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De quem é a televisão pública?

“Informação, informação, informação”; é este, segundo o director de programas da RTP3, Daniel Deusdado, o lema seguido pelo canal. Nascido – ou, melhor dizendo, reencarnado – no dia 5 de Outubro do presente ano, o mais recente canal da Rádio e Televisão de Portugal é, nem mais nem menos, uma reconstrução do anterior canal RTP Informação. Recorde-se que, em 2011, o dito canal havia já visto o seu nome alterado para o supracitado – nessa altura, tinha como nome RTPN.

Após despender algum tempo a acompanhar a programação do canal, posso confirmar o carácter essencialmente informativo da RTP3. Os noticiários são regularmente actualizados ao longo do dia, desde as emissões pontuais aos três principais noticiários: o Jornal do Meio-Dia, o 18/20 e o 24 Horas. Além dos noticiários, a RTP3 aposta em outras temáticas: Justiça em O direito e o avesso, Economia em Os números do dinheiro, Artes em Horas extraordinárias, arquitectura em Arq3, tecnologia em Tech3, política em Política Sueca, futebol em Grande Área, contando ainda com a continuidade do programa Trio de Ataque, entre outras.

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Apesar da notável diversidade de conteúdos transmitidos, muitos dos quais não referi, naturalmente, aqui, é mesmo na informação que se verifica a maior aposta, noticiando acontecimentos pouco ou nada visíveis nos restantes canais, sendo que Madeira, Açores e até o continente africano possuem, diariamente, o seu próprio espaço informativo na grelha.

Esta mudança, inserida por entre outras nos vários canais da RTP, resultou da mudança na equipa responsável pela informação, dirigida agora por Paulo Dentinho, que ocorreu em Fevereiro de 2015.

Os conteúdos transmitidos pelo novo canal parecem ser de qualidade, imparciais, diversos e apelativos. Melhores ou piores que os anteriores? Não o sei dizer, mas o director de informação vinculou no seu discurso a existência de uma mudança. A nível gráfico é, pelo menos, visível a todos, o esforço que a estação fez por redefinir a sua identidade: é simples e moderno, e adopta um formato de programação muito actual, tentando-se manter a par da constante evolução no mundo das telecomunicações. O novo branding sugere uma continuidade daquilo que já é feito nos outros dois canais, levando mesmo o publico a achar que se trata de um novo canal, quando apenas se trata da remodelação de um já existente. É uma excelente estratégia de marketing, sim, mas possui ao mesmo tempo uma tremenda falha. A RTP1 e a RTP2 são dois canais ao acesso de todos os que possuam os requisitos mínimos para usufruir do serviço de televisão pública, agora fornecido através da TDT. A RTP3, ao contrário do que o nome nos levaria a pensar, não se encontra na mesma situação. A sua transmissão limita-se à televisão por cabo. A mudança de nome acaba, assim, por não se reflectir numa verdadeira mudança, o que já gerou muita contestação, não fosse a RTP uma estação pública, dependente essencialmente do Estado, que é como quem diz, dos impostos que pagamos para o Audiovisual. O interesse na passagem para sinal aberto é partilhado pela própria estação televisiva e remonta já a 2013. A proposta para que tal acontecesse foi chumbada pelo Conselho Geral Independente (CGI) por condicionalismos tecnológicos, e por uma questão de custos, que poderiam estar na ordem dos 12 milhões de euros para que tal se verificasse.

A RTP3 não é, como se sabe, o único canal por cabo da estação. A este juntam-se RTP Memória, RTP HD, RTP Açores, RTP Madeira, RTP África e RTP Internacional. A RTP Informação tinha, em Abril de 2014, 0,8% de Share, à frente da CMTV (0,5%), mas atrás da SIC Notícias e da TVI24, canais informativos das estações concorrentes. Reflexo, aliás, daquilo que se verifica na disputa de audiências entre os canais abertos das respectivas estações televisivas. Será que a RTP3 vai conquistar o seu espaço?

Não deixa de gerar confusão que a RTP tenha “criado” um novo canal, quando ainda bem há pouco tempo, em meados de 2012, se falava na concessão da estação e no possível fim da RTP2 por falta de verbas. O dinheiro ora desaparece, ora se estica e multiplica, não só na RTP, claro, mas em tudo o que são contas públicas, de uma forma quase mágica. A ironia maior no meio de tudo isto é que, a rondar aquela mesma altura, a RTP iria adquirir os direitos de transmissão da UEFA Champions League – numa clara luta por share que apenas deveria existir entre privados. A RTP apenas se deve preocupar com passar os conteúdos de interesse público, da maioria, e apostar naquilo que é nacional, que é como quem diz apostar em outro tipo de conteúdos, ou, dentro do desporto, adquirir os direitos da Liga Portuguesa de Futebol, que nenhuma estação com canal aberto viria a adquirir.

Fica, de resto, e como veredicto, a dúvida de se seria necessária a existência de tantos canais públicos, que acabam por não ter um share muito elevado, caindo na redundância. Julgo que não: a televisão pública não precisa de tentar acompanhar a vasta oferta das estações privadas nem beneficia com isso. E mais, a dúvida sobre aquilo que se entende por serviço público. Quem tem direito a ver um canal pago por todos? Se há um novo canal público, que venha ele, se realmente tem de existir, a público.

O Frederico Mendonça escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

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