes, cansado das aulas e já tinha de andar com os livros da faculdade, com equações, de trás para frente. A pessoa acaba por deixar a leitura de lado… Talvez prefira ver uma série ou meter-se a ouvir música antes de dormir a estar a ler um livro. Mas, quando terminei essa fase da minha vida, comecei a ler cada vez mais, cada vez mais, cada vez mais e acho que isso também me ajudou. Ainda hoje, farto-me de dizer que quem quer escrever precisa de ler muito. Senão não consegue fazer nada. A escrita é uma coisa que vem posteriormente. Nós temos uma ideia, mas nós precisamos de ler muito para conseguirmos verbalizá-la. E, hoje em dia, já escrevo sobre tudo.

Também libertas adrenalina a escrever?

Sim. Quando acabo de escrever algo, fico em êxtase, estás a ver? Epá, sinto mesmo o corpo a vibrar, é mesmo uma descarga de adrenalina. Eu lembro-me de que, quando terminei o último conto do livro [Alice do Lado Errado do Espelho] e o organizei juntamente com os outros, fui reler aquilo e pensei “porra, está aqui uma cena fixe. Está aqui um livro engraçado para ser lançado”. Depois enviei ao João [o editor] e, efetivamente, estava ali qualquer coisa. Tanto estava que vai sair.

Não são apenas os aviões que nos fazem viajar; os livros também.
Fotografia de Inês Sousa Martins

Dizes que escreves para dar vida às vozes que trazes dentro de ti. O que é que essas vozes te dizem?

Eu sou uma pessoa muito ansiosa, desde miúdo, e as minhas vozes são de ansiedade, de medos. Imagina… Eu deparo-me com uma situação e, antes de seguir por um caminho, parece que antecipo todos os cenários. Penso que essas vozes acabam por ser o medo que nós temos do incerto, não é? Sabemos que temos de seguir aquele caminho, mas não sabemos o que vamos encontrar. Claro que, por vezes, as vozes também são alegres, porque há situações de alegria e de júbilo que tento verbalizar. Depende das situações e dos momentos, mas as vozes são quase sempre de medo do incerto. Faz parte, é a condição humana.

Mas isso não é necessariamente mau.

Exatamente, não é mau. É mau na medida em que, por vezes, te consome, não é? Quando deixas que isso te consuma, acaba por ser mau, porque tens uma boca a engolir-te por dentro. Mas, efetivamente, é bom que assim seja. Pior seria se fosse uma pessoa despreocupada e se não quisesse saber. “Olha, que se lixe. Está feito. Se gostarem, gostaram; se não gostarem, não gostaram.” Assim não sei se alguma vez poderia singrar, fosse no que fosse.

E se ficasses a saber que o António Lobo Antunes tinha lido um livro teu?

Sentia-me com medo. Estamos a falar de uma figura bastante imponente, não só da Literatura portuguesa, mas também da Literatura mundial. É um dos melhores de sempre. E, lá está, é uma pessoa extremamente crítica que também não tem papas na língua. Se ele me dissesse “olha, gostei”, mesmo que fosse assim um “gostei” um pouco a seco, eu já ficava todo feliz. Já dava dois ou três pulos de alegria. Se, em vez disso, me dissesse que tinha gostado muito, se calhar dava um mortal para trás. Claro que esse é sempre um dos medos: como é que o livro será recebido? Não apenas pelos grandes escritores, mas pelo público em geral. Nós queremos que os nossos livros sejam bem recebidos. Qualquer objeto artístico acaba por ter essa necessidade que é a aceitação do público. Senão não sobrevive. 

Além de Lobo Antunes, quais são os outros autores que encontramos na estante da tua casa?

