Música

“É um ENTERRO feliz, como acreditamos que deve ser”: os PAUS chegaram ao fim. Tragam Flores! 

“Uma bateria siamesa, um baixo maior que a tua mãe e teclados que te fazem sentir coisas”, foi assim que conhecemos os PAUS há quase 18 anos, a 29 de novembro de 2008, no número 211 da Avenida da Liberdade. Em 2026, a banda escreve o seu fim, com data marcada para 29 de novembro.

O grupo, formado por Makoto Yagyu, Hélio Morais, Fábio Jevelim e Quim Albergaria, construiu um percurso entre o rock, a experimentação sónica e batidas que refletem um Portugal diverso e em constante evolução, trazendo uma nova intensidade e liberdade criativa ao panorama musical nacional, ajudando a redefinir o que poderia ser feito por cá.

Fonte: Frederico Rompante

Com apenas baixo, teclados e a sua mítica bateria siamesa, a banda lançou sete álbuns – Paus (2011); Clarão (2014), Mitra (2016); Madeira (2018); YESS (2019); Paus e O Caos (2023) e o mais recente ENTERRO (2026) – e quatro EPs – É uma Água (2010); Estamos Juntos (2012); Bandeira Branca / Negro (2014) e LXSP (2019) –, que os levaram a pisar centenas de palcos pela Europa, América do Norte e América do Sul, provando que o rock experimental cantado em português pode chegar muito longe.


O Disco

Produzido nos estúdios HAUS e editado a 13 de março, ENTERRO reúne sete canções que preservam a essência da banda, onde abordam “a despedida, a transição e a passagem de testemunho” de forma simultaneamente bruta e suave. 

O disco conta com a participação de Dinho Almeida (Boogarins) na faixa Vida é Passagem, com ligação direta ao EP LXSP, na faixa Corpo Sem Margem – da qual Dinho faz parte – e também à Faca Cega, do álbum Madeira.

Fonte: Instagram (@pausmusic)

Também na primeira faixa, Ficamos por aqui, encontramos o verso “o fim é um princípio qualquer”, presente em MUITO MAIS GENTE, sendo o início deste fim um regresso ao primeiro disco.

Dizer adeus raramente soa tão bem. Em ENTERRO, não nos entregam um lamento, mas sim uma celebração, um Dia Feliz. Esqueçam a reverência silenciosa ou o luto solene: este é um disco para ser suado, cantado e brindado, sem choro, nem dor.


Entrevista a Hélio Morais

A ESCS Magazine teve a oportunidade de conversar com Hélio Morais e registar algumas das suas “últimas palavras” acerca do final da banda.

Beatriz Mendonça (BM) – “Enterro” marca o fim dos PAUS. Qual o sentimento que paira na banda neste momento e como é a sensação de fechar este capítulo das vossas vidas?

Hélio Morais (HM) – Leveza. Tomar esta decisão, de dar por concluído o ciclo de uma banda que tanto mundo nos trouxe, com a qual tanto experimentámos, trouxe-nos leveza. Não há expectativas, não há pressões, não há nada de stressante associado. Passou a ser uma banda que se está simplesmente a celebrar e a escolher terminar de forma bonita e viva.

BM – O título do disco é cru e definitivo. Foi uma forma de garantir que não haveria espaço para ambiguidades ou regressos inesperados?

HM – Sempre gostámos de coisas assertivas. A maioria dos nossos discos tem nomes curtos, diretos – PAUS, Clarão, Mitra, Madeira, YESS -, sendo que «Paus e o Caos» foi exceção. E não há melhor palavra para definir o que estamos a fazer. É um ENTERRO, é um ponto final nas atividades enquanto banda que grava discos e os toca ao vivo. Mas é um ENTERRO feliz, como acreditamos que deve ser. A ideia é celebrar a vida e não carpir o seu fim.

Fonte: Frederico Rompante

BM – Este álbum tem apenas sete canções, curiosamente o mais curto. Foi sobretudo uma escolha prática ou houve também a intenção de criar algo simbólico, a ideia de um ciclo completo, para marcar a despedida?

HM – É o disco mais curto, mas só em número de músicas. Em termos de tempo, está alinhado com boa parte dos discos, mas, na verdade, é um disco de uma só música. Acabámos por dividir essa música em sete capítulos, mas para nós é tudo a mesma música. O número sete foi uma coincidência, sem numerologia associada.

BM – Em comunicado dizem: “Desde o berço, a nossa natureza foi uma pergunta e agora na hora da cova vamos felizes, mas ainda sem resposta. E está tudo bem”. Teriam feito algo diferente ao longo destes anos? Ficou algo por fazer? Qual o balanço que fazes?

