Made In ESCS

Nuno Viegas: o ex-escsiano que faz parte do Fumaça

Nuno Viegas é natural da ilha de Santa Maria, nos Açores. Tem apenas vinte e dois anos e integra a equipa do Fumaça, um órgão de comunicação social independente.

Enquanto ex-escsiano, garante que o fator de distinção da ESCS é a democratização inerente ao acesso às ferramentas de trabalho, o que permite que os estudantes usufruam delas, construindo, com o apoio da instituição, organizações autónomas, por esta contidas, mas não controladas. 

Foram os dias e noites que deixei nos núcleos que fizeram a diferença; e esse é um espaço de liberdade e de criação raro no universo académico que a Escola deve proteger e fomentar, afirma. 

Admite que o corpo docente da ESCS inclui grandes profissionais e professores, destacando Mário Mesquita, Alexandre Brito, Francisco Sena Santos e Vera Moutinho. Conta que foram janelas para o mundo do jornalismo, indo muito para lá da teoria. Acrescenta ainda que Jorge Martins Trindade, Filipa Subtil ou Maria Inácia Rezola o conseguiram manter interessado nas aulas teóricas, por tratarem os seus alunos como iguais intelectualmente, dispondo-se a debater e a argumentar com eles. Voltaria hoje às suas salas de aula, sem pensar duas vezes.

Conta que gostava de ter corrido todos os núcleos, mas que, por se ter distraído, apenas integrou a ESCS FM, o E2 e a ESCS Magazine. Ainda assim, garante que olhou sempre com muito carinho para todos os outros.

É com toda a certeza que descreve a ESCS através da palavra escadaria, por ter tido a hipótese de publicar trabalhos menos bons, dia após dia, em sítios onde poucas pessoas os iam ver. “Há mundos de desastres jornalísticos meus nos arquivos dos núcleos da ESCS. Se hoje consigo escrever algo sequer medíocre, é porque me deixaram bater com a cabeça na parede tantas vezes quanto me apeteceu, assume.

Nuno Viegas com parte da equipa da ESCS FM, durante as autárquicas, em 2017. Fotografia cedida pelo próprio.

Para além disto, é importante referir que Nuno começou a trabalhar a tempo inteiro ainda antes de ter terminado o curso e, portanto, o processo de transição para o mercado de trabalho foi cansativo, doloroso, desgastante e um pouco abrupto, refere.

Tive de saltar muito rápido de falar na emissão online da ESCS FM para editar o noticiário em FM, enquanto estudava para fazer o meu último semestre por exame. Foi stressante, mas sobrevivi.

Depois de ter integrado a equipa fundadora da Rádio Observador, no seu último semestre de Licenciatura ingressou no Mestrado em Literaturas e Culturas Modernas na Universidade NOVA de Lisboa. Refere que exercer jornalismo não era o seu sonho de criança, mas que é hoje parte do seu percurso, não significando que seja apenas parte do seu percurso. Acrescenta que gosta muito de fazer jornalismo de investigação, de contar histórias com tempo e de intervir socialmente através do seu trabalho, mas garante que existem muitas outras expressões profissionais que lhe dão prazer.

Não tenho a certeza de que os meus pais já me tenham perdoado por mudar de ideias sobre tirar Medicina, confessa. 

Para Nuno, a ESCS oferece um mundo de equipamento – por acréscimo aos núcleos, estúdios, técnicos e armazéns – que permite que os alunos o usem para criar quase tudo o que lhes apeteça, tendo ainda um corpo de pessoal não docente de cuja boa vontade admite ter sempre abusado para lá do razoável ( “o que dizer de Nuno Portugal? ).

Conclui que o projeto de que mais gostou de fazer parte foi a Carta Aberta: um pedacinho de anarquia artística que ajudei a criar no seio dessa bonita rádio estudantil que me deu o meu primeiro noticiário, afirma Nuno, enquanto ex-membro que tem um carinho pela ESCS FM.

Nuno com a ESCS FM, em 2018. Fotografia cedida pelo próprio.

Visto já ter sido jornalista na Rádio Observador, sente que a maior diferença para o jornalismo que exerce atualmente é o tempo. Conta que na Rádio Observador fazia atualidade, estava no ar a cada meia hora, investigava, escrevia e publicava no espaço de minutos, com processos de edição curtos, condensado pela urgência do “última-hora”. Não gosto de fazer atualidade, por defeito pessoal; e, profissionalmente, no atual ambiente das grandes redações portuguesas, não sinto que seja um espaço onde consigo cumprir devidamente as minhas obrigações deontológicas”. 

Neste momento, Nuno é jornalista no Fumaça, um jornal online independente. Apresenta como limitação os factos de a equipa ser pequena e de não gostar de tomar atalhos, só publicando uma investigação quando ficam sem perguntas para fazer. Assim sendo, exigem que as coisas se façam bem, tendo como consequências um trabalho mais demorado e muito mais caro. Descreve este jornalismo como lento.

Há forma de me aliviarem as dores, claro, e de nos ajudarem a publicar mais e melhor, contribuindo para a nossa sustentabilidade financeira com doações mensais recorrentes, afirma.

Ainda assim, garante que esta experiência tem sido um privilégio, visto que trabalha com pessoas que pensam no jornalismo como uma responsabilidade e não apenas como um trabalho. Pensam no impacto das palavras que escolhem publicar, das histórias que decidem contar e das pessoas que procuram ouvir. Todos os dias tenho o luxo de aprender com elas, confrontá-las, editá-las; e de ser por elas questionado e escrutinado, afirma o ex-escsiano.

Relativamente a projetos futuros, desvenda que, por agora, vai cuidar da segunda temporada do Poejo, enquanto se dedica à leitura sobre prisões para uma investigação futura do Fumaça. Com o intuito de deixar um conselho aos finalistas que se aproximam do mercado de trabalho, diz: 

Não se deixem explorar e denunciem as más práticas laborais. O estágio não deve ser uma ferramenta de precarização de jovens profissionais, mas um exercício formativo em que o trabalho é remunerado de forma digna. Eu já senti, defendi e argumentei, erroneamente, que a única forma de se entrar no mercado era submetendo-se a práticas abusivas de grandes empresas. Não é. Procurem um empregador que vos respeite e valorize.

E este é o percurso do ex-escsiano Nuno Viegas, recheado de experiências positivas que o tornaram no profissional que é atualmente.

Artigo escrito por: Mariana Faria

Artigo revisto por: Andreia Custódio

Avatar

Sempre quis pilotar aviões, mas a vida mudou-lhe os planos e descobriu o prazer na escrita. Movida a desafios e curiosidade, a Mariana adora correr, meditar e trabalhar em multimédia. Pensa no futuro mas vive muito o presente, confia na vida e sabe que vai ter sempre um lugar para a escrita. Nasceu em Lisboa mas vive nas Caldinhas, “o oeste é vida”, garante. Perde-se no mar, mas o surf dá-lhe vida.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *