Opinião

Fazer como no Senegal

No outro dia, estava eu a aproveitar o meu domingo para fotografar a bela Lisboa, na igualmente bela companhia de mãe e irmã, quando, em Santa Lúzia, fomos interpelados por um vendedor de bugigangas africano. Nada de anormal até aqui. Demonstramos serenamente o nosso desinteresse pela compra daqueles artigos, recusa à qual se seguiu um pequeno diálogo estabelecido pelo vendedor. Questionou-nos se eramos de Lisboa. Mãe: “sim, ‘eles’ não. “São seus filhos?”, perguntava. Disse-nos que era do Senegal e que vivia cá há alguns anos, quantos não me consigo lembrar. “E gosta de cá viver”, perguntamos-lhe. Afirmativo. Acrescentou que tinha família em Paris, onde se falava francês, tal como no seu país de origem. A conversa extendeu-se por mais alguns instantes e à mesma seguiu-se uma generosa oferta de um colar e de uma pulseira, para a irmã e para o irmão, respetivamente – “para dar sorte”, dizia-nos. Tocados pelo ato, tentamos pagar-lhe. Recusou: No CRÓNICA - Fazer como no Senegal - Frederico Mendonça - CORPO DO ARTIGOSenegal não funciona assim, explicou-nos, quando se oferece algo, a outra pessoa aceita e não dá nada em troca. Era verdade? Quem sabe, quem sabe num recanto daquele país africano, provavelmente não se aplicaria na sua generalidade, ou talvez sim, são culturas – não importa. Acabou por aceitar uma oferta da nossa parte, mas na condição de nos oferecer outra pulseira, desta feita, à mãe.

A atitude em si não é assim tão estranha, várias são as pessoas que de certo viveram experiências semelhantes, e a precisão dos acontecimentos não é relevante, mas retirei deste episódio algumas considerações. Abriu-me os olhos, o meu horizonte expandiu-se, sinto-me mais homem, melhor pessoa, mais sábio. Numa fase da minha vida em que deixei de acreditar na bondade e entrega das pessoas, foi preciso um completo estranho mostrar-me o contrário. Poderiam referir as inúmeras ações de voluntariado que vão ocorrendo, claro, mas em grande parte são meras recolhas, impessoais, que caem no terrível rótulo de ação solidária, como se (e digo isto sem tirar qualquer valor a este tipo de eventos, que, aliás, apoio veemente) esta fosse a boa ação do mês que agendamos uma vez por outra para não nos sentirmos tão más pessoas. O ideal era sermos assim diariamente.

Falta-nos um pouco isto, dar sem querer nada em troca. Dar colares e pulseiras? Não necessariamente. Dar amor. E por mais utópico que isto pareça, é fácil. Os acessórios que recebemos, destinavam-se a dar sorte. Dariam, de facto, sorte? Não sei, não os encaro como amuletos, mas cada vez que os vejo penso neste episódio. Boa sorte, amigo, que nos encomendou na sua paz de espírito. Boa sorte a todos aqueles que sabem partilhar. “Boa sorte” – quantas vezes temos nós a capacidade de dizer isto? É tudo tão garantido, são tantas as rotinas, tantas as facilidades, tanto o distanciamento entre as pessoas, que nos esquecemos de dizer boa sorte. Boa sorte, nem que seja porque a vida não é fácil, boa sorte para seres feliz, boa sorte com os teus problemas, boa sorte, não te conheço, mas sei que eles existem.

Não esqueçamos os bons dias respeitosos pela manhã. Está na hora de a pergunta “tudo bem contigo?” deixar de ser uma retórica. Verdade seja dita: quando proferimos estas palavras, não contamos com um “não, nem por isso… estou cheia de problemas e preciso de quem me oiça, me apoie e me aconselhe” – oh bolas, porque é que fui falar com esta chata? Não. Sejamos amigos, preocupemo-nos uns com os outros, por mais fatela que isto pareça ser. Não sabes quando precisarás do teu vizinho. Evitemos confusões desnecessárias. Procuremos todos os dias fazer uma pessoa feliz – às vezes nem é preciso muito. Façam-no sem arrependimentos, façam-no porque a vida é curta demais para a desperdiçarmos com dúvidas e divergências. A vida passa, e por vezes nem notamos a tempo o quão erradas são as nossas atitudes. Chega o tempo em que percebes que o mesmo foi perdido no teu egoísmo.

Aprendamos a viver ao modo do Senegal, ou como lhe quiserem chamar.

 

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