HM – A vida traz-nos muitas coisas boas e muitos obstáculos. Refletir sobre decisões tomadas e chegar à conclusão de que hoje talvez tivessem sido diferentes faz parte de crescer, de ganhar maturidade, mas não sentimos arrependimento. Fizemos coisas incríveis, e também elas foram consequência das boas e más decisões que tomámos. Por tudo isso, consideramos que é um exercício que não nos traz grande motivação. As coisas são como são, fomos muito felizes, fizemos coisas que não fizemos com nenhum outro grupo de pessoas ou bandas. Estamos realizados, na medida em que haveria sempre mais e diferente por explorar, mas fizemos mais do que alguma vez sonhámos.

BM – Em 2008/2009, surgiram num momento em que, internacionalmente, bandas mais experimentais, como os Animal Collective, estavam a atingir públicos mais amplos, e a cena indie/alternativa portuguesa se expandia. Olhando para trás, desde o EP de estreia “É uma água”, qual consideras ser a maior marca que deixam na música portuguesa?

HM – Essa é uma pergunta cuja resposta só pode vir de fora. O que sabemos é que sempre nos incomodou a ideia fatalista de não ser possível fazer-se isto ou aquilo por sermos portugueses e estarmos no “cú” da Europa. E, nesse sentido, desejamos que a marca que possamos deixar seja a de que é possível. Tentámos coisas que não conseguimos e tentámos muitas outras que deram certo. É possível estar-se longe do centro da Europa e viajar, tocar, ter público… Se tivermos deixado essa ideia, já ficamos felizes.

BM – E que conselhos deixas aos “putos” a quem “dão a bola”, os que “levam a tocha agora”?

HM – É um mero exercício lírico. Na verdade, os “putos” são sempre quem tem a tocha e quem sabe truques novos com a bola. Num sentido metafórico é uma espécie de despedida, sabendo que a música feita fica bem e melhor ainda do que ficou com o nosso contributo. Tivemos a relevância que tivemos, nuns períodos mais que noutros, mas o todo não precisa de nós. Há um ecossistema de bandas e artistas absurdamente talentosos que mantém e manterá a nossa cultura viva.

BM – Já se encontram na vossa última digressão pelos palcos nacionais e não só. O que podemos esperar destes concertos?

HM – Leveza e «Bacanidão». Velho e novo. Bruto e suave. Sorrisos e algumas lágrimas. Vida.

BM – Há alguma ideia de eternizar esta despedida em disco ou vídeo, ou querem que a sua energia só viva na memória de quem estiver presente na “marcha fúnebre”?

HM – Não temos nenhum outro plano senão terminar bem, com música nova, espetáculo novo, liberdade. O resto diz respeito à forma como pode impactar em cada qual.

Fonte: Inês Silva

BM – “Não há cá choro nem dor, só há copos no ar…”. O que esperas sentir quando as baquetas da mítica siamesa pousarem pela última vez a 29 de novembro de 2026?

HM – Posso responder-te dia 30 de novembro?

BM – Sim [risos]. “O [vosso] trabalho aqui ’tá feito”. Qual a mensagem que deixam para quem vos acompanhou ao longo destes 18 anos?

HM – Obrigado, obrigado, obrigado! Que sorte a nossa.


Tragam flores!

E, sim, a bateria siamesa mantém a pujança de sempre, os teclados continuam a fazer-nos sentir “coisas” e aquele baixo continua a ser maior que as nossas mães!

Ao longo deste ano, a banda vai percorrer salas e festivais em Portugal e não só, numa “marcha fúnebre” que assinala o fim de 18 anos de atividade. 

O último disco é, inevitavelmente, um convite ao movimento – com o qual já estamos familiarizados – mas é ao vivo que estas e outras canções prometem a sua redenção final.

Tragam flores! Os PAUS chegaram ao fim. ENTERRO, assim como toda a discografia da banda, ficará eternizada nas várias plataformas digitais, e, futuramente, em vinil.

Fonte: Instagram (@pausmusic)

Fonte da Capa: Frederico Rompante

Artigo revisto por: Eva Guedes

AUTORIA

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A Beatriz não vive sem música e tem uma playlist para todas as ocasiões. Entrou na Magazine para escrever sobre quem mais gosta de ouvir e, após um ano como redatora de Música, aceitou o desafio de ser editora no mesmo ramo, mas não se ficou por aí! No futuro, espera vir a unir o gosto pela escrita e pela música à Publicidade e ao Marketing, mas, por enquanto, é Vice-Diretora da melhor revista de Benfica, a ESCS Magazine.