Quando comecei a ganhar dinheiro com a escrita, comecei a gastar cada vez mais dinheiro em livros. Aliás, eu tinha feito uma promessa este ano: depois da Feira do Livro, tinha dito que não comprava mais livros até dezembro, até à altura do natal, e já comprei quatro. Pronto, já quebrei a promessa. Em termos de autores, tenho o Gonçalo M. Tavares, o João Tordo, o Afonso Cruz – que é inevitável não ter, é um dos meus autores favoritos. Tenho também a Cláudia Lucas Chéu, que descobri há relativamente pouco tempo. O [José Eduardo] Agualusa também foi uma boa descoberta, há dois anos. Da nova voga de autores, tenho a Marta Chaves, que ainda agora comprei, a Cláudia R. Sampaio e o Ricardo Adolfo, que quase ninguém conhece e também é espetacular. De poetas, tenho o José Carlos Barros, tenho o Pessoa – é inevitável não ter Pessoa –, o Herberto Helder. Depois, tenho Aldous Huxley, Hemingway, Bukowski. Tenho muita coisa, mesmo muita coisa. Não sou, por exemplo, como o meu pai, que tem dois ou três autores preferidos. Gosta do Victor Hugo, por exemplo, mas, depois, gosta de tipos como o Dan Brown e o José Rodrigues dos Santos, que eu detesto. Sou bastante eclético naquilo que leio e gosto muito da poesia contemporânea, desta nossa geração mais nova. Quando a leio, estou a ver o mundo que conheço, enquanto que há outros autores que eu tenho que quase que inventaram um mundo que não conheci, que não vivi. Claro que há muita coisa que é intemporal, que podes ler no século XIX ou no século XXII e estás a ler e a sentir a mesma coisa. Temos autores do caraças em Portugal. Tenho é pena de que algumas pessoas, as mais velhas, tenham medo de descobrir o novo mundo e estejam muito presas a autores como o António Lobo Antunes, o José Cardoso Pires, o próprio Saramago. Quando apresentas o Lobo Antunes a um miúdo mais novo, ele diz-te logo “meu Deus, não gosto nada disso. Não percebo nada do que o homem escreve.” Pronto, lá está, o livro deve realmente puxar por ti. Nós também somos um povo sem grandes hábitos de leitura. Ainda ontem, por acaso, estava a falar com um amigo meu que é muito direcionado para a música e ele estava a dizer que o problema das grandes produtoras e das grandes editoras musicais é não se terem adaptado à nova realidade, a da Internet. E o que se passou? Os autores começaram a pensar assim: “vou fazer a minha música, ponho no YouTube e pronto, está a vida feita”. E é verdade, muitos deles apareceram desta forma e as editoras não conseguiram acompanhar [este ritmo]. Eu estava a dizer-lhe que, em termos de Literatura, vai ser muito difícil fugirmos ao objeto livro. Tens o kindle, mas eu não o vejo a suplantar o livro, sou-te muito sincero. Às novas gerações, aos miúdos que agora estão a nascer, se calhar, mais facilmente lhes dás um kindle e eles acham que é mais fixe que um livro, porque já nascem quase com um telemóvel nas mãos. Só que hoje e no futuro próximo, talvez nos próximos dez anos, o livro vai continuar a ser o livro, não há volta a dar. Não há Internet que valha à Literatura, porque o livro vai continuar a ser o que é.

Dizes que os portugueses têm maus hábitos de leitura. Porquê?

Vou dar-te um exemplo: eu era um aluno de doze ou de treze valores a Português, porque entrava muito em confronto com as minhas professoras no liceu. No ciclo, sempre fui aluno de cinco e sempre tive uma professora que tinha uma mente aberta. Eu interpretava uma coisa e não queria dizer que fosse aquilo que estava ali escrito, aquela linha de raciocínio que já vem de há nem sei quantos anos. Ela dava-nos essa liberdade de nos podermos expressar. No liceu já não era assim. As professoras eram pessoas mais velhas, extremamente castradoras. Diziam que só havia uma linha de pensamento que era aquela e, se nós não fôssemos ao encontro daquela linha, se estivéssemos a fugir dali, era como se fôssemos malucos ou estávamos errados. Elas não faziam o esforço sequer de pensar “olha, talvez possa ser assim”. Essa formatação que existe é má para o jovem que quer começar a ler, porque o obrigam a olhar para aquilo com aqueles olhos, com os olhos delas, que são olhos que já vêm de há nem sei quantos anos. Mas o quê, falaram com o Pessoa? Perguntaram-lhe “olhe, ó Sr. Pessoa, era isto que queria dizer com este texto, com a Tabacaria?”, “Ah, era!”,  “Então pronto, é isto que vamos pôr nos manuais”. Ninguém lhes disse isso. Houve interpretações de pessoas, de eruditos, certamente, que levaram a que fosse elaborada uma linha de pensamento que é partilhada pelos professores. Não lhes tiro isso. Agora, quando um aluno interpreta as coisas doutra forma – se não tiver a dizer as coisas só por dizer, se não estiver a divagar só por divagar, porque fumou uma ganza no intervalo -, não quer dizer que aquilo esteja errado. Eu, como artista, dou toda a liberdade a quem lê os meus textos ou a quem vir as coisas que eu pinto, para interpretar aquilo da forma que acha que deve ser. Eu não posso ser castrador, porque isso é já estar a matar a arte. A arte vem desta interpretação dos olhos que a olham. Este sentimento de castração que os jovens experienciam na escola é mau e faz com que se crie uma antipatia muito grande em relação aos conteúdos. Se lhes dessem mais vezes a liberdade de interpretar, se calhar eles diziam que a leitura é fixe. Ou tu já vens com hábitos de leitura de casa e os teus pais são pessoas que leem e que te apresentam os livros desde muito novo ou então na escola vais criar antipatia [em relação aos livros]. Imagina, um miúdo que já não tenha hábitos de leitura claro que vai achar que está a ser obrigado a ver as coisas daquela maneira. 

