Opinião

Ser mulher

Ser mulher nunca foi fácil. Que me perdoem os que acham que aqui vai mais um discurso de vitimização, desta vez vindo de uma rapariga de 19 anos ainda em formação. Não vos vou mentir e dizer que estão totalmente errados. Talvez vos traga, sim, mais um discurso de conscientização, onde o foco são as mulheres e aquilo que passamos diariamente às mãos de uma sociedade intrinsecamente machista. 

Terão de concordar comigo quando digo que falar de nós, mulheres, é falar de uma das coisas mais bonitas que alguém lá em cima criou. Todos nós temos mulheres importantes na nossa vida e mulheres por quem daríamos a nossa vida. Reconforta-me o coração ao saber que até o ser mais ruim da terra teve uma mãe, que o trouxe ao mundo, e que, assim espero, lhe tenha tentado dar o melhor. 

No entanto, este artigo não é somente dedicado às mulheres que representam um papel na vida de alguém, seja ele o de ser mãe, irmã, avó ou tia. Quero alcançar algo para além disso. Quero fazer o impossível e ajudar a que as pessoas entendam que devemos ser amadas e respeitadas pelo simples facto de sermos mulheres. 

Apesar da minha tenra idade, episódios caricatos e, diria até, assustadores são aquilo que não me falta quando o assunto é não ser respeitada só porque tenho uma vagina no meio das pernas. 

O primeiro de que me lembro e que, sem dúvida, foi o que mais me marcou, aconteceu quando tinha apenas 14 anos. Eram 21 horas e saí para ir ao supermercado em frente à minha casa. Assim que pus o pé na rua percebi que o homem que se encontrava à esquina tinha vidrado os olhos em mim e senti-me logo desconfortável. No regresso a casa, esse mesmo homem, que tinha, de certeza, os seus 30 anos, seguiu-me, agarrou-me pelo braço e perguntou se me podia conhecer. Fiquei em pânico e fugi até ao meu prédio. Lembro-me de contar o sucedido à minha mãe e de ela me dizer que não devia ter saído àquela hora. Lembro-me também de ficar sem reação à resposta dela. Não devia de sair às 21 horas porque alguém me podia fazer mal? Afinal, era eu que tinha de mudar o meu comportamento e a minha vida e não o homem que me agarrou e que não soube respeitar o meu espaço? Estranho.

Com o passar dos anos vários outros episódios foram surgindo. Comigo ou com as minhas amigas, sozinha ou acompanhada, passei a perceber que o problema não estava em nós, mulheres, mas sim nos homens, mais velhos ou mais novos, que não sabiam como se comportar na presença do sexo feminino. Desde piropos e assobios a perseguições em plena luz do dia, à medida que fui crescendo, apercebi-me de que a minha vida não seria fácil pelo simples facto de não ter nascido homem. 

Ao refletir um pouco sobre a situação, cheguei à conclusão de que este não é um problema que só surgiu agora, mas é sim um tema que só começou a ser denunciado e falado recentemente. E a raiz do conflito encontra-se exatamente no facto de nós, que lidamos diariamente com isto, não falarmos, seja por vergonha, medo de sermos incompreendidas ou acharmos que, simplesmente, não vale a pena. Confesso que já me posicionei na opção do não valer a pena. Sinto que estas atitudes já estão bem grudadas na nossa sociedade e que falar delas já é o cabo dos trabalhos, quanto mais tentar mudá-las. 

Apesar de serem maioritariamente os homens a demonstrarem um lado machista, a verdade é que também as mulheres, que foram assim educadas, se mantém caladas e acabam por achar “normal” serem vistas como o sexo inferior, desprotegido e sem voz. Ora, isto de normal não tem nada e, como tal, sinto que é crucial darmos a devida importância a estes momentos para que se tornem assuntos discutidos num futuro próximo. Penso que a solução está na educação e na forma como os pais abordam este tema junto dos seus filhos. Eu, por exemplo, com menos 10 anos que o meu irmão, sempre senti diferenças na forma como fui educada. Quero acreditar que não foi propositado nem foi apenas por eu ser uma rapariga e ele um rapaz. Mas, no fim das contas, sempre senti que a educação é diferente entre sexos: as raparigas são educadas para se protegerem, mas os rapazes não são educados para que mantenham uma postura correta perante o sexo oposto. 

Talvez esteja a generalizar ou até mesmo a exagerar, mas mentiria se dissesse que nunca senti essa distinção. Até porque quando, infelizmente, acontecem episódios parecidos ao que contei anteriormente, a “culpa” é sempre atribuída a mim, mulher. E é aí que surgem perguntas do tipo: porque é que foste sozinha para casa àquela hora? Porque é que saíste tão tarde da faculdade e andaste de transportes à noite? Porque é que te vestiste assim para ires sair? Segue a resposta que dou sempre: bem, talvez porque eu mando na minha vida e nenhum desconhecido tem de interferir nela ou no meu espaço.  No entanto, interiormente, não me sinto assim tão confortável com isso e dou por mim a ter medo de andar na rua à noite sem estar acompanhada. Homens, confessem: nunca passaram por isso, pois não?

Para além do espaço pessoal que as mulheres veem constantemente invadido, há outra questão que me perturba – o facto de a mulher solteira não ser respeitada da mesma forma que a mulher comprometida. Talvez esteja, mais uma vez, a generalizar, mas julgo ter motivos para isso. Há um compromisso estranho entre os homens, onde eles se respeitam mais entre si do que às mulheres que os acompanham. A questão que coloco é: porque é que quando um homem me aborda e eu digo que não estou interessada em conversar ele insiste em incomodar-me, mas se eu disser que tenho namorado ele recua? Porque é que a minha decisão de não querer falar porque não estou interessada não é válida para o sexo masculino, mas a de eu assumir que estou comprometida (mesmo não estando), já é aceite? É alguma regra do “boy code” que eu desconheço? 

Não minto quando digo que poderia escrever páginas e páginas sobre este assunto que me perturba tanto, ainda mais quando sei que há mulheres, que passam pelo mesmo que eu, e que pensam tal e qual como os homens machistas que predominam na nossa sociedade. 

Felizmente, mulheres, nem tudo é mau e existem sim Homens que nos respeitam por aquilo que somos e não por aquilo que representamos na vida deles. A chave está em educar os restantes – avós, pais, irmãos, filhos ou netos – para que percebam que nós também gostamos de apanhar um táxi tranquilamente, sair à rua e regressar às 5 da manhã descansadas, vestirmos saias e andarmos em tronco nu sem sermos comidas com os olhos… Enfim, todo um mundo utópico que ainda está longe de ser alcançado. Esperaremos, pacientemente, por isso numa nova reencarnação. 

 Revisto por Miguel Bravo Morais 

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