• Opinião

    No meu tempo

    Este artigo é escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico Não fui à minha viagem de finalistas. Recusei-me a manchar a minha reputação de misantropo pseudo-straight edge. Mal de mim se alguma vez eu me iria associar com a mentecapta ricalhagem com quem partilhava a sala de aula. O meu esquerdismo extraiu um pouco desta arrogância juvenil, mas não mexeu muito nas minhas convicções originais – continua-me a subir a bílis à boca sempre que sinto a presença de um snobe, de uma tia ou de um menino/a rico/a. Como podem imaginar por este discurso, não me arrependo de não ter ido. Os acontecimentos recentes em Torremolinos surpreendentemente não funcionaram…

  • Opinião

    O novo bastião da direita alternativa

    Este artigo é escrito ao abrigo do novo ortográfico Confesso: sou um viciado no Youtube. É raro o dia em que não perco lá umas horas, a viajar pela secção dos “sugeridos”, a acompanhar channels de que gosto, ou autisticamente a ver vídeos que já vi meia dúzia de vezes. É um escape – afoga-me os sentidos e impede-me de ter alguns pensamentos não tão agradáveis. É, portanto, com enorme desgosto que vejo o Youtube a tornar-se na maior fonte de propaganda da chamada direita alternativa – uma ideologia política conservadora, mas que rejeita os tradicionais dogmas cristãos. Caracterizada pela islamofobia, pelas plataformas anti-imigração e pelo anti “politicamente correto”, esta…

  • Opinião

    Discurso Digital: Empobrecimento ou Enriquecimento Linguístico?

    Este artigo é escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico É inegável o impacto que o galope científico tem no quotidiano. Agora, mais do que nunca, a nossa vida gira em torno de um paradigma da microeletrónica em rede – objetos básicos da culinária, como uma torradeira ou uma cafeteira, juntam-se hoje a um universo online governado pelas aplicações. É natural que a língua, tratando-se de uma codificação arbitrária e mutável, tente acompanhar este híper-avanço tecnológico. Assistimos hoje a uma metamorfose na forma de escrever e de falar, que vai muito para além da formalização do novo acordo ortográfico. Refiro-me a uma espécie de simplex linguístico. Um novo discurso resultante…

  • Opinião

    Horóscopo podre

    Esta crónica é escrita ao abrigo do novo acordo ortográfico Se algum de vós, leitores, tem acompanhado ferverosamente esta minha aventura enquanto cronista, deve ter a noção de que nada me põe o sangue a ferver mais depressa do que a pseudociência. Ora, poucas coisas englobam mais este espírito burlão do que a cartomancia – a “arte” de adivinhar o futuro através do lançamento de cartas. Algo aparentemente inocente, mas que pode ter repercussões sociais (e até económicas) extremamente graves. Não acreditam? Então vejamos. Tomemos como exemplo Carla Duarte, taróloga de profissão e apresentadora do programa “A Vida nas Cartas – O Dilema”, transmitido durante as tardes da SIC. Aqui…

  • Opinião,  Secções

    O aparente paradoxo

    Pobres que votam na direita. É estranho, não é? Alguém apoiar um espetro partidário que vai contra os seus interesses? Desde o começo da minha puberdade política me questionei sobre isto. Será preconceito meu? Incompreensão das posições conservadoras? Escapa-me qualquer pormenor, certamente. Não consigo acreditar que a iliteracia populacional seja assim tão devastadora. A direita, defensora dos cortes no IRC e do alívio fiscal nas altas classes económicas, aliada das privatizações e do retrocesso social e amiga do peito dos “gatos-gordos” de Wall Street, entra em direto conflito com os interesses da classe média. Há algo que absolutamente não encaixa nisto tudo. Como podem os republicanos ter qualquer base de…

  • Opinião

    Escavar à procura de ouro

    Há certos debates que são naturalmente dados à violência verbal. Quando o assunto é quente a boca não se contém. Estou muito longe de ser excepção a esta regra. Exalto-me com excessiva facilidade, mesmo quando me apercebo, mais cedo ou mais tarde, que tal funcionou em meu detrimento. Sim, porque quem diz que não quer influenciar o outro numa conversa está a mentir. Só quem desempenha o papel de advogado do diabo pode afirmar que não quer convencer a outra pessoa da veracidade daquilo que está a dizer. Os temas sociais são os mais dados à violência verbal. Reitero que, para bem ou para mal, isto faz parte da essência…

  • Opinião

    A esquerda castrada

    O volta-face nas recentes eleições britânicas pareceu improviso teatral. Após meses de sondagens, estudos e estatísticas a apontar para um claríssimo empate técnico entre Trabalhistas e Conservadores o resultado foi, no mínimo, surpreendente. Uma corrida que seria um roer de unhas até à última tornou-se numa arrebatadora vitória para o atual governo de David Cameron. De tal forma estava a ideia de um impasse eleitoral difundida por todo o espetro mediático, que, em várias estações televisivas, estrangeiras ou nacionais, podia ouvir-se que a única certeza nestas legislativas era a de que uma maioria absoluta seria absolutamente impossível. Teria, então, de existir uma coligação partidária de forma a termos uma base…

  • Opinião

    Sangue do meu sangue

    A geração dos 90 nasceu e cresceu marinada em apatia. Poucas questões sociais restam para conquistar. A maioria das minorias está perto de atingir, ou já atingiu, a plenitude da igualdade de direitos. Não há motivação que sobreviva, quando não há nada pelo que lutar. Bom, mesmo assim, há um assunto do foro social que já se arrasta faz alguns anos. À medida que os pilares centrais da nova constituição populacional são eretos, há um aumento do foco de atenção dado a estes temas algo mais periféricos. Comparativamente com as restantes ex-disputas de realidade vs. preconceito esta é um pouco mais bicuda, no entanto. Falo da problemática acerca da proibição…

  • Opinião

    Crónica: Glorioso

    Nunca gostei de desportos colectivos. Julgo ser consequência da minha personalidade anti-social e do meu enamoramento pela clausura. Sempre me identifiquei com a solidão do ténis e com o pacifismo do golfe. Complementando, sou avesso a todos os tipos de fanatismos – sejam eles religiosos, políticos ou antropológicos. Quando amalgamamos este dois traços da minha personalidade, obtemos uma contra-corrente de pensamento. Um indivíduo teórico, cuja experiência prática é nula, enojado pelo extremismo. Observo, com desgosto, a criação duradoura de uma “neo-religião”: o clubismo. Há apenas um desporto equiparável ao fanatismo de um extremista: o futebol. Devo, antes de continuar, dar a minha definição de facciosismo. Este é, para mim, algo…