Começaste o blogOs Filhos do Mondego”, em 2010, e hoje tens uma base sólida de milhares de seguidores no Instagram. Qual é que foi o papel da Internet enquanto plataforma de divulgação do teu trabalho? 

Não há mecanismos como as redes sociais para partilhar trabalho. Não pagamos – quer dizer, podemos patrocinar as nossas publicações e acredito que quem esteja a começar talvez precise de lá meter dinheiro para o conteúdo chegar a mais pessoas. Eu tive a sorte de ter começado em 2010 e de ter apanhado o início do Facebook aqui em Portugal. Eu já tinha uma conta desde 2007 mas, em 2010, com o blog, consegui associar aquilo ao Facebook e criar uma página. Isso foi-me trazendo leitores. Existe essa vantagem, porque a rede social é uma forma de fazeres publicidade sem pagares. Como estavas a dizer, também já tenho a minha base sólida de seguidores. Claro que eu posso fazer como outros autores que chegam ali e metem cem euros. Vai chegar a muito mais gente, mas que retorno é que eu vou ter? Se eu investir cem euros, quantos livros é que vou vender à pala disso? Dois? Três? Quatro? Não vou ter retorno financeiro ao fazer isso. Prefiro que seja assim. Se, entre aquelas pessoas que te dão mil likes, se cem ou duzentas te comprarem o livro, ótimo. Estes cem ou duzentos livros estão garantidos e é isso que nós queremos: transformar o like, que é uma coisa fácil, numa venda. Não podemos ser hipócritas e dizer o contrário. A ideia de ter mais seguidores é vender mais e é para isso que nós utilizamos a rede social. 

E quais são as desvantagens da Internet, nesse contexto?

Claro que existe o reverso da medalha. Passei por isso quando ainda estava a estudar em Coimbra. Houve pessoas que usaram conteúdo de um texto que eu escrevi sobre Coimbra [Coimbra dos amores, Coimbra dos doutores: obrigado] e andavam a fazer dinheiro com isso. Usaram parte do texto para estampar numas camisolas e tiveram retorno financeiro [com a venda]. Isso já pode ser considerado plágio. Eu poderia avançar com uma ação em tribunal, mas vou estar a chatear-me com isso? E ainda te digo outra: tive um problema com uma rádio, porque andavam a partilhar textos e frases minhas como se fossem deles. Estamos a falar de um meio de comunicação… Quando foram confrontados com isso, disseram que qualquer pessoa podia ter escrito aquilo. 

Mas não foi qualquer pessoa que escreveu.

Se qualquer pessoa podia ter escrito aquilo, porque não foram eles a escrever e fui eu? E, se fui eu, por que razão não tenho o direito a ter direitos de autor? Eu nem lhes estava a pedir dinheiro nenhum, nem lhes estava a pedir nada. A única coisa que eu lhes disse foi “por favor, respeitem o meu trabalho e, se o partilham, metem o meu nome, não usem como se fosse vosso. Não usem a frase e depois metam o nome da locutora, porque não foi ela que escreveu isso, fui eu”. Não lhes pedi dinheiro nenhum, nem os ameacei com nada, só pedi “por favor” e a resposta deles foi esta. Isto é inadmissível. É o mal do facto de o conteúdo ser público e estar numa base de dados gigante que chega a qualquer pessoa, a qualquer parte do mundo. Por vezes, se for preciso, é usado e nem te chega a informação de que assim foi. É uma falta de respeito para com o meu trabalho e para com o trabalho de qualquer artista, porque as coisas não surgem por geração espontânea. Qualquer um podia, efetivamente, ter escrito aquilo, é verdade. Basta uma pessoa ter capacidade para pensar e ter a possibilidade de usar as mãos, usar um computador, escrever e meter aquilo na Internet. Mas não foi qualquer pessoa, fui eu. Pronto, é o reverso da medalha. Nada a fazer. Até podes fazer printscreen, porque queres ter a imagem no telemóvel, mas quando a vais partilhar não custa nada identificares a pessoa. Não é nada do outro mundo e não é uma complicação assim muito grande, por amor de Deus. Perdes o quê, dez segundos a fazer isso? Nem tanto, pronto. Mas isso já vai da consciência de cada um – da sociedade e do cidadão comum de ter o poder de fazer bem ou mal. Está nas mãos de cada um. E tu, ou sabes viver em sociedade, seja no que for, ou não sabes. É isso.

Desde que te iniciaste enquanto autor no meio digital, em 2010, o que mudou?

Quando comecei, tinha o blog e, depois, o Facebook. Tinha muito poucas leituras e partilhas, ainda era tudo muito embrionário. Agora fazes uma publicação e tens milhares de gostos. E não falo só das minhas. Às vezes vejo qualquer publicação que vá mais ao encontro daquilo que as pessoas querem ouvir e acaba por ter milhares de gostos e de partilhas. Hoje em dia, isto está a tomar proporções mesmo incríveis, porque está toda a gente no meio digital, até os nossos pais e os nossos avós. Naquela altura [em 2010], não havia tanto disso. Isto está a tornar-se também numa selvajaria e vemos que as pessoas não sabem estar na Internet. Partilham conteúdos sem sequer se preocuparem donde é que aquilo veio. Depois tens a questão da desinformação que cada vez é mais gritante, as fake news, essas porcarias todas. As redes sociais são hoje usadas para fazer política, são usadas para fazer tudo. São uma ferramenta para tudo. Por vezes, apetece-me desligar, só que eu não o posso fazer. Farto-me de dizer isso… Agora, nesta altura do vírus, a estupidez é tão grande quando tu abres, às vezes, as caixas de comentários que tu pensas “o que é que eu estou aqui a fazer?” É um hospício dentro de um hospício. Nós já vivemos num hospício que é o mundo e, ali, parece um hospício mesmo daqueles que nós só vemos nos livros de quadradinhos. Lá está, as pessoas, ali, estão atrás de um ecrã e qualquer um diz uma porcaria qualquer e acha-se o melhor da cocada. Então, atira, atira, atira, atira e, depois, vêm outros que corroboram a estupidez que ele está a dizer. Às vezes, apetece-me mesmo desligar disto. Mas não posso. A partir do momento em que eu me desligar, estou feito ao bife, porque não tenho como comunicar com as pessoas e como comunicar o meu conteúdo. Mas, depois, há malta que tem milhões de seguidores e acha que aquilo acontece de um momento para o outro, criam um instagram só para fazer umas frases. E, depois, o que é que eu vejo? Andam todos a copiarem-se uns aos outros e não há uma ideia de individualidade. Abres uns, abres outros e parece que está tudo a dizer o mesmo. Não mudam a cassete. Isto parece-me um pouco aquela ideia de que os Pink Floyd diziam na canção The Wall, que é ser outro tijolo na parede e toda a gente quer fazer parte desta parede. Em vez de serem como os Pink Floyd, que diziam “não sejas outro tijolo na parede”, não, eles querem ser outro tijolo na parede. Parece que é tudo formatado e ninguém pensa em ser diferente ou em tentar fazer uma coisa diferente. As pessoas também vêm ter comigo – e eu tenho todo o gosto em falar com elas –, só que, às vezes, digo-lhes mesmo: “Roma e Pavia não se fizeram num dia”. Tens que trabalhar para fazeres alguma coisa. Irrita-me profundamente quando me vêm dizer: “partilha o meu conteúdo”. Não dizem: “olha, lê e, se gostares, partilha”. Não tenho problema nenhum em partilhar seja o que for, mas eu tenho que me identificar com o que partilho. Se eu não gosto, porque vou partilhar? O facto é que muitas delas fazem isto porque acham que vão fazer vida assim e que isto de ser escritor é “buéda” fácil. “Vou criar aqui umas frasesitas e, de um momento para o outro, vou escrever um livro e vou fazer muito dinheiro”. É uma ideia tão absurda que eu fico a pensar que não estão a fazer isto por amor à arte, entendes? É isso que me custa. Não é porque escrevem umas frases e têm um Instagram, onde até podem chegar aos milhões de seguidores, que vão conseguir viver da escrita. Hoje em dia, qualquer um consegue ter milhões de seguidores. Até consegues comprá-los. Falta essa individualidade às pessoas e falta-lhes o amor ao ofício. Falta o “eu estou a fazer isto porque gosto, porque é isto que eu quero fazer, porque é isto que eu faço bem”. Não. Fazem-no porque é fixe, é a hype. No início do Instagram, toda a gente comprava máquinas fotográficas de quinhentos, seiscentos, mil euros. Todos tinham uma máquina fotográfica e o meu primo, que é fotojornalista, fartava-se de dizer “então, mas agora toda a gente acha que vai ser fotógrafo ou quê? Compram uma máquina e já vão aprender a tirar fotografias?”. Depois, onde eu vivo, houve uma altura em que toda a gente tinha um labrador. Não havia outro cão. Mais tarde, uma pessoa casou-se e, logo a seguir, casaram-se dez de seguida. Isto vai de modas. Fartávamo-nos de nos rir em relação a isto e o meu primo dizia “olha que há de chegar a altura em que vão achar que conseguem fazer o mesmo que tu fazes”. E pronto. Acabou por chegar. 

E o que é que tu pretendes que os teus leitores retirem daquilo que tu escreves?

Eu quero dar-lhes liberdade para sentirem o que quiserem. Podem sentir-se tristes, podem sentir-se alegres, podem sentir-se em confronto com as próprias personagens. No Deve Ser Primavera Algures baseei-me em factos reais, numa história daqui da terra. Há ali muita coisa que segue essa linha da história real, mas as pessoas podem interpretá-la. Houve pessoas que não gostaram da personagem do Florindo [uma das personagens principais] e, quando o estava a escrever, acho que também nem sempre gostei dele. Há outras pessoas que gostam mais doutra personagem e que vão buscar idiossincrasias que eu nem sequer tinha imaginado. É normal, faz parte dos olhos do leitor e da forma como lê e interpreta. Gosto de dar essa liberdade e quero que as pessoas tirem prazer da leitura.

A história Deve Ser Primavera Algures é integralmente real?

A espinha dorsal do livro é baseada em factos reais. Vim a descobrir, mais tarde, já o livro tinha sido lançado, que a realidade ainda é bem pior do que a ficção. A mãe desse meu livro tem dois filhos, mas tinha quatro. Tinha mais duas filhas que morreram num fogo. O marido ainda tentou ir salvá-las e não conseguiu. Salvou apenas os outros dois. Não sabia disso e por isso é que ela [a mãe] ficou assim. O livro, por si só, já acaba por ser um pouco violento, mas é uma história muito mais bruta. É horrível. 

O novo livro de Pedro Rodrigues foi escrito durante o confinamento.
Fotografia de: Inês Sousa Martins

O que podemos esperar do Alice do Lado Errado do Espelho?

O Alice contém sete contos que eu escrevi durante o confinamento e o ponto central é esta questão do vírus. Comecei a escrever poeminhas que se transformaram em contos.  E o que é que eu tentei fazer? Tentei transformar as personagens clássicas em personagens do dia a dia. Começava a imaginar as personagens dos contos dos irmãos Grimm, por exemplo, hoje em dia. Como é que seriam se fossem pessoas normais? Eles eram, de facto, pessoas normais no tempo deles, mas eu imaginava-os nesta altura. A Cinderela é uma mulher a dias, por exemplo. Uma miúda nova e normal que sempre gostou de fazer aquilo que faz. Depois, tens a Bela Adormecida, uma miúda que nasceu no campo, mas que sempre quis ir para a cidade e tornar-se costureira. O pai queria que ela fosse para Ciências Políticas – aí tem um pouco da minha história pessoal também no meio. Ela vai para a cidade e acaba por seguir aquilo que quer. E, depois, acontece esta questão da pandemia. Nós estamos habituados a que as histórias clássicas nos deem a ideia de que as princesas precisam dum príncipe que as salve e o que é que eu quis mostrar com este livro? Que não é preciso. Tentei desconstruir essa ideia que vem de trás, lá do século XIV ou XV, em que o mundo era um mundo de homens. E não é. Assim como, por exemplo: porque é sempre o Lobo Mau o mau da fita? Na minha história do Capuchinho Vermelho, o Lobo Mau conta a história dele e conta por que razão é que o veem como o mau da fita. Ele é um entregador da Uber Eats. Penso que o livro está extremamente engraçado e toca em pontos nevrálgicos da sociedade de hoje em dia. Estamos habituados a um tipo de histórias e estas são histórias viradas do avesso. Qual é que foi o grande problema [em relação ao livro]? A palavra “pandemia”. Ou seja, as pessoas, apesar de tudo, estão fartas de ouvir falar em pandemia, em vírus, vírus, vírus. Nós somos fulminados, todos os dias, com informação sobre o vírus e sobre a pandemia e, apesar de precisarmos disto – porque eu acho que as pessoas precisam de se aperceber de que o mundo não é só o umbigo delas, que todos fazemos parte deste ecossistema e se, realmente, um de nós não fizer a sua parte, mete em causa todos os outros -, as pessoas estão um bocado fartas e querem desligar um pouco. Por isso é que, por exemplo, durante o confinamento, eu pegava em livros e desligava a televisão, porque era só pandemia e vírus, gráficos disto e nem sei o quê. O livro [Alice do Lado Errado do Espelho] surge um pouco nesse âmbito, mas eu e o meu editor tentámos, e apesar de o ponto central ser o vírus, fugir dele na capa, no título, nessas “coisadas” todas.

Ainda és muito jovem, mas já tens um grande currículo na área da Literatura. Qual é a próxima coisa que queres fazer?

Sinceramente, gostava de ganhar prémios. Tenho muito azar quando concorro. Ainda agora, durante a quarentena, concorri a um prémio e o meu texto não foi sequer lido por questões técnicas. Disseram-me que o trabalho não tinha ido paginado. Até fui ver o ficheiro que eu tinha enviado e estava lá tudo, com as páginas todas numeradas. Fiquei um bocado chateado e disse-lhes “uma coisa era vocês dizerem-me que eu não ganhei porque não tenho qualidade, agora estarem-me a dizer que nem sequer leram, pá, vão passear”. Mas gostava de ganhar um prémio ou outro, ou de receber uma menção honrosa, isso já me deixava extremamente feliz. Gostava de ter os livros editados e traduzidos noutros países. Se me perguntares qual é o meu grande sonho, é entrar no mercado americano, porque me garantiria uma estabilidade financeira que me possibilitaria dedicar-me mesmo só à escrita. Neste momento, também tenho que fazer traduções. É como te digo: eu adoro aceitar todos os desafios possíveis, só que essa entrada no mercado americano e noutros mercados um pouco mais robustos dar-me-ia a possibilidade de dizer “bem, isto agora já é uma coisa estável” e de apresentar essa ideia aos meus pais. Era a calma depois da tormenta. Não é que agora não esteja calmo, como já disse, vou tendo trabalho e dá para viver disto. Mas gostava de chegar lá. Ter os livros traduzidos é sempre um prestígio muito grande, é chegar mais longe, porque a ideia de criar é fazer com que a nossa criação chegue o mais longe possível. O António Lobo Antunes costumava dizer que é mais pelo dinheiro do que pelo prestígio, só que é sempre bom ter prestígio, não é? 

Também falas desse prestígio enquanto forma de provar às pessoas que se pode singrar com esta profissão, para eliminares preconceitos que sentes na tua esfera mais próxima?

Sim, isso também. Sabes que é muito difícil aliar as duas coisas – aliás, as pessoas dizem que é mesmo impossível seres um autor que venda muito e seres um autor bom e prestigiado. Aqui, em Portugal, dizem que é impossível. Eu não acho.

Artigo revisto por Ana Rita Sebastião

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Uma pessoa de muitas paixões. Por isso, licenciou-se em Informação Turística, está a terminar o Mestrado em Jornalismo e quer tirar Doutoramento em História Contemporânea. A ideia de ter uma só carreira durante a vida toda aborrece-a. A Inês gosta de escrever, de concertos, dos The Beatles, de Itália, de conduzir e dos seus cães. Sonha em visitar, pelo menos uma vez, todos os países do mundo.

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